sexta-feira, 30 de abril de 2010

Hoje eu estive sozinha. A companhia de outras pessoas que não te conhecem realmente não consegue suprir qualquer necessidade de ‘alguém’ por perto. Eu não estou doente, e digo isso por que os devaneios que desenvolvi hoje seriam comparados aos de um moribundo ou algo assim; eu imagino.
Eu passei boa parte do dia dormindo.
É mais ou menos assim. Como um estado de sonho, aonde eu percebia que eu afastava minha concentração daquilo que parecia insuportável pra alguma coisa no meu interior que tornava minha alma sensível naquele momento. Eu ouvia uma música triste e que parecia etérea, e ela me elevava a um estado parecido com o que eu queria sentir naquele instante. Imagino que, quando se está assim, não se quer olhar pra outro lado, nem implorar por qualquer ajuda. Não é algo ruim, aliás, apenas falo isso por que aquelas almas que habitam corpos distintos do meu, sugeririam isso. Eu só olhava para as pessoas como cascas vazias que estavam dormindo, e então quando eu fazia isso eu me sentia acordada.
Imagino que eu estava confusa.
Imagino que todas as pessoas que julgam que os seres humanos são cascas vazias estão confusas consigo mesmas.
Será que eu estaria com depressão? Essa palavra me causa ânsias. Parece algo imoral. Suscita a presença de uma pessoa miserável. A depressão não definiria o estado no qual eu estava, por que ela mesma era uma palavra com um significado errôneo para mim; talvez eu descubra o que isto significa algum dia.
Nenhuma palavra definiria o que eu senti. Talvez por que eu não queira que defina.
As palavras são grosseiras para definir qualquer coisa imaterial, eu imagino. É mais um ponto de vista extremamente particular; eu amo as palavras, elas definem isto aqui, nesse exato momento, mas são incapazes de definir a dor.
A dor pode ser insuportável.
Eu imagino que o que senti pode ser equiparado, em relação aos sentimentos que concorrem entre si, à melancolia e à dor. Ah, para mim, a dor não tem o mesmo significado que para a maioria; visto que eu raramente sinto graves dores físicas.
Parecia um buraco.
Era profundo, abarcava tudo. Abarcava o mundo e aquela que habita o meu corpo. O eu que desejava voar, conseguia gritar a plenos pulmões dentro de mim. Ele existia enquanto eu mesma dormia.
Hoje eu vi uma mulher no ônibus pedindo dinheiro. Ela não usava trapos, mas falava sobre um bebê que nasceu com defeito; eu acho. Grosseiramente falando, era isso mesmo. Então ela mostrou as marcas no seu ventre de alguma cirurgia mal-sucedida, esperando comover os outros por isso.
Eu não senti nada.
Eu devo ter perdido a minha sensibilidade ou algo assim; ou talvez isso não tenha sido profundo o suficiente para me tocar. Talvez eu seja uma pessoa fria.
Talvez eu seja uma pessoa realmente fria.
Muitas pessoas que eu conheço me acham calorosa, talvez eu seja realmente. Ninguém garante que o eu que está escrevendo isto é o mesmo eu de sempre.
Eu mudo todo dia.
Então eu percebi que eu abarco um mar de outras pessoas que se parecem bastante comigo. Elas têm os mesmos sonhos, mas agem diferente.
Às vezes mudar incomoda. Mudar a si mesma pode modificar os próprios sonhos. E aquele eu que sonhava aquele sonho que foi mudado, poderia se sentir magoado comigo mesma. Eu me sentiria afinal.
Me colocando na situação de outro alguém muito distante.
Então senti uma totalidade advinda do meu eu que se importa com isso, conseqüentemente, aquele que reflete.
Não entendo como algumas pessoas acobertam o sofrimento durante toda a vida. Elas não vão ganhar algum prêmio por isso. Não entendo como algumas pessoas dizem que gostam de sofrer.
Eu falo sem entender a totalidade do eu de ninguém.
Então isso é tudo absolutamente sobre mim; mesmo que eu fale de estranhos que nunca vi.
Talvez isso tudo seja uma mentira.

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