sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Separação

Seus cabelos longos emolduravam seu rosto pálido, sob a manhã de domingo tediosa. Haviam pessoas por todos os lados, pessoas circulando seu mundo, pessoas cuja existência ela desconhecia. Ela não se importava.
Em passos incertos, caminhava na sombra das árvores e dos prédios. Não gostava da fumaça das ruas, mas isto era terrivelmente preferível do que a sua casa habitada por estranhos domesticados.
A data era familiar. Ela teria algo para fazer; algo para concretizar. Ela estivera esperando por isso durante muito tempo; e seu coração acelerava com a idéia de poder fazer aquilo que deveria fazer; encontrar quem deveria encontrar.
Talvez...
Ela tremia e sentia a brisa leve. Estava quente. Seus olhos se fechavam aos poucos com a visão iluminada pelo sol nas ruas. Ela voltou seus olhos para o chão e sentou-se.
Tentava imaginar quem deveria encontrar. Se ela não se lembrava, não deveria ser importante. E sua face parecia tão abatida sob aquele dia inebriante; as pessoas estranhas surgiam de lugares inesperados notando a sua presença pequena, e estendiam suas mãos desconhecidas para que ela recebesse ajuda vinda de outros mundos complexos.
“Como eles poderiam me ajudar?” – Imaginava sem sequer direcionar seus olhos para a face daqueles que esqueciam de suas vidas naquele instante. Logo iam embora.
Logo iam embora.
Há algum tempo ela teria perecido na solidão. Teria ficado horrorizada com a idéia da distópica de abandonar qualquer companhia vulgar.
Contava as memórias, contava os sonhos com os dedos.
“Eu deveria encontrar alguém aqui.”
“Deveria?”
Ninguém veio. Ela não esperou ser lembrada, mas estava curiosa. Levantou-se da calçada suja. Olhou ao redor. A vida parecia tão nova, incrivelmente. Sentiu vontade de dormir, mas precisava andar; precisava andar muito mais. Caminhar sobre aquela rua esquecida e tentar lembrar do seu interior. Provavelmente mais daqueles surgiriam tentando ajudá-la, mas fez uma anotação mental de não se mostrar abatida perante os estranhos.
Eles eram insuportavelmente irrelevantes. Pareciam tão supérfluos como a sua memória que soava importante em seu âmago. Ela estava desaparecendo, mas estava feliz. “Talvez eu não me preocupe mais.”
A chuva veio. O céu escureceu e a brisa cessou. Via as crianças sorrindo e gritando, fazendo brincadeiras e encarnando a vida.
Lembrou-se da vida. Essa era uma memória tão intensa que fora encoberta por um véu sublime de decepção.
Decepção...
Quem a havia decepcionado?
Não se lembrava. Não sabia por quê parecia tão solitária, com aquele vazio incólume no seu interior. Esperava que alguém surgisse e lhe respondesse. Tinha esse direito. Alguém assumiria a culpa por isso.
Alguém. Qualquer um que pudesse gritar e provar a sua existência.
Mas ninguém veio.
Voltou seus olhos para o chão, e via as poças d’água. Caminhava olhando para seu rosto plissado pelas gotas de chuva. Via aquele rosto que não conseguia sorrir, e sentiu ódio. Andava mais rapidamente, tinha medo. Medo de ver. Chutava a água e desfigurava sua face em mil imagens disformes. Correu para algum lugar distante, antes de voltar para casa e começar tudo pelo fim.
Novamente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Poeira

