Ela apreciava a vista constante atentando aos detalhes que ninguém reparava depois de observar várias vezes. Estava se sentindo cansada e não tinha nada para fazer. Tinha um livro em mãos, já o tinha lido cerca de dez vezes, mas teimava em tentar compreender algo que acreditava não ter compreendido. Era assim, não se conformava com detalhes supérfluos enquanto o resto era apenas uma reles realidade sem importância. “É só a realidade, afinal. Não podemos mudá-la, então vamos nos adaptar da forma que melhor nos convenha, e que alguém me processe se discordar”. Ela tinha isso como base, enquanto se focava nos seus mínimos detalhes que constituíam sua vida caótica.
Deitada na grama, via seu primo, que morava em sua casa, sob a hospitalidade de seus pais, porém costumeiramente não ficava muito na casa. Deus sabe lá qual era sua motivação e o quê fazia na rua, mas ela não dava a mínima. E seu jeito desleixado era como o dela, mas sutilmente diferente. Ela era tediosa. Inspirava o tédio em qualquer um que observasse suas atitudes autistas por muito tempo. Mas ela tinha plena consciência de tudo o que se passava ao redor, e vez ou outra, maquinava planos e suposições de vários tipos coisas e assuntos de forma doentia (aonde, surpreendentemente ela se mostrava certa na maioria dos casos práticos – por fora apenas arremessava um pragmatismo indiferente, mas por dentro todos os fragmentos de seus pensamentos voltados ao assunto possuíam uma finalidade especial); mas claro, sua visão do mundo era algo único, de fato, e particular; então ela compreendia o pensamento padrão das outras pessoas, mas não concordava com eles. Ele era totalmente desleixado e mais sonhador que ela. Ao contrário dela, ele era muito esquecido (já ela fingia esquecer), porém nunca contava a ninguém aonde ia, o que fazia com que ela ostentasse suposições vez ou outra mirabolantes sobre suas estadias no mínimo estranhas.
E os pais dela não gostavam muito do seu sobrinho. Não era uma antipatia diretamente por ele, era apenas uma mágoa ou uma raiva passada por certas diferenças e discrepâncias que tiveram com a mãe falecida do rapaz; que por sua vez, levava uma vida leviana; até encontrar a morte. Mas diziam por aí que deixavam-no ter suas liberdades, pois, não queriam deixá-lo preso após ter passado por tamanho trauma da morte da sua mãe. O rapaz não aparentava ser traumatizado, mas, quem sabe? Quem vê cara, não vê coração, e pelo jeito ele apreciava muito bem a sua liberdade que já durava dois anos.
- Ora, o filho pródigo! Reconhece sua casa? – Ela levantou os olhos calmamente para observar sua expressão. Mas achou que o esforço não valia tanto assim e pousou os olhos no livro com uma expressão sutil, como se ele fosse um inimigo em particular a ser aniquilado por sua mente que colheria os frutos do trabalho duro; ou ao menos, uma enorme dor de cabeça.
- Eles... Isso é loucura. Eu me esforcei como um cão por tanto tempo, não contaria o que fiz a você – e a olhou com um pouco de pena; ela ignorou sumariamente e encarou-o esperando um assunto mais interessante que os costumeiros sem sentido que ele divagava. – Mas em contrapartida a todas as suas reações, eu estava me saindo bem, realmente bem. Eles são moralistas distorcidos! Isto que são. Não compreendem a arte e a sua essência profunda que, particularmente se esconde dentro de mim; só preciso do apoio daqueles canalhas.
- Que essência profunda da arte?
- Ora, se você não sabe, eu não vou lhe dizer. Mas não me atrapalhe.
- Ah, certo.
- Pois então. Demorei tempos para descobrir algo que valesse a pena; confundi-me no caminho, mas finalmente vi a luz.
- A luz!
- Sim, a luz! E estava lá, bem na minha frente. As idéias brotavam como uma fonte enquanto o que eu fazia se tornava de um gosto refinado e qualitativo. Digo isso pois já vi outros trabalhos de marginais da sociedade! – e ignorou a tossida significante que ela dera, observando a paisagem – que não fazem nada da vida e buscam na arte apenas uma distração. Mas isto é minha vida!
- Oras, então depois de dois anos descubro que trabalhas com arte?
- E literatura também, mas isso se torna uma rede mais intrínseca de conflitos psicológicos e profundos que tenho comigo mesmo, e vez ou outra com a editora, você não entenderia.
- Oh.
- Mas, continuando, a mistura de cores revelavam uma nova forma de ver o mundo, uma mescla de sonho e psicose, digo, você imagina a beleza disso tudo? O espírito humano revelado na mais crua essência com todas as suas dores e sonhos e medos. E eu consegui retratar, sim, consegui! A essência da tristeza se mostrava na apatia daquela senhora de forma única, mas que não estava nem nela mesma. Eu criei! Criei na tela e reinventei toda uma concepção de sentimentos.
- Hum, mas não acha que isso já existia?
- Você acha, mas é por que você não viu o que eu fiz!
- Sei, sei. Mas mostre-me então.
- Não posso, no calor do momento queimei tudo!
- Mas não me diga. Por que?
- Não quiseram aceitar minhas obras na galeria. Não eram o que procuravam, e encontraram um artista jovem e qualquer, para retratarem como uma revelação com uma arte sem sentido e vazia.
- Ora, pobre de você então. Faça outro.
- Não posso. Não estava em mim quando fiz.
- Estava drogado?
- Buscava inspiração por formas ilícitas. O que você falou é grosseiro.
- Ah sim. Então não pode fazer outro.
- Não.
- Então por quê me contou tudo isso?
- Pois vejo que mesmo com sua mente fechada, você tem um potencial e uma mente inteligente, apta para grandes realizações e feitos, e quero que lembre do que fiz; quero que alguém lembre.
- Lembro de uma idéia. Lembro de uma concepção queimada.
- Eu lamento por mim!
- Eu também lamento por mim! Você quebrou minha linha de raciocínio sobre esse livro quando parei para perceber um assunto que nem ao menos era interessante.
- Pois fique com seu livro tedioso. Eu vou buscar o mundo!
- Busque seus ideais, vá, vá! E me deixe, por favor.
E ele foi-se, e nunca mais voltou. Guardando mágoa por sua idéia potencialmente e teoricamente genial ter sido ignorada pela pessoa que ele admirava secretamente, enquanto ela se esqueceu do assunto cinco minutos depois. Os destinos deles se encontrariam mais tarde, aonde as surpresas da vida apenas revelariam que ela sempre estava certa em suas concepções interiores. Ele acabou como a mãe, com uma vida leviana e talvez sonhadora; mas para a morte, o número de descuidos não fazem diferença.