domingo, 20 de maio de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Chuva.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Um começo infrutífero para o dia. Tinha feito planos para sair e dar provas da minha estadia bem-sucedida no topo da escala da sociabilidade juvenil. Inferno, mal conseguia ficar de pé.
Deslizei as pontas dos dedos em minha testa, numa tentativa medíocre de curar a dor latejante. Tropecei numa garrafa e pisei no meu próprio vômito. Adorável.
Liguei o som enquanto tentava me coordenar. As paredes finas indicavam sons lascivos do outro apartamento. Devem estar se reconciliando da briga da noite passada.
Algum tempo depois, fiz algumas misturas de tinta contemplando a tela em minha frente. Perfeita para expressar o que eu queria. Nada. Mas eu não ganhava dinheiro com arte moderna.
Um tema gritante; algo eufórico. Uma contraposição com meu estado de espírito. Talvez a apatia e afastamento. Deus, mais disso não. A escória dos sentimentos humanos; exatamente o que eu preciso para afundar meu humor.
Talvez a minha única oportunidade de ter uma expressão genuína fosse nessa tela. Eu possuía uma disponibilidade quase anormal para me distanciar de explosões de humor: euforia, tristeza, afeto... Não chamaria de apatia natural; apenas algum tipo de indisposição. Surpreender-me desligada em pensamentos em meio aos desabafos contínuos de conhecidos rendeu-me boas horas de tranquilidade. E uma repelência para todas essas pessoas.
Uma tela romântica.
Muito apropriado retratar o amor e todas as suas virtudes, uma vez que eu me excluía da lista de pessoas que ganharam esse sentimento de presente dos céus (!). Eu adorava casais apaixonados; observá-los não me incomodava em absolutamente nada, ao contrário das queixas que ouço frequentemente. O amor aumenta a vulnerabilidade, diminui o raciocínio. Arremessa as pessoas numa linguagem poética natural. E a beleza, e a contemplação... A tragédia.
Os jovens que choram copiosamente sob uma circunstância qualquer, em meio às juras de amor infinito. A memória humana é fraca demais para absorver algo que sequer é alimentado. Num término de namoro, ou numa idealização platônica a maior dor é auto-infligida. Sofrer por amor é poético (uma vez que você é imerso nisso). Não muito saudável, entretanto.
Imagino minha representatividade para o amor; não sou acolhedora com interpretações de flertes e jogos cansativos. Observá-lo de longe me faz imaginar quão indigna eu devo ser dele. Oh, da tristeza também.
Nada.
Contemplei a tela em branco, quase desligando minhas divagações em meio às imagens mentais.
Outro copo de vodka e uma boa distância dessa tela. Um brinde ao amor.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Pensamentos aleatórios.
O tempo transcrito em desejos, a expectativa, e a ausência de impossibilidades.
A prévia inocência no claustro do seio materno.
O silêncio meditativo no paraíso é fundido em contemplação.
A passividade expectante.
A boa indiferença.
A ruptura.
A dependência.
A balbúrdia.
Sonhos condensados em amor profundo.
O despertar.
A nova espera.
O ínterim.
Um cigarro e uma música sussurrada.
Sozinha na noite silenciosa, ela mergulha na melancolia das possibilidades.
A busca do sentido da sua nova incompletude.
Faz a importante descoberta de que há outro ser humano indistintamente importante.
O apaixonamento.
A misteriosa felicidade.
O esquecimento.
Despediu-se, confusa.
A má indiferença.
domingo, 21 de agosto de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Inocuidade.
Aqui, o eu que se encontra no espaço alucinatório permanece espalhado por todos os lugares, como todos aqueles que se fundem com a melancolia.
Às vezes uma idéia permanece sendo apenas uma idéia. Um sopro fugaz de algo possível. Uma combinação de aspirações quiméricas. Não há poesia num solilóquio íntimo e efêmero. É tolice esperar que as idéias se mesclem e tomem forma e consciência exterior. Que se juntem num acaso solto e livre, para se tornarem uma ambição planejada e infrutífera de espaços íntimos.
