sábado, 27 de novembro de 2010

O frio mal lhe permitia pensar. Naquela madrugada insone, acendia um cigarro do lado de fora da casa. Olhou novamente as sete chamadas perdidas no celular e o desligou. Por um momento, fechou os olhos e sentiu o vento.
“Patético.”
Levantou-se, a medicação mal fizera efeito. Entrou no carro e dirigiu durante meia-hora. Fez uma ligação e esperou do lado de fora da outra casa.
Alguns minutos se passaram. Ele se mostrava indiferente.
Ela viera rápido, seu rosto ainda refletia um tanto da jovialidade que alguém daquela idade deveria apresentar. Os olhos fundos e o aspecto choroso mesclavam-se com sua beleza.
Conversaram durante alguns minutos e abraçaram-se ternamente. Ela parecia encher-se do tipo de alegria da qual estava se abstendo. Ele fazia questão de contribuir para isso da melhor forma que podia.
Ela entrou no carro, ele dirigiu até um motel simples no centro da cidade.
Por fim, amanheceu.
De volta ao carro, conversavam amenidades descontraídamente. O coração dela começava a acelerar com a perspectiva da sobriedade habitual. Sua casa estava perto e ele permanecia impassível. A jovem arremessava-se vertiginosamente naquele sentimento terrível (para si mesma) que a viciara.
Ela mirava seu olhar apagado, com acuidade, antes de fingir (desajeitada e inutilmente) um descontínuo controle sobre si mesma.
Nenhum compromisso era uma hipótese plausível; ela sabia. Só a culpa depois da embriaguez, a distância do delírio e a concepção de permanecer lúcida numa realidade inadmissível a faziam querer entorpecer-se ainda mais. Ele despedia-se rapidamente (precisava trabalhar), enquanto ela dava-lhe as costas. Virou-se, na esperança de testemunhar um olhar delicado e amoroso pousado sobre si, mas ele havia partido. Uma lágrima imperceptível iluminou sua face sob o sol. Então veio uma brisa fria, e ela lembrou de entrar para se aquecer.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em noites claustrofóbicas em seu quarto desarrumado, ela projetava e cuidadosamente construía aquilo que poderia ser o ápice de suas fantasias. Era especialmente descuidada ao controlar suas emoções, pois via avidamente em determinadas pessoas a encarnação da sua idealização – boa ou má.
Não tinha idade suficiente para discernir os comportamentos entre si, manifestando em cada um extremos isolados da sua própria angústia.
Seus pais a levavam para brincar com as outras crianças, na época em que ela tinha problemas em sair dela mesma.
Quinze anos depois, escrevia avidamente num papel uma carta de despedida para um rapaz muito apaixonado por seu silêncio. Lera a carta algumas vezes e a reescrevera outras tantas, na esperança de alcançar alguma satisfação. Relacionava-se com alguém que sequer amara, unicamente para poder envaidecer seu espírito, tão solitário e confuso.
Mas esse tempo de felicidade limitada se fora; passou pela sua vida como algo efêmero e distante. Sequer tocara suas memórias mais protegidas.
O amor em si a incomodava. Não tinha nada contra sua definição, não procurava difamá-lo, mas ele fazia parte das coisas que poderiam fugir do seu controle, e isso poderia ser um problema em potencial. “Isso é desagradável” pensava. Obviamente, sua conclusão não surgira de solilóquios infindáveis relacionados ao amor. Ela o experimentara fervorosamente com sua pouca idade. O bastante para concluir que não era madura o suficiente para tamanho problema. Era inquieta quando estava apaixonada; passava por períodos que comparava a delírios e frustrações constantes.
Após enviar a carta, deitou-se em sua cama e ficou feliz por libertá-lo. E ainda assim, sentiu-se mais abandonada do que nunca, por razões indizíveis até para ela mesma. Ninguém poderia imaginar o que ela pensava, ninguém poderia saber de suas necessidades. Isso a entristecia. Era inexpressiva naturalmente.
Olhava-se ao espelho, não se reconhecia nem de longe. Perguntara-se inúmeras vezes sobre quem era mais feliz: ela, com toda sua pertinência em se desviar do amor e viver sem se descontrolar ou magoar, ou o rapaz ávido em descobrir seus sentimentos mais profundos, apaixonado pelo silêncio dela mesma.