sábado, 27 de novembro de 2010

O frio mal lhe permitia pensar. Naquela madrugada insone, acendia um cigarro do lado de fora da casa. Olhou novamente as sete chamadas perdidas no celular e o desligou. Por um momento, fechou os olhos e sentiu o vento.
“Patético.”
Levantou-se, a medicação mal fizera efeito. Entrou no carro e dirigiu durante meia-hora. Fez uma ligação e esperou do lado de fora da outra casa.
Alguns minutos se passaram. Ele se mostrava indiferente.
Ela viera rápido, seu rosto ainda refletia um tanto da jovialidade que alguém daquela idade deveria apresentar. Os olhos fundos e o aspecto choroso mesclavam-se com sua beleza.
Conversaram durante alguns minutos e abraçaram-se ternamente. Ela parecia encher-se do tipo de alegria da qual estava se abstendo. Ele fazia questão de contribuir para isso da melhor forma que podia.
Ela entrou no carro, ele dirigiu até um motel simples no centro da cidade.
Por fim, amanheceu.
De volta ao carro, conversavam amenidades descontraídamente. O coração dela começava a acelerar com a perspectiva da sobriedade habitual. Sua casa estava perto e ele permanecia impassível. A jovem arremessava-se vertiginosamente naquele sentimento terrível (para si mesma) que a viciara.
Ela mirava seu olhar apagado, com acuidade, antes de fingir (desajeitada e inutilmente) um descontínuo controle sobre si mesma.
Nenhum compromisso era uma hipótese plausível; ela sabia. Só a culpa depois da embriaguez, a distância do delírio e a concepção de permanecer lúcida numa realidade inadmissível a faziam querer entorpecer-se ainda mais. Ele despedia-se rapidamente (precisava trabalhar), enquanto ela dava-lhe as costas. Virou-se, na esperança de testemunhar um olhar delicado e amoroso pousado sobre si, mas ele havia partido. Uma lágrima imperceptível iluminou sua face sob o sol. Então veio uma brisa fria, e ela lembrou de entrar para se aquecer.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em noites claustrofóbicas em seu quarto desarrumado, ela projetava e cuidadosamente construía aquilo que poderia ser o ápice de suas fantasias. Era especialmente descuidada ao controlar suas emoções, pois via avidamente em determinadas pessoas a encarnação da sua idealização – boa ou má.
Não tinha idade suficiente para discernir os comportamentos entre si, manifestando em cada um extremos isolados da sua própria angústia.
Seus pais a levavam para brincar com as outras crianças, na época em que ela tinha problemas em sair dela mesma.
Quinze anos depois, escrevia avidamente num papel uma carta de despedida para um rapaz muito apaixonado por seu silêncio. Lera a carta algumas vezes e a reescrevera outras tantas, na esperança de alcançar alguma satisfação. Relacionava-se com alguém que sequer amara, unicamente para poder envaidecer seu espírito, tão solitário e confuso.
Mas esse tempo de felicidade limitada se fora; passou pela sua vida como algo efêmero e distante. Sequer tocara suas memórias mais protegidas.
O amor em si a incomodava. Não tinha nada contra sua definição, não procurava difamá-lo, mas ele fazia parte das coisas que poderiam fugir do seu controle, e isso poderia ser um problema em potencial. “Isso é desagradável” pensava. Obviamente, sua conclusão não surgira de solilóquios infindáveis relacionados ao amor. Ela o experimentara fervorosamente com sua pouca idade. O bastante para concluir que não era madura o suficiente para tamanho problema. Era inquieta quando estava apaixonada; passava por períodos que comparava a delírios e frustrações constantes.
Após enviar a carta, deitou-se em sua cama e ficou feliz por libertá-lo. E ainda assim, sentiu-se mais abandonada do que nunca, por razões indizíveis até para ela mesma. Ninguém poderia imaginar o que ela pensava, ninguém poderia saber de suas necessidades. Isso a entristecia. Era inexpressiva naturalmente.
Olhava-se ao espelho, não se reconhecia nem de longe. Perguntara-se inúmeras vezes sobre quem era mais feliz: ela, com toda sua pertinência em se desviar do amor e viver sem se descontrolar ou magoar, ou o rapaz ávido em descobrir seus sentimentos mais profundos, apaixonado pelo silêncio dela mesma.

sábado, 18 de setembro de 2010

Eu te encontrei dispersa, catatônica. Seu mundo desigual sempre fora desinteressante para mim; você estava vestida em cores solitárias, e seu corpo preso a algo do passado que me fugia à memória.
Eu simplesmente esqueci, que tudo o que você via era o constrangimento do seu mundo, exposto ao meu. Uma necessidade violenta de ser amada; uma montanha-russa de inconstância. Eu descobri o amor arraigado na miséria dos sentimentos e das coisas quietas que jamais deveriam ser descobertas.
Minha criança, fria e solitária. Presa num estupor de lembranças. Os longos anos não têm sido generosos conosco, mas eu me abstive de suprir minhas próprias necessidades, quando via que o tempo parecia secar toda a sua alma, outrora juvenil e delicada.
Você sorri para mim, enquanto eu vejo sua pele de porcelana estática. Agora a deixo à mercê dos vermes e das coisas que te perseguem quando você está só. Você me diz que não vai conseguir sobreviver novamente e que não há uma alma como a minha; enquanto me vou com o fragmento da minha individualidade restante e fecho a porta. Abandonei sozinha a minha melhor e a pior lembrança, construída inteiramente no meu imaginário. Minha criança, minha amante, eu espero que seu rosto catatônico regozije-se no escuro do seu interior.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Clipes Musicais Adoráveis e Questões Eclesiáticas Pouco Difundidas = Paradoxo.

