domingo, 21 de julho de 2013


A festa verteu-se numa experiência miserável. As músicas, o barulho e todo o indistinguível transtorno sonoro, asfixia, deita o aposento à perturbação claustrofóbica. Serpenteio em meio aos corpos dessensibilizados, copos e faces, escapando em ânsia aos espasmos e jorros de líquidos preparados para impregnar quaisquer extensões. Os barulhos advindos da caixa de som entram em sintonia com os pulsares doloridos em meu cérebro. Do lado de fora, a imensidão me saúda com uma brisa consoladora. Vejo mais alguém saindo da casa e imagino como desejaria continuar meu percurso sem trocar quaisquer palavras com ninguém. Minha liturgia de solidão me cobre com uma suave misantropia (deveria enfatizá-la mais a partir da experiência das sensações naquele âmbito caótico). Só de imaginar que alguém me perceba, sinto-me irracionalmente ameaçada. Aprecio a sensação da distância e do nada. Não que o nada se manifeste em minha mente, de fato, estou sempre presa a este mundo que me rodeia. E esses tipos de noções infiníticas são imperturbáveis em longitude. Meus pensamentos, nesses momentos, são do tipo que se dispersam assim que se tem contato com eles. Como se não participassem da minha experiência, surgem num equívoco.
 À distância, há um banco próximo a pequenas árvores. O luar, etilicamente embalado, liberta por uma pequena fresta, entre os galhos e folhas, um pequeno feixe de luz perolada, como uma pura nota de piano vertida em sonata que distancia a ode de vida e morte, na dança repetitiva e alucinatória dos cativos. A representação do lugar torna-se cada vez mais disforme à medida que a reverberação lancinante desaparece. Aproximo-me de um lago, cujo único sinal de toque humano são luzes posicionadas ao redor, refletindo na superfície da água, balouçando com a brisa. O arroubo de agitação das criaturas na festa, delirando que sua balbúrdia ornamenta, num contorno febril, toda a extensão do mundo, vê-se similar à iluminação reproduzida no espelho lacustre, juntamente com as estrelas. Como a luz que realça a escuridão.
Adormeço.

Os sons terrenos me fazem desejar ser embalada de volta ao meu sonho de errância; meus passos fracos anseiam pela desejosa facilidade do estado de sono, porém o âmbito gravitacional é aflição trágica do incontornável amanhecer; os segundos disformes suspensos cedem à potência do sono vago. Deleito-me por milhares de anos naquele fragmento de segundo; milhares em que me desfaço e que me refaço nas arestas do universo; matizes do ambiente desconhecido e melancolicamente reconhecido. Do segundo carro que passa já lhe reconheço alguma existência espacial. A aspereza retilínea do percurso da rua é consternadora; ânsia e ansiar do fluxo aspiral noturno. O sonho dilapidado e fragmentado, esquecido em dissonância, revela lapsos, cenas de correnteza remoldada sem sequência. Observo e anseio que ao menos a impossibilidade do mundo exterior abandone-se das linhas retas e a terra se faça ilusoriamente sem serpentear; ou que o ambiente ondeie em terremoto sem se perceber da alucinação transgressora; o despertar; milésima origem do não-dito; o ínterim entre dois carros. Esfrego as mãos, observo as espécies de pássaros se multiplicarem, felizes por sua obrigação instintual, e vou para casa.

