sábado, 20 de março de 2010

Devaneios sobre um casal (e o amor) pós-moderno

Virgínia e Emmanuel discutiam ao acaso. Estavam ocupados perdendo a consciência para lembrar de qualquer coisa importante. E aquilo que era importante se fazia claro, pulsava em suas veias, era o que estava fixo na memória e surgia involuntariamente na suas retinas. Era o ar. Era tudo.
Enquanto faziam parte do mundo, como passageiros distraídos, a distorção de seus valores era muito aparente. Um enfado advindo da vulgaridade e decepção. E a decepção era glorificada como algo que era tão real quanto suas próprias consciências. Mas eles ainda não lembravam.
As memórias foram modificadas por eles mesmos, abafadas. O ruído do trauma vem silencioso e disforme, geralmente é perturbador ao ponto de ser confundido com nada. Eles não suportavam mais se olhar. E sob esse véu escuro, morava o medo, a inconstância, o drama e a violência; e qualquer desculpa que possa firmar a individualidade de um dos dois, e não a partilha do amor.
O amor! Era aquele sentimento utópico, imaginário, talvez; mas isso somente na visão de Emmanuel. Virgínia tinha uma idéia bem diferente; parecia mais aquele sentimento bonito que pode superar qualquer coisa, manipulado pela convenção, aonde ela encontrava consolo e normalidade; “normalidade”; mas ela também estava cansada disso. Os dois tiveram juntos o prazer de conhecer o amor; mas por alguma razão, os ventos do amor trouxeram coisas demais!
Emmanuel se valia da força para consertar sua insegurança, mas ele não conseguia consertar sua mente. Em um lugar bem perto dali, vivia a mulher que esperava por ele, mergulhada no mesmo enfado que o casal vivia. Ela precisava ser ouvida, precisava de uma nova consciência, estava sozinha a tempo demais, por esperar a sua visita inconstante. Mas ela também não sabia disso. Talvez se soubesse, se esquivasse daquele homem e fugisse como o diabo da cruz, daquilo que a prendia de forma mortífera e cruel, e não ouso chamar de amor; isso seria deveras agressivo para a definição sublime que tamanho sentimento idealizado inspira nas pessoas.
Enquanto diluíam as banalidades, o ar era impregnado por algo muito ruim. Tão ruim que era perceptível para quem estivesse por perto. Seja lá o que era, talvez fosse a razão da balbúrdia, ou somente era o acaso brincando com a situação. Talvez eles mesmos contaminem o ar com tantos gritos.
Pararam, Virgínia respirou calmamente. Emmanuel tomou uma vodka, então os dois se separaram em diferentes cômodos da casa, aos seus antigos afazeres de seres humanos que conseguem se colocar em uma situação tão ridícula. O ar era pesado, mas logo esqueceram. À noite, tomados pelo enfado "fizeram amor", não exatamente amor, mas era disso que chamavam o sexo. Deitados juntos, eles imaginaram a verdade, fizeram uma auto-análise corriqueira. Ficaram com muita preguiça para pensar, muita mesmo, o sono era realmente grande; deixaram para o próximo dia que viria, assim como os tantos que se passaram. E assim a vida foi vivida naquele dia, e seria naquele próximo, mas eles não lembravam realmente, por que não se sentiam preenchidos com seu sentido. Talvez fossem procurar o amor de novo; quem poderia saber?

Um comentário:

Highlander disse...

Comentando onde se deve agora... xD
Adorei esse texto, Seph! =)