sábado, 18 de fevereiro de 2017



"There is no shelter in you anywhere;
Rhythmic intolerable, your burning rays

Trample upon me, withering my breath"

― Edna St. Vincent Millay



estagnado na parede
um cristo em agonia
e a poeira dos livros
registra a imobilidade vigente
como em mil anos de inércia
há fendas
e pó
e esquecimento
em tudo

cada movimento é uma fratura
os ossos insistem e seguem
cada passo é doloroso
ou indeciso

nessa conjuntura específica
o vi
 soldado em nervos
vibrante em curiosidade
retida em poucas ações

o receio por me fazer partir
me obceca

emerge do bronze
de membros vulneráveis
o tênue
desalinho dos dedos
pelos cabelos

os olhos
comprimidos iridescentes
irradiam o êxtase
compatível
com a perda da memória

o sol luminoso no azul intenso
a rua gera sensações múltiplas
a sinestesia constante
me fere
mas por algum motivo há ouro
a memória é vaga
e se repete

o fluxo de estímulos
faz correrem rios
de inconstância
que pela natureza contraditória
nunca existiram

aqueles olhos
me observam
contra o sol
lacerante

seu olhar se exulta
ainda incapaz de felicidade
eu compreendo
mas me comovo
e me recordo por muito tempo

observo
enquanto divago
ébria e triste
a esmo
como ele se regojiza
e sorri e concorda
sem palavras
como se habitasse uma memória

marmóreo
o corpo é longo e está imerso
no manto cristalino
ígneo
que se prolonga pelo mundo inteiro

a dormência dos membros
me emudece
sinto a insensatez
na retina
crivada de pontos luminosos

não existem íris mais ermas
como essas que me solicitam
constantemente
para imergir em solidão absoluta
basta mirá-las