quinta-feira, 9 de maio de 2013


É algo a se suspeitar (e, com a posse de certo conhecimento, rejeitar), a noção de que todos os nossos desejos habitam sempre a parte rasa nossa consciência, que conhecemos todos no ápice da nossa racionalidade (afinal, fazem parte do nosso próprio interior, que seria de se supor que compreendêssemos melhor do que todo o resto), e que sempre serão expostos em frases ditas à metafórica luz do dia. A complexidade dessa questão é evidente a qualquer um que tenha um conhecimento mínimo de quaisquer teorias psicanalíticas.
Entretanto, todas as (até então) suposições tornam-se mais categóricas, em situações em que experimenta-se o próprio conflito. Quando se racionaliza que algo não é tão desejável (com motivos perfeitamente lógicos), onde você admite algo, de forma despretensiosa, apenas para conhecer uma nova possibilidade. As razões conscientes são ditas à luz do dia, aos outros e a si mesmo. Já à noite, em reflexão, é possível deparar-se com lapsos manifestos do inconsciente. Você, de forma desconcertante, e num momento não tão raro de iluminação, descobre que sim, aquilo era mais desejável do que você seria capaz de verbalizar, a despeito de todas as coisas aprendidas comumente ao longo da vida.
Daí, há de se abandonar a crença na tentativa falsamente desinteressada. 

domingo, 5 de maio de 2013


Ela sentia uma doçura inimaginável somente pelo fato de poder fitá-lo sorridente em meio ao ambiente agradável e lotado. Via-se tranquila por seu lembrete mental que ressaltava sua posição privilegiada, implícita. Esse prazer, decerto a tornaria indiferente às vicissitudes da existência. E assim era o amor. Prolongava uma sensação poderosa, preenchia-a com uma febre dos sentidos. Antes disso, ela sentia-se apenas como si mesma, desprovida de propriedades extraordinárias, imersa na mediocridade e na contingência (devido à formação advinda de uma construção ferrenha de valores marcados na sua pele). E, de onde, pelos céus, havia vindo aquela suposta felicidade? O que aquilo deveria exigir dela? Qual era o seu significado implícito? As respostas não estavam em lugar algum além dela própria - sabia. Restava-lhe apenas a repetição da explicação que limitava suas expectativas; esperava poder usufruir dela e vê-la intacta, no momento posterior ao que estaria por vir.
Ela somente poderia conhecer as experiências de outrem; o que lhe informava, decerto que o fracasso beirava à unanimidade. Todavia, a cor de seus olhos sobressaía-se em tons variados em seu imaginário. Ela não tinha uma alma observadora e não podia diferir seus tons em meio aos demais. Somente seus traços marcantes fulguravam em brilho cerrado, estimulando sua imaginação e criatividade.
E, ao ouvir seu nome, tomava um fôlego condicionado. Esperava ocultar em seu interior mais distante todas as vezes que o pronunciava em segredo, em necessidade insensata.
O tempo ondulava suas memórias, atiçando-lhe o passado, fora de seu domínio, que ela jamais poderia obter novamente. Talvez sua esperança, tão inerente ao seu espírito, lhe tivesse sussurrado palavras vãs durante todo esse tempo, e talvez a forma das coisas como são seja apenas um estado psíquico transitório em sua constituição, pois os mesmos objetos de valor que lhe eram estimados, a mesma aparência natural das rosas em seu jardim, e os mesmos traços pertencentes a ela mesma, que envolviam a sua face numa aparente neutralidade constante, já não pareciam o que eram antes.
Era uma necessidade mais ou menos prolongada. Via-se agora numa exposição incomum. As ondas de felicidade embaciada eram menos constantes, e ela perscrutava um sentido dolorosamente forçado em meio a uma ânsia cansativa. Revivia a sede por algo novo e confrontava-a, em hesitação. A felicidade e o tédio aparentes haviam turvado sua visão e modificado sua sensibilidade. Somente tinha lapsos agora, enquanto era tocada pela tristeza, ao passo que adquiria consciência tardia da sua extensão. Os lapsos eram momentaneamente discerníveis, para posteriormente esvaecerem, sendo apenas compreendidos pelo aprazimento que davam; e certamente seriam impossíveis de se obter em algum desígnio objetivo e formal, de classificar em lucidez, de se evocar quando fossem precisados. Existem em efemeridade e deslizam pelos alicerces da mente.

