Vagava, sozinha, à noite. Imagino que eu deva ter tomado algo muito forte; eu não lembrava de nada da noite anterior.
Ouvia música no meu mp3 enquanto procurava cigarros no bolso, em vão. Devem ter levado, eu suponho. Então me concentrei na música que se mesclava com meu estado de espírito, ou simplesmente ajudava a construir um humor completamente distinto do anterior.
“Once in a house on a hill
A boy got angry
He broke into my heart”.
Cantarolei baixinho, enquanto procurava as chaves do meu apartamento. Com um espasmo de demência, lembrei que havia deixado-as na festa a qual eu tinha desmaiado. Ou algo assim. Ah, essa não seria uma boa noite para encontrá-lo.
Passei cinco minutos sentada na calçada, olhando para os insetos que circundavam a lâmpada do poste. A luz era fraca, diáfana, mal iluminava meu rosto entorpecido. Talvez não fosse meu rosto, somente.
Enfim.
Eu lembro de gritos, de um alarido ensurdecedor. Mas talvez fosse como qualquer outra festa. Lembro do amor. Lembro do meu próprio amor.
Engraçado, é estranho.
É um amor hermético, frívolo. Se eu não me conhecesse eu chamaria de ódio. Mas eu não planejaria tão cuidadosamente alguma situação aonde eu fosse encontrar a pessoa digna do meu repúdio; logo, concluí que era, de fato, amor.
Mas não era a hora certa, não era o tempo certo. Aliás, não só para o amor; para nada. Meu espírito deixou de ser caloroso, sua forma ígnea tomou um rumo apático e insípido, numa época que se perdeu das minhas próprias lembranças. E, ao mesmo tempo, eu estou me deixando levar pelo acontecimento da noite anterior.
Talvez eu não queira lembrar.
Eu o conheci há uma semana. Na primeira vez que o vi, constatei que o odiava. Mas pensava tanto nele que meu ódio se verteu em fraqueza. Ele me deixou entorpecida; mas de uma forma positiva, na época (há uma semana atrás). Eu soube então que ele ia para outro país; antes mesmo de descobrir que me amava.
Foi quando eu pensei que a teoria do ódio seria mais interessante. Mentir para mim mesma é uma forma bem efetiva de me fazer sentir melhor.
Então ocorreu aquela festa. Eu não vou a festas; são manifestações pérfidas da vulgaridade humana, ou algo idiota assim. Na minha rede de lógica intrínseca com meu humor, essa é a única explicação plausível para eu me abster de qualquer contato humano; embora eu saiba que eu estou mentindo para mim mesma.
Eu quase sempre sei.
Era triste lembrar dele, por que era triste lembrar que no meu sonho, ele havia me beijado.
Era triste lembrar que não foi um sonho; e ao mesmo tempo foi.
Então, uma coisa morta que se alojava no meu coração pareceu se revirar, e fazia isso de uma forma pérfida e desagradável; mas foi o suficiente para saber que isso não estava morto. Então, era real. Eu mesma era real, e o que eu sentia também. Descobri que a consciência de algo pode machucar tanto quanto uma dor física. Ou até mais.
Vaguei pela noite iluminada por postes fracos, cuja luz não consegue alcançar meu semblante choroso. Esperei que o meu torpor voltasse, mas era tarde demais; eu estava sonhando de novo.
Então segui rumo ao meu destino paradoxalmente incerto, esperando algo mais do que a pequena chave do meu apartamento.
3 comentários:
Cada vez melhor, Seph =)
Muito bom o texto. Parabéns!
Texto perfeito mami *_*
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