Há quem reconheça a beleza da espera e do silêncio, mas não há mérito algum quando o observar de longe é apenas uma passividade expectante e inócua. Uma idéia que espera ser preenchida, mas que é confundida com nada por outros. É de uma fealdade insípida e repulsiva. Sinto essa repelência em meu âmago, sob um véu de seriedade e prudência.
domingo, 19 de junho de 2011
Nasce a discordância,
Nasce a dramatização temporal,
Nasce a reminiscência,
Nasce a vigilância,
Nasce o temor.
Discorre-se sobre tudo mais;
Exclui-se de tudo,
Em meio às inúmeras defesas contra o real,
Exclui-se o insolúvel
Nasce a negligência;
Amenidades dissolvidas -
A falsa transigência,
A perene licença poética.
Uma fuga trepidante da existência.
Um ínterim entre a vida e a morte.
Gênese II - Falta.
Agora, não se ouve ruído algum. Penso com clareza em pensamentos inócuos, outrora perniciosos e cobertos por uma neblina sentimental.
Descanso, quietude. Já possuí muitas gêneses e consciências repentinas. Agora percebo o peso que se fora, com a desistência aparente da falta. Não a falta universal - a falta que me faz carecer de um grande sentido de existência - mas a falta do Outro.
Momentos de insanidade poupados; uma espera silenciosa. Uma consciência vigente: a falsa libertação. A desistência anunciada camuflada pela defesa inconsciente.
Sinto falta da infância, da surpresa, do agrado. Hoje sou agraciada pelo auto-engano paradoxalmente racional, a superficialidade dos bens materiais, o imediatismo, a distopia. Memórias reminiscentes deformadas, vertidas em algo belo.
Uma passividade imersa em complexidade, um lago pequeno, mas profundo. Um penhasco que atentará em vertigens aquele que se atrever a olhar. Torço para que seja a vertigem que incitará o mais despreparado a um mergulho na escuridão.
Gênese I - E o ínterim vazio.
Tu me agracias com tua nobreza. Um sorriso singelo e indulgente. Medo, escárnio: nenhuma dessas emoções é claramente demonstrada. Há uma barreira; há penhasco, há uma ilusão. Você me inspira muitas sensações discrepantes, que beiram ao extremo de qualquer coisa, mas agora a minha melhor manifestação possível é a desistência.
A serenidade intransponível beira ao adorável. Tu que és a fada brilhante que inspira sentimentos cálidos; que suscita a reminiscência dos pecados já perdoados. O ventre criador; a pérola brilhante de outrora. Meu servo curva-se perante sua beleza; e eu também.
Encarnas no corcel negro, a criação demoníaca. O tufão da morte ceifadora. Impregnado na luxúria; és o vampiro insensível que propiciará minha última respiração. Do fundo de meu âmago, percebo a minha necessidade por ti, um príncipe vaidoso, agora imerso num encantamento terrível. Foi mantido congelado, e no gelo permanecerá.
Meus pensamentos distorcidos, minha insistência muda, nada é sequer remotamente percebido. Peço exílio, mas tu não consegues desviar da tua própria imagem do espelho.
Deparo-me com gênese do que está por vir. Tu, que beiras ao inalcançável, descansa na imortalidade da tua torre de loucura, enquanto eu mergulho na sanidade da morte.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Porão.
- Eu sonhei com você noite passada.
- Mesmo?
- Sim, mas eu não poderia definir o sonho direito. Não vou dizer que ele era estranho, mas era triste. Quer dizer, depende. Eu estava com você e havia uma grande tapeçaria. E, bem, era um baile.
- Me parece um sonho muito agradável.
- Bem, no baile eu estava sem par, enquanto você me apresentava sua noiva, - ela prosseguiu rápido após uma breve objeção dele – no sonho, sabe.