quarta-feira, 1 de maio de 2013


Parado numa esquina, inquieto, olhava um ponto fixo na calçada. Visava quase sempre o chão, ignorando os olhos dos transeuntes. Seu amigo surpreendeu-o com um tapa, oferecendo-lhe um cigarro. O menino aceitou, com suas mãos pequenas.
Foi procurar sua mãe, enquanto recolhia jornais velhos do lixo. No caminho encontrou um grupo de meninas do colégio particular da vizinhança, que riam efusivamente. De imediato, pararam. Olharam-se de uma forma que certamente acreditavam ser discreta, e apressaram o passo, em silêncio contido. Ele tentou observar o chão, mas os sapatos das moças ainda estavam obstruindo a plenitude do que via.
Tirou um confeito que estava guardando do bolso. Degustou nervosamente enquanto andava pela rua deserta. Um senhor e um jovem adulto passavam, na portaria de um prédio. À sua vista o senhor falava alto, pouco antes de entrar, e para quem, era apenas uma suposição. “Esses moleques vivem infestando a rua. Eles não têm culpa de terem nascido, mas os pais sim! Os pais ficam escondidos enquanto colocam os moleques pra vender chiclete no sinal, por isso não dou esmola pra criança nenhuma!”. O menino ficou um pouco confuso sobre como deveria aceitar aquela declaração repentina, imaginando que fosse algo superior à sua ignorância infantil.
Encontrou sua mãe encolhida perto de uma árvore e de uma loja fechada. Estendeu um jornal por cima dela (começava a sentir uma brisa fria, já que estava escurecendo, e não queria que ela ficasse doente), e acomodou-se contra o seu corpo. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Distração


Essa sensação”, pensava, “não condiz com a realidade“. Em minha condição de mim mesma, sentia-me com qualquer julgamento empobrecido. Racionalizava quaisquer sentimentos incômodos no percurso de um confronto interno, delineando em falso contra minhas convicções. E não seria aquela lucidez que enganava? Fraca sapiência, que reflete a própria insignificância.
Os sonhos são cálidos e as perspectivas são suaves. Não haveria uma brusca irrupção causada por uma dose caridosa de autocrítica. O homem médio que se ergue em favor da própria realização, e que, em verdade, se supõe alheio em meio aos outros pontos transitórios no tempo.
E haveria o pertencimento, a obrigação instintual pela continuidade. Deus me ajude, diria. Quero pertencer também. Deslumbrar-me com as inúmeras facetas humanas, amar ao próximo e tudo mais. Todavia, meu egoísmo é o que me faz observar algumas coisas com cobiça e cautela. Não poderia colocar isso em palavras, com um medo infrutífero de que todo um inferno se concretizasse em minha mente.


E, oh, quão fastidioso. Via a mulher saindo de casa, aos prantos, falhando ao parar para se recompor. O homem a seguia, esboçando desculpas suaves, para que quem quer que estivesse na rua (além de mim, eu não me importo) não visse o espetáculo. Desculpas entrelaçadas com toques. E um tapa. Poderia fingir que não tinha visto isso antes. Por fim, ela apressou o passo, o que, presumo, seria complicado com aqueles saltos finíssimos. Deveria ter prática, ela era boa em correr. Dobraram a esquina. Olhei num átimo para gravar a curta imagem mental.
Acredito com convicção que a linha de pensamento que poderia ser seguida nesse momento (em respeito ao nobre casal), não deveria ser sobre todo o tempo investido que num espasmo se desfez. E tampouco sobre a decadência das relações humanas. A inconstância humana é algo admirável, se pararmos para pensar. E não é que eu esteja em qualquer posição superior e neutra - o álcool é certamente um bom condutor de memórias estratégicas.
Um garotinho de uns sete anos apareceu pra conversar comigo, tentando me distrair enquanto o amiguinho tentava furtar minha bolsa. “Você é engraçado, moleque, toma isso aqui pra comprar alguma coisa”. Depois disso, ele trouxe mais amigos engraçados, mas eu já não estava mais interessada.
Posteriormente, numa parada de ônibus, conduzia de forma despreocupada uma conversa com um senhor de idade, que levantava fatos da própria vida de forma não muito linear. Falou sobre a esposa morta, mas só uma frase ficou na minha memória: “Deus levou todo o amor junto com ela”. Os mortos são santificados, e o amor que habitava neles, também (muitas vezes padecem as aspirações do companheiro em vida). Gastei algum tempo refletindo sobre quem me santificaria depois que eu me fosse.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Órfão


