O frio mal lhe permitia pensar. Naquela madrugada insone, acendia um cigarro do lado de fora da casa. Olhou novamente as sete chamadas perdidas no celular e o desligou. Por um momento, fechou os olhos e sentiu o vento.
“Patético.”
Levantou-se, a medicação mal fizera efeito. Entrou no carro e dirigiu durante meia-hora. Fez uma ligação e esperou do lado de fora da outra casa.
Alguns minutos se passaram. Ele se mostrava indiferente.
Ela viera rápido, seu rosto ainda refletia um tanto da jovialidade que alguém daquela idade deveria apresentar. Os olhos fundos e o aspecto choroso mesclavam-se com sua beleza.
Conversaram durante alguns minutos e abraçaram-se ternamente. Ela parecia encher-se do tipo de alegria da qual estava se abstendo. Ele fazia questão de contribuir para isso da melhor forma que podia.
Ela entrou no carro, ele dirigiu até um motel simples no centro da cidade.
Por fim, amanheceu.
De volta ao carro, conversavam amenidades descontraídamente. O coração dela começava a acelerar com a perspectiva da sobriedade habitual. Sua casa estava perto e ele permanecia impassível. A jovem arremessava-se vertiginosamente naquele sentimento terrível (para si mesma) que a viciara.
Ela mirava seu olhar apagado, com acuidade, antes de fingir (desajeitada e inutilmente) um descontínuo controle sobre si mesma.
Nenhum compromisso era uma hipótese plausível; ela sabia. Só a culpa depois da embriaguez, a distância do delírio e a concepção de permanecer lúcida numa realidade inadmissível a faziam querer entorpecer-se ainda mais. Ele despedia-se rapidamente (precisava trabalhar), enquanto ela dava-lhe as costas. Virou-se, na esperança de testemunhar um olhar delicado e amoroso pousado sobre si, mas ele havia partido. Uma lágrima imperceptível iluminou sua face sob o sol. Então veio uma brisa fria, e ela lembrou de entrar para se aquecer.