domingo, 19 de dezembro de 2010

Miriam caminhava pela rua sob o sol escaldante. Um sentimento de desistência a invadia quando pensava “naquela pessoa” em especial. Ela havia desistido, sem perceber, na primeira vez que o vira.
Cansaço, lentidão. Seu claustro a havia impedido de dispor de energia ao redor de pessoas amigáveis. Precisava estar só, mais do que se encontrava. Precisava mergulhar naquilo que contribuía para seu isolamento.
Miriam via a euforia guardada nas pessoas e lembrou-se que dispunha da mesma em sua infância. Invejava-as. A beleza naquilo contido no que é novo e emocionante parecia, quando vista em outras pessoas, bastante atraente. Estava cansada de dizer tudo mecanicamente, como uma ferramenta para afastar os problemas.
Encontrou seu noivo pela tarde. Imaginava se eles eram felizes, de fato (pois eram isentos de problemas típicos da maioria dos casais). Não sabia ao certo o significado da palavra “feliz”, pois a “insensibilidade é quase física”, pensava, sem saber ao certo se isso fazia algum sentido real. Apreciava sua companhia que lhe era fiel desde a infância. Eram íntimos, trocavam confidências e carinhos, mas Miriam não se comprometeria a abandonar seu claustro por outro ser humano.
A covardia que acompanha cada um, pensava, é algo lógico, mas inconcebível. Tentava inutilmente excluir-se disso tudo.
Miriam tomava café, rápido. Estava cansada de parar em lugares incômodos (como aqueles tocados por um sol escaldante), ter espasmos de crises existenciais e refletir sobre sua desistência covarde e muito bem-elaborada. Precisava voltar para casa e sublimar isso tudo da melhor forma que conhecia.