Um lapso; uma amostra no tempo. Uma dolorosa exaustão com o peso de si mesmo. O garoto pintava um foguete azul, num céu igualmente azul.
Percorria novos contornos no papel, em repentino senso de distração. “Eu sabia que ele tinha quebrado!”; passava o lápis repetidamente nos mesmos pontos. “O menino veio da rua, o que você esperava?”, uma pressão com os dedos rígidos e doloridos vertia o céu límpido num cenário tempestuoso.
Um acontecimento. O garoto tentava discernir sobre o que lhe faltava. Tinha uma nova família, e isso era o que, supostamente todos ansiavam. Não estava particularmente triste, mas cheio de ira que vinha de longe e ia para lugar nenhum.            
Quando menor, morava com sua mãe biológica. Ela o fazia sentir-se triste, mas ele imaginava que isso era perfeitamente normal. Ele não sabia de muitas coisas. Sua mãe impunha o próprio gesto, desrespeitava a vontade dele próprio. Rompia as vertentes de qualquer harmonia e continuidade humana. Entretanto, todas as histórias que ele lia tinham um final feliz. Por exemplo, em ”João e Maria”, o pai biológico dos jovens os aceitava de volta, depois que eles retornavam com os tesouros da bruxa má. Ele tentou fazer isso, mas não pareceu tão certo quanto no conto. Imaginava que os tesouros que ele havia furtado não deveriam ser tão valiosos quanto os da bruxa, e que, provavelmente por isso, sua mãe não o aceitara.
Depois que sua mãe desapareceu novamente, foi enviado a um orfanato. Gostava de brigar e de maltratar os pequenos. Tinha dez anos, e os menores saíam de lá tão rápido, que ele imaginava que havia algo errado consigo (talvez fosse por isso que os maltratava).
Ele não sabia descrever o tumulto que surgia quanto aparecia um casal novo no recinto. Sempre iam aos berçários. Talvez fosse porque os bebês não tinham expectativas ou qualquer coisa evidente em seus rostos. As crianças maiores tinham muitas coisas evidentes em seus rostos.
O garoto percebia que, quando não estavam tentando ganhar atenção, eles pareciam tristes por algo que ninguém havia jamais contado a eles. A apatia era revestida por desconfiança, e a ira chegava. Ira por algo que não sabiam descrever, ira voltada para eles mesmos. Criar laços genuínos, sem qualquer interesse evidente, era um tabu. Havia um consenso mudo sobre a destrutibilidade que qualquer laço poderia causar na vida de qualquer um.
Mas a ânsia ainda era agressiva.
“Órfão“. Nomeavam-lhe tantas vezes, com uma variedade tão distinta de designações; muito mais – ele tinha certeza – do que as que as crianças amadas possuíam.
O garoto entendia instintivamente (e conclusivamente, para qualquer questão ou equívoco interior) que não deveria depender de ninguém para a própria sobrevivência.
Eis a realidade. A única realidade do mundo. O mundo inteiro era o seu próprio.  O espaço era revestido por tons de azul escuro, juntamente com o foguete que o faria explorar o universo acima de todas as outras pessoas. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012