Já que o Tumblr é fresco e a verdadeira personalidade por trás destas páginas já se cansou das burocracias digitais, aí vai a sequência de vídeos, de qualquer jeito mesmo. Eu sei que vai ser um esforço muito grande pra você clicar em cada um deles para assistí-los, mas não custa nada pedir para que você o faça...

Mas antes de qualquer coisa, eu terei de explicar à minha querida amiga Lourdes os motivos que me levam a tamanho extremismo. Em primeiro lugar, eu não tenho tantos amigos leitores quanto você, graças a isto o meu blog vive do meu tempo livre, sem qualquer tipo de público fiel. Além disso, postando esta seleção aqui, pode ser que você acabe encontrando algum motivo para dar algum significado a ela, tal qual outras pessoas, que vez ou outra lêem os seus maravilhosos textos (se estiver lendo isso agora, venha tirar satisfações comigo, tenho uma proposta que pode ser do seu interesse). Então, por favor, não me mate, e nem tente destruir a minha vida. E sim, eu estou implorando.


Aí vai a sequência, sem comentários mesmo, pra não ocupar muito tempo--gostaria de deixar bem claro que eu não estou fazendo um TOP 10, estes videoclipes foram postados de forma aleatória, sem qualquer tipo de preferência quanto as suas ordens:

http://www.youtube.com/watch?v=PzvveVJgWkM&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=i6gHLHbYVeA
http://www.youtube.com/watch?v=atjafwS9Za8
http://www.youtube.com/watch?v=BKXKWBcaV3A
http://www.youtube.com/watch?v=UnTrbvg4wNg
http://www.youtube.com/watch?v=TxkMu8aNJDY&ob=av2e
http://www.youtube.com/watch?v=PzvveVJgWkM&ob=av2e
http://www.youtube.com/watch?v=VXa9tXcMhXQ
http://www.youtube.com/watch?v=WT1LXhgXPWs
http://www.youtube.com/watch?v=GQq4UEL__DI
http://www.youtube.com/watch?v=iFPVWgQHWZA
http://www.youtube.com/watch?v=-6yantixZ5c
http://www.youtube.com/watch?v=6Zbi0XmGtMw
http://www.youtube.com/watch?v=8z1hwtDS97E
http://www.youtube.com/watch?v=EEU-PNQwdWM
http://www.youtube.com/watch?v=PyHaqEK394I
http://www.youtube.com/watch?v=BQAKRw6mToA


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Acordei de um sonho que se vertia em memórias belas e tristes. Eu desejei poder dormir mais um pouco naquele dia.
Oh destino, por Deus, livrai-me do fardo que esse torpor causa em mim. Como disse Rilke num fragmento de pensamento (não concluído aqui): “A carne é um fardo”, meu fardo é atemporal, é a dependência da solidão. O claustro irregular que se manifesta em meus pesadelos e em meus sonhos ébrios.
Voz trêmula de um medo que não me cabe mais. Vivo com uma consciência da qual já não posso fazer parte. E não choro. Não é que já chorei o suficiente, não é como se as lágrimas passadas fossem um pré-requisito para a situação atual. Isso tudo é ocasionado pelo torpor.
A decepção de descobrir que o que há de eterno pode se valer da fruição dos sentimentos indizíveis, e ir embora como se nada nunca sequer tivesse existido, e tudo não tivesse passado de um sonho ou um devaneio ébrio.
Sou cercada por pessoas, por oportunidades, por destinos paralelos e por promessas de felicidades duradouras, mas eu ainda não pude ser acordada.
Não há primavera, ou verão, ou sequer inverno. Minha mente fica estagnada num outono que é preenchido pelas memórias que deveriam ser destrutivas. Mas sinceramente, elas já esmaeceram com o tempo – agora resta o resquício da idealização, a subjetividade daquilo que não foi completado, o paralelo do feliz e triste. Não há felicidade ou simplesmente a sensação desprendida de nenhuma pendência com todas aquelas coisas indizíveis trazidas pelo amor. É como um sonho, um estado de coma, que me priva da tristeza, das lágrimas. Me priva da sensação da profundidade, preenchida pela dor da perda.
A ausência de sentido, a essência do abandono, do inexplicável, do indescritível e de tudo aquilo que eu já não posso esperar se tornaram um fardo.
O fardo da consciência de que a minha profundidade é preenchida por nada – por eu já não me conhecer mais como eu achava que conhecia. Por uma idealização que foi dissolvida com o vento; com as promessas do eterno corrompidas pela realidade. Oh vida impassível aos tormentos da humanidade, tens participação em algo, ou somente eu tenho culpa por manter esse resquício resguardado em meu coração? A resposta está na própria pergunta.
E é tudo tão fugaz (o próprio infinito), que o que há de eterno em mim agora, amanhã pode esmaecer e virar pó, e eu já não me reconhecerei com o tempo – ou sequer lembrarei de honrar minha solidão claustrofóbica presa na quietude desse lugar mudo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Eu desviava dos meus sonhos, arremessava negligentemente em sofismas o céu que eu havia construído. E tomei por irreal minha felicidade.
Ela estava ali, me abraçava, tolhia a dor, sugava o veneno que corria em minhas veias. O veneno da serpente que prendia meu calcanhar quando eu tentava alcançar o céu.
A morte se apoderou de mim mais uma vez; e cá estou, desfrutando do paradoxo da irrealidade.
A morte significa o fim para muitos, mas minha morte foi rápida, quase indolor. Houveram algumas lágrimas por lamentar que eu mesma estava morta, mas quando nos acostumamos à sua efêmera presença, ela nos acolhe com sua bênção atemporal. O ceifeiro pareceu feliz ao me ver, sorriu quando sussurrou em meus ouvidos (ela (a morte) não era uma presença física, mas um eco que se projetava em minha mente, e falava de modo perceptível tal qual um suspiro dado pelo vento): “Seus sonhos estão mesmo no altar aonde você os deixou”.
Foi o símbolo que me coube esta noite.
Morta? Fragmentada. A felicidade nada mais é do que fragmentos que dão espasmos de motivação à grande lacuna do absurdo, que é a vida. Temo-a, pois não a posso prever, ou julgar, mas assim o faço! Vulgarmente falando. A felicidade nos subjuga, nos comanda, é tirana! Arranca tudo de nós para que possamos beber algumas gotas da sua escassa fonte que é intrínseca com o incansável.
Mas isto são só devaneios que minha tristeza me contou. Durante um tempo incerto eu concordei com ela. De vez em quando ainda concordo; minto para mim mesma, crio o simulacro da contradição; e é lá aonde meu coração nômade se instala.
Então foi em um dos momentos no qual perniciosamente acobertei minha verdade, que ela, por sua vez, verteu-se em minha morte!
Ela é simples. A felicidade pode mesclar-se com o amor. A felicidade pode mesclar-se com algo doloroso. Outro paradoxo.
A mim cabe a dor e a felicidade. A dor que é necessária, a minha amável dor, a dor que representa minha profundidade, sem a qual eu perderia o sentido da minha minúscula vida. Minha profundidade tem muitos símbolos, poucos que eu mesma identifiquei. Minha profundidade talvez seja a incompreensão do meu espírito.
E eis que surge o eco do conselho da morte; a felicidade. Ela esteve esperando, rindo por eu sempre correr ociosa e desviar, rejeitar sutilmente sua afeição; cair no sono profundo do tédio, encantada pela beleza devastadora da melancolia. Eu sempre estive entorpecida enquanto havia um fogo distópico enegrecido sob meus pés, sob meu calcanhar envenenado.
E com amor construí minhas asas. Espero que elas gentilmente sejam grandes o suficiente para me elevarem; levando em conta seu temperamento retraído; e não as culpo, o mundo as condena ao passo que condena a si próprio.
É tudo o que sonhei. E obrigada à morte por espantar o sono ébrio e encantador da melancolia, e por me lembrar gentilmente da vida que me foi dada.