Eleonora e sua bela face harmoniosa; cada contorno refletia uma irrupção de sentimentos quase resguardados, ínfimos. Perecia sob a beleza e nela se afogava nos solilóquios que corrompiam seus sonhos.
Muita música, e festa. E as pessoas todas sorriam, e as pessoas todas se lembravam. Ela queria que se lembrassem dela. Toda noite bebia uma vodka esperando alguns telefonemas. Ela era imortal, ela poderia fazer qualquer coisa; poderia julgar, dilapidar os corações de qualquer um que se deixasse hipnotizar pelo seu olhar; e seu arroubo e beleza seriam as virtudes mais glorificadas por todos que permeavam seu mundo.
E seu rosto, outrora magnífico, com o tempo se desgastava. Ela sentia que seus contornos simétricos não eram os mesmos que antes a faziam sorrir de contentamento.
Nada parecia com a mais remota idéia do que se fora.
Ah, a Eleonora que se via nos outros. Esta era mais vazia, mas ninguém poderia dizer ao certo. E com a comparação constante se afundava mais naquela Eleonora que chorava no interior. A que pertencia ao seu interior seria somente triste? Seria somente aquela que censura seus atos externos? Ela era somente a que sentia.
Ela era louca. Seus amigos a consideravam glamorosa e remotamente superficial; mas existiam aqueles que alimentavam a idéia de que suas desavenças com o mundo nada mais eram do que um reflexo da profundidade interior.
Se sentia sozinha, queria perceber o vento, a chuva. Queria sentir a vida que todos glorificam.
Queria tocar o céu.
Sim, queria.
Todos os sonhos que surgiam brotando e se arrastando, mutilando os velhos conceitos eram filhos da necessidade. Eram crias da solidão.
Mas ela era mais.
Um dia parou na porta da sua casa velha. Não realizou nem metade daquilo que planejara há muito tempo. Mal podia andar, arrastava os seus pés; e seu rosto plissado que se tornara vergonhoso para si mesma, se movimentava lentamente para ver o céu. Mas sua expressão era tão impassível que poderia refletir o que as pessoas imaginariam como o encarnamento de qualquer ou de toda idéia de paz.
Ela guardava tantas coisas. Ela fingia não se importar. Seus sentimentos eram frequentemente confundidos com nada. Ela esqueceu como demonstrar. Mas ela sentia tanto. Eleonora queria voltar a ser jovem, queria correr e apreciar a fruição da beleza.
Não, isso não importa. Queria muito mais.
Eleonora resguardava seus sonhos, como protegia o encanto fugaz há muito tempo atrás. Eleonora sabia o que queria. Sabia que tudo o que ela antes desejara parecia remotamente insignificante, quando comparado com as novas idéias que brotavam da tristeza. Ela se sentia fraca.
Queria ir para longe.
Não outro lugar, não outra terra mais verde. Não queria outros sonhos, nem queria que seus sentimentos fossem virados ao avesso.
Como a poeira que fragmenta na brisa, como as cinzas que se espalham sob o céu azul; queria ser livre.
Queria ser levada pelo vento.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Calmaria

As lágrimas, o encanto inacabado... A beleza que se desfez como fumaça. De uma profundidade duvidosa, as sensações eram tudo o que você tinha.
“E os sonhos permanecem os mesmos, afinal. No mesmo ciclo de incertezas, mesmo que a beleza acabe... Eu via situações em que a vida sempre foi mais do que se esperava. Triste, maravilhosa; eu nunca soube o quanto isso poderia me fazer perceber a verdade. Eu deveria ter percebido, eu deveria...”
Mas você sempre percebeu; você apenas desejava estar errada por um momento, mas nada te fazia desistir.
“Eu nunca imaginei...”
Você sempre soube... Então por que chora?
Pela esperança que você sempre teve? Pela vontade de que houvesse algo imprevisível, alguma situação, como as histórias inverossímeis que te faziam apenas acreditar, só por acreditar? É pelo fruto da insatisfação com a instabilidade dos momentos vagos e esquecidos por todos?
Por que... Você chora?
“Eu não sei...”