- Sei.
- De repente o sonho mudou, eu acordava e percebia que você não me conhecia. Parecia um amor platônico, o meu. Eu ficava triste por ter acordado.
- Você costuma sonhar muito comigo?
- Não, só essa noite – ela baixou os olhos, corada.
O gesto foi seguido de uma carícia em sua mão e um beijo quase imperceptível. O homem, muitos anos mais velho que ela, observava ternamente o olhar da jovem focado no horizonte.
- Bem – ela prosseguiu – já imaginou com seria se você nunca acordasse?
- Não.
- Mas todos deveriam ter imaginado algo assim. Parece estranho mas, algumas pessoas confundem isso com morrer.
- E não seria morrer?
- Não, por que você ainda estaria respirando. Morrer implica em abarcar um grande vazio ou algo assim. Não sei definir o “não ser”. Eu estava pensando num estado de sonho permanente. Algumas pessoas desejam morrer quando simplesmente não querem mais ter consciência do presente. Perder os sentidos ou algo assim; não implicaria morrer de verdade.
- Um desmaio regado de remédios?
- Isso não parece muito poético.
- Eu não pretendia ser.
Ela encostou a cabeça em seu ombro, olhara o anel de noivado em sua mão, silenciosa. Permaneceu assim até que a voz grave de seu companheiro esboçasse uma música suave em seu ouvido, que ambos conheciam. Ela riu levemente com seu esforço, mas achou agradável. Extasiava-se em júbilo.
Eram sete da manhã e ela permanecia imóvel na cama. A respiração era pesada e seria muito cedo para que alguém percebesse seu estado. A noite se foi e o dia passava rápido, indiferente e brilhante, com o sol queimando seu rosto delicado com raios diáfanos que atravessavam o vidro empoeirado. Tocavam seu rosto extasiado; como um visitante incoveniente que batia à sua porta enquanto apreciava fotos antigas no porão. Ela teria atendido se pudesse abrir os olhos.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Ele era o único ser que permanecia naquela parte do parque. Falava consigo mesmo e esboçava gestos. Seus olhos, contornados por marcas profundas de um tempo distante, pareciam refletir alguma felicidade.
Qualquer um que o visse, através senso comum, o julgaria insano. Seu rosto plissado, sujo e a falta de senso estético, juntamente com o comportamento excêntrico fariam com que ele recebesse esse título (que aceitaria de bom grado, se prestasse atenção no que diziam).
Não gostaria de viver no passado ou através de lembranças de uma juventude paradoxalmente utópica e esquecida, mas desde que o rumo e o sentido da sua vida passaram a se construírem num pilar principal; e esse pilar, por sua vez, abandonou este mundo, ele já não via mais as coisas como detentoras de um sentido real, mas sim, projeções efêmeras que não representam algo muito valioso.
O pilar principal, ou sentido da sua vida, por assim dizer, estavam representados perfeitamente em uma mulher. Uma dama, alguns anos mais jovem do que ele, com quem compartilhara um pedaço do seu tempo de vida. Um pedaço com fragmentos contínuos do que ele imaginava que poderia ser a felicidade.
Durante todos os dias, sofria com alucinações simbólicas. Mas via miragens magníficas que eram constituídas de pequenos pedaços de lembranças da sua juventude. Isso, por vezes, o anestesiava, enquanto permanecia sentado o dia inteiro, inerte, à vista de estranhos.
Sua respiração disforme era acompanhada do palpitar de seu coração. Ninguém poderia jamais dizer o que ele via, tampouco desmistificar isso, acusando-o de louco. Seus olhos se fechavam para apreciar melhor a sensação, enquanto o coração desacelerava e a respiração se tornava abafada. Entrava em sono profundo, enquanto as pessoas apressavam ligeiramente os passos, hesitantes pelo seu aspecto sujo.