domingo, 23 de maio de 2010

Chave

Vagava, sozinha, à noite. Imagino que eu deva ter tomado algo muito forte; eu não lembrava de nada da noite anterior.
Ouvia música no meu mp3 enquanto procurava cigarros no bolso, em vão. Devem ter levado, eu suponho. Então me concentrei na música que se mesclava com meu estado de espírito, ou simplesmente ajudava a construir um humor completamente distinto do anterior.

Once in a house on a hill
A boy got angry
He broke into my heart”.

Cantarolei baixinho, enquanto procurava as chaves do meu apartamento. Com um espasmo de demência, lembrei que havia deixado-as na festa a qual eu tinha desmaiado. Ou algo assim. Ah, essa não seria uma boa noite para encontrá-lo.
Passei cinco minutos sentada na calçada, olhando para os insetos que circundavam a lâmpada do poste. A luz era fraca, diáfana, mal iluminava meu rosto entorpecido. Talvez não fosse meu rosto, somente.
Enfim.
Eu lembro de gritos, de um alarido ensurdecedor. Mas talvez fosse como qualquer outra festa. Lembro do amor. Lembro do meu próprio amor.
Engraçado, é estranho.
É um amor hermético, frívolo. Se eu não me conhecesse eu chamaria de ódio. Mas eu não planejaria tão cuidadosamente alguma situação aonde eu fosse encontrar a pessoa digna do meu repúdio; logo, concluí que era, de fato, amor.
Mas não era a hora certa, não era o tempo certo. Aliás, não só para o amor; para nada. Meu espírito deixou de ser caloroso, sua forma ígnea tomou um rumo apático e insípido, numa época que se perdeu das minhas próprias lembranças. E, ao mesmo tempo, eu estou me deixando levar pelo acontecimento da noite anterior.
Talvez eu não queira lembrar.
Eu o conheci há uma semana. Na primeira vez que o vi, constatei que o odiava. Mas pensava tanto nele que meu ódio se verteu em fraqueza. Ele me deixou entorpecida; mas de uma forma positiva, na época (há uma semana atrás). Eu soube então que ele ia para outro país; antes mesmo de descobrir que me amava.
Foi quando eu pensei que a teoria do ódio seria mais interessante. Mentir para mim mesma é uma forma bem efetiva de me fazer sentir melhor.
Então ocorreu aquela festa. Eu não vou a festas; são manifestações pérfidas da vulgaridade humana, ou algo idiota assim. Na minha rede de lógica intrínseca com meu humor, essa é a única explicação plausível para eu me abster de qualquer contato humano; embora eu saiba que eu estou mentindo para mim mesma.
Eu quase sempre sei.
Era triste lembrar dele, por que era triste lembrar que no meu sonho, ele havia me beijado.
Era triste lembrar que não foi um sonho; e ao mesmo tempo foi.
Então, uma coisa morta que se alojava no meu coração pareceu se revirar, e fazia isso de uma forma pérfida e desagradável; mas foi o suficiente para saber que isso não estava morto. Então, era real. Eu mesma era real, e o que eu sentia também. Descobri que a consciência de algo pode machucar tanto quanto uma dor física. Ou até mais.
Vaguei pela noite iluminada por postes fracos, cuja luz não consegue alcançar meu semblante choroso. Esperei que o meu torpor voltasse, mas era tarde demais; eu estava sonhando de novo.
Então segui rumo ao meu destino paradoxalmente incerto, esperando algo mais do que a pequena chave do meu apartamento.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Hoje eu estive sozinha. A companhia de outras pessoas que não te conhecem realmente não consegue suprir qualquer necessidade de ‘alguém’ por perto. Eu não estou doente, e digo isso por que os devaneios que desenvolvi hoje seriam comparados aos de um moribundo ou algo assim; eu imagino.
Eu passei boa parte do dia dormindo.
É mais ou menos assim. Como um estado de sonho, aonde eu percebia que eu afastava minha concentração daquilo que parecia insuportável pra alguma coisa no meu interior que tornava minha alma sensível naquele momento. Eu ouvia uma música triste e que parecia etérea, e ela me elevava a um estado parecido com o que eu queria sentir naquele instante. Imagino que, quando se está assim, não se quer olhar pra outro lado, nem implorar por qualquer ajuda. Não é algo ruim, aliás, apenas falo isso por que aquelas almas que habitam corpos distintos do meu, sugeririam isso. Eu só olhava para as pessoas como cascas vazias que estavam dormindo, e então quando eu fazia isso eu me sentia acordada.
Imagino que eu estava confusa.
Imagino que todas as pessoas que julgam que os seres humanos são cascas vazias estão confusas consigo mesmas.
Será que eu estaria com depressão? Essa palavra me causa ânsias. Parece algo imoral. Suscita a presença de uma pessoa miserável. A depressão não definiria o estado no qual eu estava, por que ela mesma era uma palavra com um significado errôneo para mim; talvez eu descubra o que isto significa algum dia.
Nenhuma palavra definiria o que eu senti. Talvez por que eu não queira que defina.
As palavras são grosseiras para definir qualquer coisa imaterial, eu imagino. É mais um ponto de vista extremamente particular; eu amo as palavras, elas definem isto aqui, nesse exato momento, mas são incapazes de definir a dor.
A dor pode ser insuportável.
Eu imagino que o que senti pode ser equiparado, em relação aos sentimentos que concorrem entre si, à melancolia e à dor. Ah, para mim, a dor não tem o mesmo significado que para a maioria; visto que eu raramente sinto graves dores físicas.
Parecia um buraco.
Era profundo, abarcava tudo. Abarcava o mundo e aquela que habita o meu corpo. O eu que desejava voar, conseguia gritar a plenos pulmões dentro de mim. Ele existia enquanto eu mesma dormia.
Hoje eu vi uma mulher no ônibus pedindo dinheiro. Ela não usava trapos, mas falava sobre um bebê que nasceu com defeito; eu acho. Grosseiramente falando, era isso mesmo. Então ela mostrou as marcas no seu ventre de alguma cirurgia mal-sucedida, esperando comover os outros por isso.
Eu não senti nada.
Eu devo ter perdido a minha sensibilidade ou algo assim; ou talvez isso não tenha sido profundo o suficiente para me tocar. Talvez eu seja uma pessoa fria.
Talvez eu seja uma pessoa realmente fria.
Muitas pessoas que eu conheço me acham calorosa, talvez eu seja realmente. Ninguém garante que o eu que está escrevendo isto é o mesmo eu de sempre.
Eu mudo todo dia.
Então eu percebi que eu abarco um mar de outras pessoas que se parecem bastante comigo. Elas têm os mesmos sonhos, mas agem diferente.
Às vezes mudar incomoda. Mudar a si mesma pode modificar os próprios sonhos. E aquele eu que sonhava aquele sonho que foi mudado, poderia se sentir magoado comigo mesma. Eu me sentiria afinal.
Me colocando na situação de outro alguém muito distante.
Então senti uma totalidade advinda do meu eu que se importa com isso, conseqüentemente, aquele que reflete.
Não entendo como algumas pessoas acobertam o sofrimento durante toda a vida. Elas não vão ganhar algum prêmio por isso. Não entendo como algumas pessoas dizem que gostam de sofrer.
Eu falo sem entender a totalidade do eu de ninguém.
Então isso é tudo absolutamente sobre mim; mesmo que eu fale de estranhos que nunca vi.
Talvez isso tudo seja uma mentira.

