Seus cabelos longos emolduravam seu rosto pálido, sob a manhã de domingo tediosa. Haviam pessoas por todos os lados, pessoas circulando seu mundo, pessoas cuja existência ela desconhecia. Ela não se importava.
Em passos incertos, caminhava na sombra das árvores e dos prédios. Não gostava da fumaça das ruas, mas isto era terrivelmente preferível do que a sua casa habitada por estranhos domesticados.
A data era familiar. Ela teria algo para fazer; algo para concretizar. Ela estivera esperando por isso durante muito tempo; e seu coração acelerava com a idéia de poder fazer aquilo que deveria fazer; encontrar quem deveria encontrar.
Talvez...
Ela tremia e sentia a brisa leve. Estava quente. Seus olhos se fechavam aos poucos com a visão iluminada pelo sol nas ruas. Ela voltou seus olhos para o chão e sentou-se.
Tentava imaginar quem deveria encontrar. Se ela não se lembrava, não deveria ser importante. E sua face parecia tão abatida sob aquele dia inebriante; as pessoas estranhas surgiam de lugares inesperados notando a sua presença pequena, e estendiam suas mãos desconhecidas para que ela recebesse ajuda vinda de outros mundos complexos.
“Como eles poderiam me ajudar?” – Imaginava sem sequer direcionar seus olhos para a face daqueles que esqueciam de suas vidas naquele instante. Logo iam embora.
Logo iam embora.
Há algum tempo ela teria perecido na solidão. Teria ficado horrorizada com a idéia da distópica de abandonar qualquer companhia vulgar.
Contava as memórias, contava os sonhos com os dedos.
“Eu deveria encontrar alguém aqui.”
“Deveria?”
Ninguém veio. Ela não esperou ser lembrada, mas estava curiosa. Levantou-se da calçada suja. Olhou ao redor. A vida parecia tão nova, incrivelmente. Sentiu vontade de dormir, mas precisava andar; precisava andar muito mais. Caminhar sobre aquela rua esquecida e tentar lembrar do seu interior. Provavelmente mais daqueles surgiriam tentando ajudá-la, mas fez uma anotação mental de não se mostrar abatida perante os estranhos.
Eles eram insuportavelmente irrelevantes. Pareciam tão supérfluos como a sua memória que soava importante em seu âmago. Ela estava desaparecendo, mas estava feliz. “Talvez eu não me preocupe mais.”
A chuva veio. O céu escureceu e a brisa cessou. Via as crianças sorrindo e gritando, fazendo brincadeiras e encarnando a vida.
Lembrou-se da vida. Essa era uma memória tão intensa que fora encoberta por um véu sublime de decepção.
Decepção...
Quem a havia decepcionado?
Não se lembrava. Não sabia por quê parecia tão solitária, com aquele vazio incólume no seu interior. Esperava que alguém surgisse e lhe respondesse. Tinha esse direito. Alguém assumiria a culpa por isso.
Alguém. Qualquer um que pudesse gritar e provar a sua existência.
Mas ninguém veio.
Voltou seus olhos para o chão, e via as poças d’água. Caminhava olhando para seu rosto plissado pelas gotas de chuva. Via aquele rosto que não conseguia sorrir, e sentiu ódio. Andava mais rapidamente, tinha medo. Medo de ver. Chutava a água e desfigurava sua face em mil imagens disformes. Correu para algum lugar distante, antes de voltar para casa e começar tudo pelo fim.
Novamente.