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pedra

O vento sopra, a pedra permanece a mesma. Hermética e de inexistência praticamente e quase tragicamente confirmada pela falta de qualquer um que reconheça sua existência. Ela é distante, ela não se move... O vento se vai por um, dentre vários infinitos, enquanto ela jaz só. Qualquer.
De olhos fechados, eu tento esvaziar qualquer pensamento indesejado, solitário, e que se torna absoluto em uma fração de segundos, dominando a minha mente de forma irrestrita.
Os barulhos da rua interrompem meu transe, e eu pouso meus olhos no chão; assim vou captando a linha de raciocínio que se sobrepôs a um leve torpor, causado pela minha inércia prolongada.
Mas o sono não vem...
Somente a confusão interior se estende rápida, incômoda. Nada é tão facilmente descritível... Somente a sensação de que não há nada. Não uma perda; não um tempo passado; não a ausência do pilar principal após qualquer período de uma fruição quase complacente de qualquer coisa boa num passado longínquo. Apenas nunca houve. As memórias são distantes, remotas, como um breve período após acordar de um sonho, aonde eu percebo o quão inverossímeis eram as coisas que sonhei.
O vento abre uma das minhas janelas; sempre fechadas (o que não é algo saudável, devido à fumaça constante dos cigarros). Faz-me lembrar de tempos bons, da juventude. A sensação agradável me faz lembrar... Apenas lembrar. O que algo intransigível e precioso, comparado com o fato de que um vazio se arraigava por toda a minha mente, me fazendo afastar todas as memórias; ou fazendo-as equipararem-se a um sonho. Ainda está lá, instalado; algo de anos a fio. Mas por um momento eu esqueço das coisas ruins.
Fecho a janela; o barulho se propagou de novo. Fecho meus olhos e permaneço no meu interior. Minutos depois o vento toca meu rosto novamente; complacente, fugaz, efêmero; porém, cansada demais para abrir os olhos, eu apenas sinto que qualquer coisa está me deixando aqui... Ou talvez seja apenas eu, me distanciando de qualquer coisa.