domingo, 4 de abril de 2010

Visita

Eu estava sentada do sofá, vendo na televisão o mísero alicerce da juventude fracassada. Deve ser algum tipo de comodismo de uma pessoa inconscientemente inepta a suprir qualquer uma dessas necessidades do mundo. Eu imagino.
Ou então eu estava sendo somente eu. Somente.
A comida tinha acabado, devia comprar algo pronto para fazer depois (ou contratar os serviços de uma empregada; o que seria impossível devido às minhas precárias condições financeiras atuais). Havia pegado um copo de vodka quando percebi que estava de reabilitação. Ah é, sempre tem dessas. Eu presumo que eu comprei a vodka pensando num momento de extrema necessidade, para me provar; ou para tomar casualmente. É... E foi exatamente para isso.
Então eu tomei.
Estava esperando uma visita.
Há muito tempo eles não vêm. Geralmente são cobradores, testemunhos de Jeová. Não que eu me importe; se conseguissem me converter estariam me fazendo um favor. Eu imagino que seria preferível viver uma vida alienada me misturando com pessoas da minha fé do que enfiada num claustro involuntário escuro (não menos alienada)... E sem comida ainda.
Mas eu vou receber uma visita... Ah sim.
Perscrutei as gavetas procurando algo limpo. Nenhuma das minhas roupas parecia exatamente apresentável, mas tentei colocar um vestido simples e xadrez que minha tia me enviou de natal. Considerando as outras possibilidades (e a minha visita) estava de bom tamanho.
Não que eu estivesse ansiosa. Não pense nisso mein freund, mas passou perto (meu orgulho se recusa a admitir qualquer coisa relacionada a isso). O que deveria ser perto de ansioso? Não vou me aprofundar muito, mas meu velho amigo da faculdade virá me visitar. Muitos anos que não o vejo; e nunca fomos algum tipo de namorados modernos presos na pungente realidade do desapego iminente e superficial; e nunca tivemos qualquer tipo de relação casual. Éramos só amigos.
Eu esperava ele sair, então passávamos o dia juntos. Ele me fazia rir bastante. Acho que eu não deveria um senso de humor muito apurado naquela época; ou ele só se desenvolveu com meu humor-negro distópico de agora... Enfim. Deveriam ser bons tempos. São as únicas memórias que eu ainda não bloqueei, então, por Deus, que venha! Que destrua todas as minhas lembranças sagradas, com a realidade dispersa no meu mundo. Atinja a parede passiva da minha mente inócua, e assim eu poderei dormir em paz. Não posso viver de idealizações; nem de sonhos.
Sentei no meu sofá velho; esperando que alguém me batesse com força e eu desmaiasse. Esperei por mais de duas horas; até que minha última memória parecia ter sido fragmentada em mil pedacinhos disformes, na minha alma vasta, muito vasta; porém oca. Somente.
Ouvi um barulho baixinho vindo da porta. Eram batidinhas que pareciam ser de uma criança perdida ou algo assim. Então abri sorrateiramente. Foi quando o vi.
Estava tão diferente, entretanto, mal tive tempo para reparar nisso. Ele me abraçou em prantos e soluços cansados. Não reagi da forma que eu queria, somente fiquei estática; esperando pelas suas primeiras palavras depois de muito tempo. O mundo teria parado, talvez se distanciado de mim e me dado adeus naquele minuto, mas eu não me importava tanto. Possivelmente, em algum lugar muito afastado e inconsciente de toda aquela situação, para ambos, o mundo não seria tão vasto como nós mesmos.
Talvez isso fosse o amor. Mas logo afastei o pensamento para reparar no foco atual da minha mente. Então percebi que estava reparando nele durante longos anos.

sábado, 20 de março de 2010

Devaneios sobre um casal (e o amor) pós-moderno

Virgínia e Emmanuel discutiam ao acaso. Estavam ocupados perdendo a consciência para lembrar de qualquer coisa importante. E aquilo que era importante se fazia claro, pulsava em suas veias, era o que estava fixo na memória e surgia involuntariamente na suas retinas. Era o ar. Era tudo.
Enquanto faziam parte do mundo, como passageiros distraídos, a distorção de seus valores era muito aparente. Um enfado advindo da vulgaridade e decepção. E a decepção era glorificada como algo que era tão real quanto suas próprias consciências. Mas eles ainda não lembravam.
As memórias foram modificadas por eles mesmos, abafadas. O ruído do trauma vem silencioso e disforme, geralmente é perturbador ao ponto de ser confundido com nada. Eles não suportavam mais se olhar. E sob esse véu escuro, morava o medo, a inconstância, o drama e a violência; e qualquer desculpa que possa firmar a individualidade de um dos dois, e não a partilha do amor.
O amor! Era aquele sentimento utópico, imaginário, talvez; mas isso somente na visão de Emmanuel. Virgínia tinha uma idéia bem diferente; parecia mais aquele sentimento bonito que pode superar qualquer coisa, manipulado pela convenção, aonde ela encontrava consolo e normalidade; “normalidade”; mas ela também estava cansada disso. Os dois tiveram juntos o prazer de conhecer o amor; mas por alguma razão, os ventos do amor trouxeram coisas demais!
Emmanuel se valia da força para consertar sua insegurança, mas ele não conseguia consertar sua mente. Em um lugar bem perto dali, vivia a mulher que esperava por ele, mergulhada no mesmo enfado que o casal vivia. Ela precisava ser ouvida, precisava de uma nova consciência, estava sozinha a tempo demais, por esperar a sua visita inconstante. Mas ela também não sabia disso. Talvez se soubesse, se esquivasse daquele homem e fugisse como o diabo da cruz, daquilo que a prendia de forma mortífera e cruel, e não ouso chamar de amor; isso seria deveras agressivo para a definição sublime que tamanho sentimento idealizado inspira nas pessoas.
Enquanto diluíam as banalidades, o ar era impregnado por algo muito ruim. Tão ruim que era perceptível para quem estivesse por perto. Seja lá o que era, talvez fosse a razão da balbúrdia, ou somente era o acaso brincando com a situação. Talvez eles mesmos contaminem o ar com tantos gritos.
Pararam, Virgínia respirou calmamente. Emmanuel tomou uma vodka, então os dois se separaram em diferentes cômodos da casa, aos seus antigos afazeres de seres humanos que conseguem se colocar em uma situação tão ridícula. O ar era pesado, mas logo esqueceram. À noite, tomados pelo enfado "fizeram amor", não exatamente amor, mas era disso que chamavam o sexo. Deitados juntos, eles imaginaram a verdade, fizeram uma auto-análise corriqueira. Ficaram com muita preguiça para pensar, muita mesmo, o sono era realmente grande; deixaram para o próximo dia que viria, assim como os tantos que se passaram. E assim a vida foi vivida naquele dia, e seria naquele próximo, mas eles não lembravam realmente, por que não se sentiam preenchidos com seu sentido. Talvez fossem procurar o amor de novo; quem poderia saber?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tédio