Em pensamentos equivocados, quis evidenciar a alegria sentida apenas quando tornou-se metamorfoseada. O mundo que somente existe no interior decresce; o exterior torna-se pífio e sem valor. Onde outrora havia um templo de prodigalidade e ostentação, hoje ergue-se uma estrutura aonde se deixam coisas abandonadas. O que era belo foi internado e mostrou-se invisível, embora não menos atraente.
Até a proximidade em si tornou-se vaga e questionável, longínqua. Meu alento é débil demais para celebrar a virtude, enquanto eu, satisfeita na incompletude, quando o vejo atraindo para si todas as estrelas, desarticulando-as de sua fixidez no céu, torno-me emudecida.
Uma mão ávida espalmada para um ideal vazio. Imagino com horror quão irremediável é o sentimento de manter aquecidos ideais vazios, como quem abraça um corpo sem vida e lhe atribui consciência.
Observo, à distância, em pensamentos metafóricos, a contemplação e todas as coisas. A casualidade, o inesperado, a pureza que se sabe infinita, sem qualquer ânsia. Uma criança perdida esporadicamente nesse lugar, que é despertada em silêncio.
E a inquietação me domina, como se a nostalgia daquilo que se foi, ou as percepções de para onde eu deveria ir e como deveria ter sido, fossem porventura mais verdadeiras e coesas quando atribuídas a quaisquer noções esporádicas de fidelidade.
Indefesa e confusa, pressentindo a perda, acolho a solidão (quando evidenciada) momentânea, como quem acolhe todas as coisas.  

sábado, 28 de julho de 2012


Encontrei-me desperta, com um torpor de ressaca numa manhã penosa. Não desejava mover-me ou voltar a dormir. A luz diáfana atravessava a cortina, e incomodava meus olhos. Uma memória me impulsionava, e eu não a diferia de um pesadelo, com sentimentos conflitantes e estranhos.
Finalmente, movi-me pelo chão fresco do quarto, atordoada, forçada a refletir sobre o que me esperava no andar de baixo. Tive um vislumbre de mim no espelho, e voltei para ver melhor; era um lamentável reflexo: olhos dilatados, boca inchada, e uma feição desconhecida de um rosto que não parecia comigo. Por qual razão eu fui tão fraca e desprezível? Por causa da minha face, do meu ser, da minha educação? Por causa daqueles execráveis e arbitrários limites? Entretia-me em uma nova aversão àquela face, contorcida num esgar de prazer. Pus-me a exercitar o sentimento antes que ele se perdesse, e me olhava nos olhos. Aquilo me pertencia, e não gostaria que isso se desvanecesse na incompletude e na falta que sussurram em minha quietude. Um suspiro de retorno ao nada, ao ceticismo monocromático, à tontura torpe e à emoção do absurdo, como um bilhete de amor jamais entregue a ninguém.  

domingo, 20 de maio de 2012


Ela permanece de olhos fechados, cantarolando algo sem sentido, corando. Entendo o apaixonamento, mas devido ao contexto, perguntas que outrora seriam apenas reflexões sombrias passam a se tornar urgentes.
Tentei buscar em minha memória as diversas faces conhecidas de minha irmã. Desdém, ironia, desembaraço. O amor a deixa como se fosse uma imitação pálida e púida de algo que começa a fugir de minha memória. A descoberta daquela face esboça algum tipo de comoção e incômodo. Ela de fato o amava? Seria possível? Nada nele correspondia às suas expectativas. Ele era frívolo, insípido e inconstante. Em uma boa perspectiva, talvez fosse apenas o desgaste, algum tipo de indignação moral.
Após um momento, ele surgiu, e de imediato segurou sua mão e a puxou para um beijo. Insignificante. Sorriam ambos. Sua expressão era sincera, cálida e gentil. Pensei ser bem possível que minha irmã o amasse, qualquer um poderia se apaixonar por ele. Qualquer um.
Não sentia rancor de minha irmã por possuir meu objeto de desejo. Não poderia sentir, ela não era má. Eu a via absolutamente indiferente; seus julgamentos não possuíam qualquer lado agudo e preciso da maldade. Ela apenas poderia ser bastante incompreensível e porventura inconveniente. Hoje se encontra desprovida do véu apático. Sorri.
Agora inspiro um ar agradável, carregado por nostalgias. Me recordo pacientemente do encantamento mais puro que ele lançou sobre mim. Desconfiava que fosse o que chamam de amor, mas não poderia ser tão transcendente; seria quase abominável. Então, naquele tempo, construindo um templo em minha dúvida, fez de mim sua serva. Minhas mágoas se dissolveram, minha memória que por si só é suficiente. Meu festim. Meu interior que transborda de dor e alegria. Quase posso sentir, até o momento em que minha memória falha, aquele aonde crio situações que preenchem a lembrança esquecida.
Quando ele me lapidou em vácuos constantes, verteu crença em loucura. E ao fim do dia, solidão.
Não poderia abandoná-lo, jamais. É a lição de quem se apaixona pela insanidade, brinda ao abandono e dorme com a demência; entrega seu primeiro amor ao absurdo. Um êxtase impensável e maldito.