sábado, 11 de julho de 2009

A apatia e o sonho

Ela apreciava a vista constante atentando aos detalhes que ninguém reparava depois de observar várias vezes. Estava se sentindo cansada e não tinha nada para fazer. Tinha um livro em mãos, já o tinha lido cerca de dez vezes, mas teimava em tentar compreender algo que acreditava não ter compreendido. Era assim, não se conformava com detalhes supérfluos enquanto o resto era apenas uma reles realidade sem importância. “É só a realidade, afinal. Não podemos mudá-la, então vamos nos adaptar da forma que melhor nos convenha, e que alguém me processe se discordar”. Ela tinha isso como base, enquanto se focava nos seus mínimos detalhes que constituíam sua vida caótica.
Deitada na grama, via seu primo, que morava em sua casa, sob a hospitalidade de seus pais, porém costumeiramente não ficava muito na casa. Deus sabe lá qual era sua motivação e o quê fazia na rua, mas ela não dava a mínima. E seu jeito desleixado era como o dela, mas sutilmente diferente. Ela era tediosa. Inspirava o tédio em qualquer um que observasse suas atitudes autistas por muito tempo. Mas ela tinha plena consciência de tudo o que se passava ao redor, e vez ou outra, maquinava planos e suposições de vários tipos coisas e assuntos de forma doentia (aonde, surpreendentemente ela se mostrava certa na maioria dos casos práticos – por fora apenas arremessava um pragmatismo indiferente, mas por dentro todos os fragmentos de seus pensamentos voltados ao assunto possuíam uma finalidade especial); mas claro, sua visão do mundo era algo único, de fato, e particular; então ela compreendia o pensamento padrão das outras pessoas, mas não concordava com eles. Ele era totalmente desleixado e mais sonhador que ela. Ao contrário dela, ele era muito esquecido (já ela fingia esquecer), porém nunca contava a ninguém aonde ia, o que fazia com que ela ostentasse suposições vez ou outra mirabolantes sobre suas estadias no mínimo estranhas.
E os pais dela não gostavam muito do seu sobrinho. Não era uma antipatia diretamente por ele, era apenas uma mágoa ou uma raiva passada por certas diferenças e discrepâncias que tiveram com a mãe falecida do rapaz; que por sua vez, levava uma vida leviana; até encontrar a morte. Mas diziam por aí que deixavam-no ter suas liberdades, pois, não queriam deixá-lo preso após ter passado por tamanho trauma da morte da sua mãe. O rapaz não aparentava ser traumatizado, mas, quem sabe? Quem vê cara, não vê coração, e pelo jeito ele apreciava muito bem a sua liberdade que já durava dois anos.
- Ora, o filho pródigo! Reconhece sua casa? – Ela levantou os olhos calmamente para observar sua expressão. Mas achou que o esforço não valia tanto assim e pousou os olhos no livro com uma expressão sutil, como se ele fosse um inimigo em particular a ser aniquilado por sua mente que colheria os frutos do trabalho duro; ou ao menos, uma enorme dor de cabeça.
- Eles... Isso é loucura. Eu me esforcei como um cão por tanto tempo, não contaria o que fiz a você – e a olhou com um pouco de pena; ela ignorou sumariamente e encarou-o esperando um assunto mais interessante que os costumeiros sem sentido que ele divagava. – Mas em contrapartida a todas as suas reações, eu estava me saindo bem, realmente bem. Eles são moralistas distorcidos! Isto que são. Não compreendem a arte e a sua essência profunda que, particularmente se esconde dentro de mim; só preciso do apoio daqueles canalhas.
- Que essência profunda da arte?
- Ora, se você não sabe, eu não vou lhe dizer. Mas não me atrapalhe.
- Ah, certo.
- Pois então. Demorei tempos para descobrir algo que valesse a pena; confundi-me no caminho, mas finalmente vi a luz.
- A luz!
- Sim, a luz! E estava lá, bem na minha frente. As idéias brotavam como uma fonte enquanto o que eu fazia se tornava de um gosto refinado e qualitativo. Digo isso pois já vi outros trabalhos de marginais da sociedade! – e ignorou a tossida significante que ela dera, observando a paisagem – que não fazem nada da vida e buscam na arte apenas uma distração. Mas isto é minha vida!
- Oras, então depois de dois anos descubro que trabalhas com arte?
- E literatura também, mas isso se torna uma rede mais intrínseca de conflitos psicológicos e profundos que tenho comigo mesmo, e vez ou outra com a editora, você não entenderia.
- Oh.
- Mas, continuando, a mistura de cores revelavam uma nova forma de ver o mundo, uma mescla de sonho e psicose, digo, você imagina a beleza disso tudo? O espírito humano revelado na mais crua essência com todas as suas dores e sonhos e medos. E eu consegui retratar, sim, consegui! A essência da tristeza se mostrava na apatia daquela senhora de forma única, mas que não estava nem nela mesma. Eu criei! Criei na tela e reinventei toda uma concepção de sentimentos.
- Hum, mas não acha que isso já existia?
- Você acha, mas é por que você não viu o que eu fiz!
- Sei, sei. Mas mostre-me então.
- Não posso, no calor do momento queimei tudo!
- Mas não me diga. Por que?
- Não quiseram aceitar minhas obras na galeria. Não eram o que procuravam, e encontraram um artista jovem e qualquer, para retratarem como uma revelação com uma arte sem sentido e vazia.
- Ora, pobre de você então. Faça outro.
- Não posso. Não estava em mim quando fiz.
- Estava drogado?
- Buscava inspiração por formas ilícitas. O que você falou é grosseiro.
- Ah sim. Então não pode fazer outro.
- Não.
- Então por quê me contou tudo isso?
- Pois vejo que mesmo com sua mente fechada, você tem um potencial e uma mente inteligente, apta para grandes realizações e feitos, e quero que lembre do que fiz; quero que alguém lembre.
- Lembro de uma idéia. Lembro de uma concepção queimada.
- Eu lamento por mim!
- Eu também lamento por mim! Você quebrou minha linha de raciocínio sobre esse livro quando parei para perceber um assunto que nem ao menos era interessante.
- Pois fique com seu livro tedioso. Eu vou buscar o mundo!
- Busque seus ideais, vá, vá! E me deixe, por favor.
E ele foi-se, e nunca mais voltou. Guardando mágoa por sua idéia potencialmente e teoricamente genial ter sido ignorada pela pessoa que ele admirava secretamente, enquanto ela se esqueceu do assunto cinco minutos depois. Os destinos deles se encontrariam mais tarde, aonde as surpresas da vida apenas revelariam que ela sempre estava certa em suas concepções interiores. Ele acabou como a mãe, com uma vida leviana e talvez sonhadora; mas para a morte, o número de descuidos não fazem diferença.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Última carta