Era uma madrugada muito fria; eu acordei repentinamente com a música vulgar de uma boate qualquer. Procurei pelos analgésicos do meu bolso, mas eles haviam sumido. Ali não havia nada que me interessasse.
A jovem que dormia na minha cama parecia sonhar com uma vida feliz.
Era outra situação aonde eu me sentia estúpido. Ela provavelmente queria que eu me apresentasse para sua família como “um homem de verdade” que estava ao seu lado para apoia-la e protege-la de suas decisões cruéis e tiranas. Deveria ser algum tipo de crise adolescente, eu imagino. Sempre os pais, ou alguma situação leviana que se mostraria no final como algo maléfico que devora a sua alma e te faz se cortar de desespero. Seria; se não fosse estúpida.
Desci as escadas devagar, esperando que não a acordasse. Seus sonhos seriam destruídos fatalmente alguma hora, ela não deveria esperar nada demais, não deveria sequer idealizar algo. Idealizações são perigosas; afinal, ela calhou de nascer no mundo mais desgraçado de todos (pensando na possibilidade positiva de existirem outros).
Acendi um cigarro e coloquei a outra mão no bolso. Estava muito frio pra sair, mas eu não tinha muitas opções. Aquele rosto bonito era vazio e simplório e não significava nada para mim. Se é que algum dia algo já significou.
Não não, não sou tão desgraçado assim. Bom, as mocinhas que saem comigo possuem muitos motivos para me odiarem. Eu me odiaria se fosse elas. Mas não me acho tão mau assim. Quer dizer, eu ainda tenho pena delas às vezes; então deve significar que eu tenho sentimentos.
Eu costumo imaginar que eu coleciono a beleza. Eu não sou do tipo que se prende ao plano espiritual da coisa; mas a questão é que eu gosto de tornar meu aquilo que consegue me surpreender por algum tipo de presença exótica. Ultimamente jovens moças têm se tornado meu prazeroso passatempo. Eu visualizo uma pureza oculta, marcada por alguma imperfeição; uma tristeza que se esconde num rosto tímido. Uma mente insegura que se força a mostrar-se ao mundo com todos os seus medos. Eu estou lá para elas; enquanto elas choram nos meus braços, ou quando sorriem para mim imaginando que de alguma forma inverossímil sua beleza me prendeu, de forma que eu fizesse todas as suas vontades através do imaginário amor verdadeiro. Elas começam a se tornar minhas posses.
Então o primeiro laço de confiança se torna mais profundo, cruel; manipulativo. Geralmente na primeira noite nós vamos para cama e elas não têm sequer uma reação negativa com a minha proposta. Mas no fundo elas sabem; ou apenas as mais observadoras abafam o ruído incessante dos seus instintos que as alardeiam com minha presença. Sabem que meu sorriso simples é tão vazio quanto minha alma oca, que procura um mero entreterimento para suprir o tédio.
O tédio.
Meu tédio vem desde minha infância. Não me interessava em matar animaizinhos como aquelas crianças brilhantes e deslocadas, que os outros costumam chamar de psicopatas. Talvez eu preferisse manipular os outros ao meu bel-prazer, para enfim ver o meu mundo girando da forma grandiosa para suprir a falta de sentido da minha existência. Mas a vida pode ser tão bela, tão cálida e gentil.
É o que dizem.
Até que numa noite com aquelas pessoas que parecem tão iguais como todas as noites, eu vi a singularidade que se assemelhava ao que eu só imaginava como eu mesmo.
Seria uma semelhante? Sua alma e a minha estariam interligadas de alguma forma mística e reveladora? Possivelmente não; provavelmente eu a olharia com desprezo depois do primeiro contato significativo, que não fossem os olhares de atração. Só pelo fato crucial que predominava na minha mente e que instigava meu repúdio incontrolável e que ao mesmo tempo lutava bravamente com o sentimento de ligação, o olhar, a presença lasciva...
Ela era muito velha.
Trinta ou quarenta, não importa. Eu sei que a maioria das pessoas se prende firmemente com todas as suas almas simplórias com a mera possibilidade de encontrar um amor verdadeiro; elas não se importariam com isso tanto assim. Elas.
Minha obsessão vem da consciência nova, da insegurança. Da beleza angelical moldada pela pureza da juventude. Juventude. As pessoas normais me repudiariam por tamanho absurdo! Sim, eu sei, mas minha noção aparentemente distorcida está em pleno equilíbrio com minha alma.
