sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Órfão


Um lapso; uma amostra no tempo. Uma dolorosa exaustão com o peso de si mesmo. O garoto pintava um foguete azul, num céu igualmente azul.
Percorria novos contornos no papel, em repentino senso de distração. “Eu sabia que ele tinha quebrado!”; passava o lápis repetidamente nos mesmos pontos. “O menino veio da rua, o que você esperava?”, uma pressão com os dedos rígidos e doloridos vertia o céu límpido num cenário tempestuoso.
Um acontecimento. O garoto tentava discernir sobre o que lhe faltava. Tinha uma nova família, e isso era o que, supostamente todos ansiavam. Não estava particularmente triste, mas cheio de ira que vinha de longe e ia para lugar nenhum.            
Quando menor, morava com sua mãe biológica. Ela o fazia sentir-se triste, mas ele imaginava que isso era perfeitamente normal. Ele não sabia de muitas coisas. Sua mãe impunha o próprio gesto, desrespeitava a vontade dele próprio. Rompia as vertentes de qualquer harmonia e continuidade humana. Entretanto, todas as histórias que ele lia tinham um final feliz. Por exemplo, em ”João e Maria”, o pai biológico dos jovens os aceitava de volta, depois que eles retornavam com os tesouros da bruxa má. Ele tentou fazer isso, mas não pareceu tão certo quanto no conto. Imaginava que os tesouros que ele havia furtado não deveriam ser tão valiosos quanto os da bruxa, e que, provavelmente por isso, sua mãe não o aceitara.
Depois que sua mãe desapareceu novamente, foi enviado a um orfanato. Gostava de brigar e de maltratar os pequenos. Tinha dez anos, e os menores saíam de lá tão rápido, que ele imaginava que havia algo errado consigo (talvez fosse por isso que os maltratava).
Ele não sabia descrever o tumulto que surgia quanto aparecia um casal novo no recinto. Sempre iam aos berçários. Talvez fosse porque os bebês não tinham expectativas ou qualquer coisa evidente em seus rostos. As crianças maiores tinham muitas coisas evidentes em seus rostos.
O garoto percebia que, quando não estavam tentando ganhar atenção, eles pareciam tristes por algo que ninguém havia jamais contado a eles. A apatia era revestida por desconfiança, e a ira chegava. Ira por algo que não sabiam descrever, ira voltada para eles mesmos. Criar laços genuínos, sem qualquer interesse evidente, era um tabu. Havia um consenso mudo sobre a destrutibilidade que qualquer laço poderia causar na vida de qualquer um.
Mas a ânsia ainda era agressiva.
“Órfão“. Nomeavam-lhe tantas vezes, com uma variedade tão distinta de designações; muito mais – ele tinha certeza – do que as que as crianças amadas possuíam.
O garoto entendia instintivamente (e conclusivamente, para qualquer questão ou equívoco interior) que não deveria depender de ninguém para a própria sobrevivência.
Eis a realidade. A única realidade do mundo. O mundo inteiro era o seu próprio.  O espaço era revestido por tons de azul escuro, juntamente com o foguete que o faria explorar o universo acima de todas as outras pessoas.