Percebo minha face no espelho. Sou jovem. Uma adolescente em êxtase transbordante de vida. Entretanto, a cada dia me percebo como quem fica mais velha. Cada segundo me torna próxima de algo incompreensível. Cada dor ínfima e externa faz com que minhas células se espalhem frias, rijas e escuras. Cada desdém ao meu redor acrescenta uma década à minha existência.
Por fim, morrerei.

Hoje percebo meu pulsar onírico, minha intermitência bem-aventurada. A atrocidade transbordante se foi com a calamidade e eu respiro a paz. Nada deveria importar.
Despertei como quem escapa de um rumo terrível e sem volta que jamais deveria ter seguido, sob influência de outros. Estou confusa, mas tudo é convidativo ao meu bem-estar. Logo me torno esquecida e me deito na estabilidade do mundo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Chuva.


Não, nunca mais. Que torne-se o canto da sobriedade, tua enunciação. És em verdade como um pássaro desamparado, lançado no íntimo do céu.
E o seu amado, buscava a companheira ideal, coberta e invisível. Distante como um eco solitário que não é ouvido por ninguém. Um pressentimento de amparo sob a chuva torrencial do mundo, que se derrama em incompletude e confusão.
E o momento é cálido, como não poderia ser? Aquela simples percepção valerá o infinito. O que mais poderia desejar além daquele momento?
Por fim, despeça-se, em sorrisos sinceros, para que ele não torne a habitar seu coração. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um começo infrutífero para o dia. Tinha feito planos para sair e dar provas da minha estadia bem-sucedida no topo da escala da sociabilidade juvenil. Inferno, mal conseguia ficar de pé.

Deslizei as pontas dos dedos em minha testa, numa tentativa medíocre de curar a dor latejante. Tropecei numa garrafa e pisei no meu próprio vômito. Adorável.

Liguei o som enquanto tentava me coordenar. As paredes finas indicavam sons lascivos do outro apartamento. Devem estar se reconciliando da briga da noite passada.

“You dream of seeing fire in them hills.”
Não conseguia encontrar roupas bonitas o suficiente. Muito bem; beleza, desejabilidade social... Desnecessários.

“But you better wipe that smile from your lips.”
Depois do banho, sentia-me muito mais disposta a desperdiçar toda a minha amabilidade e graça naturais trancada em casa. Muito apropriado.

Algum tempo depois, fiz algumas misturas de tinta contemplando a tela em minha frente. Perfeita para expressar o que eu queria. Nada. Mas eu não ganhava dinheiro com arte moderna.

Um tema gritante; algo eufórico. Uma contraposição com meu estado de espírito. Talvez a apatia e afastamento. Deus, mais disso não. A escória dos sentimentos humanos; exatamente o que eu preciso para afundar meu humor.