Esta é uma carta de amor.
Não sobre o amor recente, fortificado pela fugacidade da juventude. Não sobre o amor onipresente, não sobre um amor já esquecido e até então revelado.
Escrevo para você como para meu sentimento. Não digo que meu amor é o maior do mundo, nem que minha vida se resume a você. Não vou guardar mágoas de mim mesmo por ter escondido até um período que já era tarde demais.
Eu me lembro da época em que me encontrava perdido dentro de mim mesmo, sem maiores ambições, enquanto você veemente me fazia encontrar com sentimentos de uma pureza que eu não conseguia compreender sem certa desconfiança, devido ao caos do meu próprio mundo; devido às minhas próprias reações sobre todos os infortúnios e todas as dificuldades que surgiam quase periodicamente em minha tão solitária vida.
Enquanto eu não sabia lidar com você, com sua inocência, quase por causa inteiramente da minha alma corrompida, você me segurou e me fortificou em seus braços, sem nenhum receio da minha ira. Sem nenhum receio do meu desprezo.
Então eu passei a ter medo que você se quebrasse. Em toda a minha feiúra interior, eu via você. As pessoas não te achavam tão bonita, mas eu via uma aura resplandecente que fazia meu coração se despedaçar e meu interior doer quando seu semblante se mostrava triste. Se sacrificando por um bem maior.
Durante certo período você foi embora. Não tinha confessado meu amor ainda, mas apenas me sentia freneticamente temeroso. Não queria que você se envolvesse com qualquer pessoa que fosse. Eu pensava em você durante longos períodos de uma depressão profunda, e me sentia cansado.
Não culpo o amor por minha atual tragédia. Culpo a mim mesmo. A maioria das pessoas tende a achar que o amor é o culpado por todos os infortúnios amorosos decorrentes de suas vidas. O amor pode ser infinitamente prazeroso se amarmos a pessoa certa. Muitos temem se relacionar e muitos se relacionam com pessoas erradas e sofrem conseqüências; e o amor sempre está lá. Algumas se martirizam por terem deixado o sentimento desabrochar quando poderia ser evitado, outras repudiam abertamente o amor quando o sentido de suas vidas lhes é tirado por uma fatalidade do destino...
Mas a culpa é das pessoas, não do amor em si. Talvez nem sempre seja de alguém. Talvez seja apenas um conjunto de fatos que se sucederam em cadeia e não puderam ser evitados pois não havia aviso prévio ou uma mera intuição de que algo estava para dar errado.
No meu caso, culpo a mim mesmo. Provavelmente se eu fosse outra pessoa, falaria que eu não teria como saber de nada. Mas eu reprimi todo esse sentimento durante tanto tempo e agora preciso de um porto-seguro para chorar. Essa é minha culpa; não pode ser tirada de mim tão fácil, eu me sentiria vazio.
Agora que você se foi para todo o sempre, sua memória permanece comigo. Não lembro de uma mulher num leito de hospital definhando, mas lembro da jovialidade que você demonstrava e de todo o carinho que você me dedicava. Eu me lembro de você; em memória a você. Eu me lembro de todo o infinito que eu pude sentir, mesmo que por pouco tempo ao seu lado.
Eu já não posso te entregar esta carta em mãos, mas esse é meu desabafo de tantos anos de mágoa guardada. Essa é uma forma de exprimir coisas que eu mesmo venho negado a mim mesmo tão veemente e que me dilaceravam o coração. Agora eu vou procurar um novo sentido para a minha vida; talvez eu já tenha descoberto e não saiba. Você iria querer isso.
Eu te amo.