quinta-feira, 29 de julho de 2010

Acordei de um sonho que se vertia em memórias belas e tristes. Eu desejei poder dormir mais um pouco naquele dia.
Oh destino, por Deus, livrai-me do fardo que esse torpor causa em mim. Como disse Rilke num fragmento de pensamento (não concluído aqui): “A carne é um fardo”, meu fardo é atemporal, é a dependência da solidão. O claustro irregular que se manifesta em meus pesadelos e em meus sonhos ébrios.
Voz trêmula de um medo que não me cabe mais. Vivo com uma consciência da qual já não posso fazer parte. E não choro. Não é que já chorei o suficiente, não é como se as lágrimas passadas fossem um pré-requisito para a situação atual. Isso tudo é ocasionado pelo torpor.
A decepção de descobrir que o que há de eterno pode se valer da fruição dos sentimentos indizíveis, e ir embora como se nada nunca sequer tivesse existido, e tudo não tivesse passado de um sonho ou um devaneio ébrio.
Sou cercada por pessoas, por oportunidades, por destinos paralelos e por promessas de felicidades duradouras, mas eu ainda não pude ser acordada.
Não há primavera, ou verão, ou sequer inverno. Minha mente fica estagnada num outono que é preenchido pelas memórias que deveriam ser destrutivas. Mas sinceramente, elas já esmaeceram com o tempo – agora resta o resquício da idealização, a subjetividade daquilo que não foi completado, o paralelo do feliz e triste. Não há felicidade ou simplesmente a sensação desprendida de nenhuma pendência com todas aquelas coisas indizíveis trazidas pelo amor. É como um sonho, um estado de coma, que me priva da tristeza, das lágrimas. Me priva da sensação da profundidade, preenchida pela dor da perda.
A ausência de sentido, a essência do abandono, do inexplicável, do indescritível e de tudo aquilo que eu já não posso esperar se tornaram um fardo.
O fardo da consciência de que a minha profundidade é preenchida por nada – por eu já não me conhecer mais como eu achava que conhecia. Por uma idealização que foi dissolvida com o vento; com as promessas do eterno corrompidas pela realidade. Oh vida impassível aos tormentos da humanidade, tens participação em algo, ou somente eu tenho culpa por manter esse resquício resguardado em meu coração? A resposta está na própria pergunta.
E é tudo tão fugaz (o próprio infinito), que o que há de eterno em mim agora, amanhã pode esmaecer e virar pó, e eu já não me reconhecerei com o tempo – ou sequer lembrarei de honrar minha solidão claustrofóbica presa na quietude desse lugar mudo.

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