Aproximei-me olhando-a fixamente nos olhos, geralmente os outros se assustariam. Eu não sou muito discreto quando estou numa situação assim. Na verdade me dei conta de que nunca estive numa situação como esta.
Seu olhar era entediado, ela parecia outra desiludida; se não fosse sua presença chamativa eu passaria distante dela. Sentei-me sutilmente na cadeira, esperando que ela me explicasse tudo. Que idiota.
- Então, você parece perturbado com algo. – Ela começou.
- Você.
Parecia levemente surpresa, mas se preocupou em não demonstrar.
- Eu? Que poderia fazer se mal te conheço? Somente minha presença te instiga a sofrer?
- Mais ou menos.
- Que interessante.
- Talvez.
Prossegui sendo aquele lacônico deslocado até colocar um foco nessa confusão relapsa.
Conversamos durante horas que discorriam imperceptíveis, como um sonho que nunca tive. Era tarde, fomos para sua casa. Lá, ela me levou para cama; como um jovem indefeso, cujas barreiras de vidro blindado foram estraçalhadas com um seu olhar inefável. Ela despertava paixão, ela inspirava uma ligação verdadeira.
A verdade era algo perigoso.
A verdade transcendia minha compreensão, me arrastava por caminhos nebulosos. A verdade me expunha. A verdade mostrava a mim mesmo de forma quase incompreensível. A questão era que eu mesmo não conhecia meu eu verdadeiro que se mostrava pela primeira vez; quando antes era encoberto pelas mentiras que eram vertidas em minha verdade.
Então eu me mudei. Abandonei meu apartamento pequeno e apertado, pelo menos por um tempo. A sua casa era grande, espaçosa. Eu me sentia fraco, mas à medida que eu doava parte de mim mesmo, ela retribuía dando seu coração. Ele parecia frágil, quebradiço. Eu me perguntava muitas vezes se eu poderia cuidar bem dele.
E assim como todas as jovens que me amaram com uma alma verdadeira, eu a amei com a alma que eu adquiri. Minha incessante busca de algo parecia nula, falsa, disforme comparada com toda aquela situação.
Mas o tempo passa; assim como a vida. Ela é mais curta do que sonhamos em imaginar.
A vida parecia boa.
Até que o sonho confrontou-se com o tédio.
E eu descobri que um sonho, quando se revela como um sonho, e não realidade, alguma hora vai se esvair deixando apenas memórias gastas do passado.
Talvez seja isso que eu estivesse tentando evitar. Ou talvez eu visse de longe esse tipo de situação e risse, lembrando que eu jamais poderia passar por algo assim.
Anne me contou que tinha uma filha que havia ido estudar no exterior. Emília era seu nome, e eu a veria na tarde daquele dia. Tinha 16 anos e se parecia muito com a mãe.
Então, a encontrei.
De imediato, desviei o olhar.
Eu imagino que senti vergonha.
Era algo como uma versão mais jovem de Anne, mas de longe teria a mesma mentalidade. Emília era temperamental gostava muito de se valer de sua inteligência avantajada.
Tudo o que me surpreendeu não foi Emília, nem sua beleza que me deixava estupefato; não foi também, nem de longe o futuro quebrado.
Foi a mim mesmo.
Eu não deveria me surpreender, que permaneci incondicionalmente o mesmo. A essência da minha alma é falha; ela não evolui. Se muito; quando descobre algum valor que faz com que minha alma seja preenchida, ela rapidamente volta ao seu estágio inicial. Talvez seja lá que ela deva ficar. Talvez eu goste disso.
Sim, eu gosto.
Emília parecia ter algum tipo de desprezo pela humanidade, alguma noção talvez tão distorcida quanto a minha, mas equivalente, de certa forma. Emília não era pura, mas sua presença constante que pulsava lascivamente era mais forte que a de Anne.
Então, na mesma noite, cedi aos meus desejos e à minha antiga obsessão; que agora verteu-se em algo novo, pois anulara a importância da pureza; ou talvez seja por que ela era somente a filha da única mulher que amei. Ela se tornou minha posse, e ao contrário das outras, não fez questão de se prender a mim. Parecia entender que eu era tão parecido com ela, que nós nos repeliríamos alguma hora.
Senti vergonha não por mim, mas por Anne. Então fiz minhas malas; não suportaria corromper sua vida com essa consciência tão grotesca.
Minha partida foi em silêncio, de madrugada; sem lágrimas. Até que fui acolhido novamente pela terra árida e cruel, que eu conhecia bem. Afinal, eu calhei de nascer no mundo mais desgraçado de todos (pensando na possibilidade positiva de existirem outros).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Separação

