domingo, 21 de julho de 2013


A festa verteu-se numa experiência miserável. As músicas, o barulho e todo o indistinguível transtorno sonoro, asfixia, deita o aposento à perturbação claustrofóbica. Serpenteio em meio aos corpos dessensibilizados, copos e faces, escapando em ânsia aos espasmos e jorros de líquidos preparados para impregnar quaisquer extensões. Os barulhos advindos da caixa de som entram em sintonia com os pulsares doloridos em meu cérebro. Do lado de fora, a imensidão me saúda com uma brisa consoladora. Vejo mais alguém saindo da casa e imagino como desejaria continuar meu percurso sem trocar quaisquer palavras com ninguém. Minha liturgia de solidão me cobre com uma suave misantropia (deveria enfatizá-la mais a partir da experiência das sensações naquele âmbito caótico). Só de imaginar que alguém me perceba, sinto-me irracionalmente ameaçada. Aprecio a sensação da distância e do nada. Não que o nada se manifeste em minha mente, de fato, estou sempre presa a este mundo que me rodeia. E esses tipos de noções infiníticas são imperturbáveis em longitude. Meus pensamentos, nesses momentos, são do tipo que se dispersam assim que se tem contato com eles. Como se não participassem da minha experiência, surgem num equívoco.
 À distância, há um banco próximo a pequenas árvores. O luar, etilicamente embalado, liberta por uma pequena fresta, entre os galhos e folhas, um pequeno feixe de luz perolada, como uma pura nota de piano vertida em sonata que distancia a ode de vida e morte, na dança repetitiva e alucinatória dos cativos. A representação do lugar torna-se cada vez mais disforme à medida que a reverberação lancinante desaparece. Aproximo-me de um lago, cujo único sinal de toque humano são luzes posicionadas ao redor, refletindo na superfície da água, balouçando com a brisa. O arroubo de agitação das criaturas na festa, delirando que sua balbúrdia ornamenta, num contorno febril, toda a extensão do mundo, vê-se similar à iluminação reproduzida no espelho lacustre, juntamente com as estrelas. Como a luz que realça a escuridão.
Adormeço.

Os sons terrenos me fazem desejar ser embalada de volta ao meu sonho de errância; meus passos fracos anseiam pela desejosa facilidade do estado de sono, porém o âmbito gravitacional é aflição trágica do incontornável amanhecer; os segundos disformes suspensos cedem à potência do sono vago. Deleito-me por milhares de anos naquele fragmento de segundo; milhares em que me desfaço e que me refaço nas arestas do universo; matizes do ambiente desconhecido e melancolicamente reconhecido. Do segundo carro que passa já lhe reconheço alguma existência espacial. A aspereza retilínea do percurso da rua é consternadora; ânsia e ansiar do fluxo aspiral noturno. O sonho dilapidado e fragmentado, esquecido em dissonância, revela lapsos, cenas de correnteza remoldada sem sequência. Observo e anseio que ao menos a impossibilidade do mundo exterior abandone-se das linhas retas e a terra se faça ilusoriamente sem serpentear; ou que o ambiente ondeie em terremoto sem se perceber da alucinação transgressora; o despertar; milésima origem do não-dito; o ínterim entre dois carros. Esfrego as mãos, observo as espécies de pássaros se multiplicarem, felizes por sua obrigação instintual, e vou para casa.

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