terça-feira, 27 de outubro de 2015


um pressentimento de algo a ser dito
algum entendimento que me constitua
numa fala
sem que me reduza à reverência
com o olhar voltado para o chão

um sonho demasiadamente elevado
e se eleva, ainda
sem poder fazer da memória habitação
o ápice
dos limiares que percorri
desconhecendo o que me cabe

no átrio, o despertar
observo as silhuetas
que me restituem aos moldes do Tempo
um jovem em adoração
glorifica a amada
com chavões intencionais. 

e um bêbado disperso
que por nada compreender,
sorria, indolente
na figura, o aspecto suspenso
do aprazimento
reverenciando a si próprio

e de mim,
a extasia
exalava

numa convicta estabilidade
da luz insone,
meus pés decididos
movimentavam a passagem duvidosa

a consciência me soa
sutilmente
carecida do apelo
sempre o mesmo
sempre

e entre os amantes
houve a fala
e lá se descobria
sua nudez
muito expostos, sentiam-se
por pressentirem-se relacionados

destituíram-se de equilíbrio
e clarividência
e ponderação (em gestos e palavras
que muito se equiparariam
ao desespero)
e foi a resposta que encontraram
para escaparem da punição
da existência terrena.

vencida pela lucidez,
não haveria fascínio
que me distraísse
(assim eu repetia, como
todo raciocínio falacioso
que percorria minha imaginação)

eis a substância 
da realidade imediata
reconhecida pelo decorrer dos dias
protegida por um mundo
de nomeações.

por onde caminharia a alma sem o corpo?
e entre os espaços
entrelaçam-se as dúvidas
sobre como celebrar 
essa conveniente urgência
da momentânea habitação sensorial.
Nos espaçamentos espaçavam-se os pássaros
Em suavidade declamavam sua dança
Em conformidade uns com os outros para satisfazerem
Os propósitos da mãe natureza
E se já não me conheço
Se me surpreendo nos espaçamentos inquisitivos dos pássaros
Como reconhecê-lo?
Absorto, tu imaginas
Levanta e caminha, e em uma estrela
Se alça, do meio da ameaça da realidade
Quem se compadeceria, além de ti
De seu retiro, sua distração?
[Somente eu]
E como quem há muito
Tornou deste lugar uma habitação
Tu contrarias a lógica em aquiescência
Vagando por várias eternidades
Sem fundamento
Ou critério
Ou alicerce
Para habitar
Qualquer coração

[Que não o meu]