A
festa verteu-se numa experiência miserável. As músicas, o barulho e todo o
indistinguível transtorno sonoro, asfixia, deita o aposento à perturbação
claustrofóbica. Serpenteio em meio aos corpos dessensibilizados, copos e faces,
escapando em ânsia aos espasmos e jorros de líquidos preparados para impregnar
quaisquer extensões. Os barulhos advindos da caixa de som entram em sintonia
com os pulsares doloridos em meu cérebro. Do lado de fora, a imensidão me saúda
com uma brisa consoladora. Vejo mais alguém saindo da casa e imagino como
desejaria continuar meu percurso sem trocar quaisquer palavras com ninguém.
Minha liturgia de solidão me cobre com uma suave misantropia (deveria
enfatizá-la mais a partir da experiência das sensações naquele âmbito caótico).
Só de imaginar que alguém me perceba, sinto-me irracionalmente ameaçada.
Aprecio a sensação da distância e do nada. Não que o nada se manifeste em minha
mente, de fato, estou sempre presa a este mundo que me rodeia. E esses tipos de
noções infiníticas são imperturbáveis
em longitude. Meus pensamentos, nesses momentos, são do tipo que se dispersam
assim que se tem contato com eles. Como se não participassem da minha experiência,
surgem num equívoco.
À distância, há um banco próximo a pequenas
árvores. O luar, etilicamente embalado, liberta por uma pequena fresta, entre os
galhos e folhas, um pequeno feixe de luz perolada, como uma pura nota de
piano vertida em sonata que distancia a ode de vida e morte, na dança
repetitiva e alucinatória dos cativos. A representação do lugar torna-se cada vez
mais disforme à medida que a reverberação lancinante desaparece. Aproximo-me de um
lago, cujo único sinal de toque humano são luzes posicionadas ao redor,
refletindo na superfície da água, balouçando com a brisa. O arroubo de agitação
das criaturas na festa, delirando que sua balbúrdia ornamenta, num contorno
febril, toda a extensão do mundo, vê-se similar à iluminação reproduzida no
espelho lacustre, juntamente com as estrelas. Como a luz que realça a
escuridão.
Adormeço.
Os
sons terrenos me fazem desejar ser embalada de volta ao meu sonho de errância;
meus passos fracos anseiam pela desejosa facilidade do estado de sono, porém o
âmbito gravitacional é aflição trágica do incontornável amanhecer; os segundos
disformes suspensos cedem à potência do sono vago. Deleito-me por milhares de
anos naquele fragmento de segundo; milhares em que me desfaço e que me refaço
nas arestas do universo; matizes do ambiente desconhecido e melancolicamente
reconhecido. Do segundo carro que passa já lhe reconheço alguma existência espacial.
A aspereza retilínea do percurso da rua é consternadora; ânsia e ansiar do
fluxo aspiral noturno. O sonho dilapidado e fragmentado, esquecido em
dissonância, revela lapsos, cenas de correnteza remoldada sem sequência.
Observo e anseio que ao menos a impossibilidade do mundo exterior abandone-se
das linhas retas e a terra se faça ilusoriamente sem serpentear; ou que o
ambiente ondeie em terremoto sem se perceber da alucinação transgressora; o
despertar; milésima origem do não-dito; o ínterim entre dois carros. Esfrego as
mãos, observo as espécies de pássaros se multiplicarem, felizes por sua
obrigação instintual, e vou para casa.
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