Talvez a minha única oportunidade de ter uma expressão genuína fosse nessa tela. Eu possuía uma disponibilidade quase anormal para me distanciar de explosões de humor: euforia, tristeza, afeto... Não chamaria de apatia natural; apenas algum tipo de indisposição. Surpreender-me desligada em pensamentos em meio aos desabafos contínuos de conhecidos rendeu-me boas horas de tranquilidade. E uma repelência para todas essas pessoas.

Uma tela romântica.

Muito apropriado retratar o amor e todas as suas virtudes, uma vez que eu me excluía da lista de pessoas que ganharam esse sentimento de presente dos céus (!). Eu adorava casais apaixonados; observá-los não me incomodava em absolutamente nada, ao contrário das queixas que ouço frequentemente. O amor aumenta a vulnerabilidade, diminui o raciocínio. Arremessa as pessoas numa linguagem poética natural. E a beleza, e a contemplação... A tragédia.

Os jovens que choram copiosamente sob uma circunstância qualquer, em meio às juras de amor infinito. A memória humana é fraca demais para absorver algo que sequer é alimentado. Num término de namoro, ou numa idealização platônica a maior dor é auto-infligida. Sofrer por amor é poético (uma vez que você é imerso nisso). Não muito saudável, entretanto.

Imagino minha representatividade para o amor; não sou acolhedora com interpretações de flertes e jogos cansativos. Observá-lo de longe me faz imaginar quão indigna eu devo ser dele. Oh, da tristeza também.

Nada.


“I don't know how to let you go
Or if i should keep you
I don't know how to let you know
I really do have a reason

I like to grab you by the hair
and drag you to the devil”

Contemplei a tela em branco, quase desligando minhas divagações em meio às imagens mentais.

Distância.

(...)

Outro copo de vodka e uma boa distância dessa tela. Um brinde ao amor.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Distante. Eu desvaneci sob a escuridão da noite.
Com a consciência alterada, via imagens difusas pelo céu estrelado, percorrendo minhas reminiscências. Ouvia ecos de meus amigos rindo do meu estado, embora minha mente estivesse fixa em algum tipo de miséria atemporal. Ninguém me levaria a sério. Sorri.
Haviam ruídos incessantes, mas meus olhos se moviam com as imagens fantásticas que preenchiam minha noção pobre da realidade. Eu manipulava a felicidade do imaginário e poderia mergulhar nisso; abandonar todas aquelas pobres criaturas na mediocridade.
A música era alta, a casinha estava coberta de jovens. Um casal estava tirando as roupas pela grama. Pousei meus olhos ali por um segundo; um rosto conhecido. Vertigem. Virei-me; tropecei. Apoiei-me e deitei novamente no chão. Olhava para a lua, gloriosamente cheia enquanto fazia o movimento automático e condicionado por mim mesma de arranhar meus pulsos para me distrair.
Oh.
Risadas.
Balancei a cabeça, cantarolei. Começava a ouvir os gemidos por perto, e sentia que era a hora de tentar sair novamente. Meu mundo fantasioso girava e me enfrentava, irrompendo da insegurança. A felicidade seria magnífica, assim como seu oposto indefinível, naquele momento. Eu deveria conter os soluços, como a garota educada, em sua relação simbiótica com a mãe.
Aversão. Ódio. Estes me eram sentimentos relativamente raros. Estava consciente o suficiente para considerar isso e esbocei uma risada, estupefata pela surpresa. Perdi a disputa, tomei consciência de minha debilidade. Cambaleei até o lugar mais distante que meus pés alcançavam naquele momento. Amanhã tudo voltaria ao normal, e eu imaginaria novamente como eu modifiquei as perspectivas, tornando-as absolutas num espaço ínfimo de tempo. Dei um encontrão com uma árvore e voltei ao chão.
Ao fundo, ouvia gritos de prazer e miséria.