domingo, 5 de maio de 2013


Ela sentia uma doçura inimaginável somente pelo fato de poder fitá-lo sorridente em meio ao ambiente agradável e lotado. Via-se tranquila por seu lembrete mental que ressaltava sua posição privilegiada, implícita. Esse prazer, decerto a tornaria indiferente às vicissitudes da existência. E assim era o amor. Prolongava uma sensação poderosa, preenchia-a com uma febre dos sentidos. Antes disso, ela sentia-se apenas como si mesma, desprovida de propriedades extraordinárias, imersa na mediocridade e na contingência (devido à formação advinda de uma construção ferrenha de valores marcados na sua pele). E, de onde, pelos céus, havia vindo aquela suposta felicidade? O que aquilo deveria exigir dela? Qual era o seu significado implícito? As respostas não estavam em lugar algum além dela própria - sabia. Restava-lhe apenas a repetição da explicação que limitava suas expectativas; esperava poder usufruir dela e vê-la intacta, no momento posterior ao que estaria por vir.
Ela somente poderia conhecer as experiências de outrem; o que lhe informava, decerto que o fracasso beirava à unanimidade. Todavia, a cor de seus olhos sobressaía-se em tons variados em seu imaginário. Ela não tinha uma alma observadora e não podia diferir seus tons em meio aos demais. Somente seus traços marcantes fulguravam em brilho cerrado, estimulando sua imaginação e criatividade.
E, ao ouvir seu nome, tomava um fôlego condicionado. Esperava ocultar em seu interior mais distante todas as vezes que o pronunciava em segredo, em necessidade insensata.
O tempo ondulava suas memórias, atiçando-lhe o passado, fora de seu domínio, que ela jamais poderia obter novamente. Talvez sua esperança, tão inerente ao seu espírito, lhe tivesse sussurrado palavras vãs durante todo esse tempo, e talvez a forma das coisas como são seja apenas um estado psíquico transitório em sua constituição, pois os mesmos objetos de valor que lhe eram estimados, a mesma aparência natural das rosas em seu jardim, e os mesmos traços pertencentes a ela mesma, que envolviam a sua face numa aparente neutralidade constante, já não pareciam o que eram antes.
Era uma necessidade mais ou menos prolongada. Via-se agora numa exposição incomum. As ondas de felicidade embaciada eram menos constantes, e ela perscrutava um sentido dolorosamente forçado em meio a uma ânsia cansativa. Revivia a sede por algo novo e confrontava-a, em hesitação. A felicidade e o tédio aparentes haviam turvado sua visão e modificado sua sensibilidade. Somente tinha lapsos agora, enquanto era tocada pela tristeza, ao passo que adquiria consciência tardia da sua extensão. Os lapsos eram momentaneamente discerníveis, para posteriormente esvaecerem, sendo apenas compreendidos pelo aprazimento que davam; e certamente seriam impossíveis de se obter em algum desígnio objetivo e formal, de classificar em lucidez, de se evocar quando fossem precisados. Existem em efemeridade e deslizam pelos alicerces da mente.

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