Seus cabelos longos emolduravam seu rosto pálido, sob a manhã de domingo tediosa. Haviam pessoas por todos os lados, pessoas circulando seu mundo, pessoas cuja existência ela desconhecia. Ela não se importava.
Em passos incertos, caminhava na sombra das árvores e dos prédios. Não gostava da fumaça das ruas, mas isto era terrivelmente preferível do que a sua casa habitada por estranhos domesticados.
A data era familiar. Ela teria algo para fazer; algo para concretizar. Ela estivera esperando por isso durante muito tempo; e seu coração acelerava com a idéia de poder fazer aquilo que deveria fazer; encontrar quem deveria encontrar.
Talvez...
Ela tremia e sentia a brisa leve. Estava quente. Seus olhos se fechavam aos poucos com a visão iluminada pelo sol nas ruas. Ela voltou seus olhos para o chão e sentou-se.
Tentava imaginar quem deveria encontrar. Se ela não se lembrava, não deveria ser importante. E sua face parecia tão abatida sob aquele dia inebriante; as pessoas estranhas surgiam de lugares inesperados notando a sua presença pequena, e estendiam suas mãos desconhecidas para que ela recebesse ajuda vinda de outros mundos complexos.
“Como eles poderiam me ajudar?” – Imaginava sem sequer direcionar seus olhos para a face daqueles que esqueciam de suas vidas naquele instante. Logo iam embora.
Logo iam embora.
Há algum tempo ela teria perecido na solidão. Teria ficado horrorizada com a idéia da distópica de abandonar qualquer companhia vulgar.
Contava as memórias, contava os sonhos com os dedos.
“Eu deveria encontrar alguém aqui.”
“Deveria?”
Ninguém veio. Ela não esperou ser lembrada, mas estava curiosa. Levantou-se da calçada suja. Olhou ao redor. A vida parecia tão nova, incrivelmente. Sentiu vontade de dormir, mas precisava andar; precisava andar muito mais. Caminhar sobre aquela rua esquecida e tentar lembrar do seu interior. Provavelmente mais daqueles surgiriam tentando ajudá-la, mas fez uma anotação mental de não se mostrar abatida perante os estranhos.
Eles eram insuportavelmente irrelevantes. Pareciam tão supérfluos como a sua memória que soava importante em seu âmago. Ela estava desaparecendo, mas estava feliz. “Talvez eu não me preocupe mais.”
A chuva veio. O céu escureceu e a brisa cessou. Via as crianças sorrindo e gritando, fazendo brincadeiras e encarnando a vida.
Lembrou-se da vida. Essa era uma memória tão intensa que fora encoberta por um véu sublime de decepção.
Decepção...
Quem a havia decepcionado?
Não se lembrava. Não sabia por quê parecia tão solitária, com aquele vazio incólume no seu interior. Esperava que alguém surgisse e lhe respondesse. Tinha esse direito. Alguém assumiria a culpa por isso.
Alguém. Qualquer um que pudesse gritar e provar a sua existência.
Mas ninguém veio.
Voltou seus olhos para o chão, e via as poças d’água. Caminhava olhando para seu rosto plissado pelas gotas de chuva. Via aquele rosto que não conseguia sorrir, e sentiu ódio. Andava mais rapidamente, tinha medo. Medo de ver. Chutava a água e desfigurava sua face em mil imagens disformes. Correu para algum lugar distante, antes de voltar para casa e começar tudo pelo fim.
Novamente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Poeira

Eleonora e sua bela face harmoniosa; cada contorno refletia uma irrupção de sentimentos quase resguardados, ínfimos. Perecia sob a beleza e nela se afogava nos solilóquios que corrompiam seus sonhos.
Muita música, e festa. E as pessoas todas sorriam, e as pessoas todas se lembravam. Ela queria que se lembrassem dela. Toda noite bebia uma vodka esperando alguns telefonemas. Ela era imortal, ela poderia fazer qualquer coisa; poderia julgar, dilapidar os corações de qualquer um que se deixasse hipnotizar pelo seu olhar; e seu arroubo e beleza seriam as virtudes mais glorificadas por todos que permeavam seu mundo.
E seu rosto, outrora magnífico, com o tempo se desgastava. Ela sentia que seus contornos simétricos não eram os mesmos que antes a faziam sorrir de contentamento.
Nada parecia com a mais remota idéia do que se fora.
Ah, a Eleonora que se via nos outros. Esta era mais vazia, mas ninguém poderia dizer ao certo. E com a comparação constante se afundava mais naquela Eleonora que chorava no interior. A que pertencia ao seu interior seria somente triste? Seria somente aquela que censura seus atos externos? Ela era somente a que sentia.
Ela era louca. Seus amigos a consideravam glamorosa e remotamente superficial; mas existiam aqueles que alimentavam a idéia de que suas desavenças com o mundo nada mais eram do que um reflexo da profundidade interior.
Se sentia sozinha, queria perceber o vento, a chuva. Queria sentir a vida que todos glorificam.
Queria tocar o céu.
Sim, queria.
Todos os sonhos que surgiam brotando e se arrastando, mutilando os velhos conceitos eram filhos da necessidade. Eram crias da solidão.
Mas ela era mais.
Um dia parou na porta da sua casa velha. Não realizou nem metade daquilo que planejara há muito tempo. Mal podia andar, arrastava os seus pés; e seu rosto plissado que se tornara vergonhoso para si mesma, se movimentava lentamente para ver o céu. Mas sua expressão era tão impassível que poderia refletir o que as pessoas imaginariam como o encarnamento de qualquer ou de toda idéia de paz.
Ela guardava tantas coisas. Ela fingia não se importar. Seus sentimentos eram frequentemente confundidos com nada. Ela esqueceu como demonstrar. Mas ela sentia tanto. Eleonora queria voltar a ser jovem, queria correr e apreciar a fruição da beleza.
Não, isso não importa. Queria muito mais.
Eleonora resguardava seus sonhos, como protegia o encanto fugaz há muito tempo atrás. Eleonora sabia o que queria. Sabia que tudo o que ela antes desejara parecia remotamente insignificante, quando comparado com as novas idéias que brotavam da tristeza. Ela se sentia fraca.
Queria ir para longe.
Não outro lugar, não outra terra mais verde. Não queria outros sonhos, nem queria que seus sentimentos fossem virados ao avesso.
Como a poeira que fragmenta na brisa, como as cinzas que se espalham sob o céu azul; queria ser livre.
Queria ser levada pelo vento.