quinta-feira, 29 de julho de 2010

Acordei de um sonho que se vertia em memórias belas e tristes. Eu desejei poder dormir mais um pouco naquele dia.
Oh destino, por Deus, livrai-me do fardo que esse torpor causa em mim. Como disse Rilke num fragmento de pensamento (não concluído aqui): “A carne é um fardo”, meu fardo é atemporal, é a dependência da solidão. O claustro irregular que se manifesta em meus pesadelos e em meus sonhos ébrios.
Voz trêmula de um medo que não me cabe mais. Vivo com uma consciência da qual já não posso fazer parte. E não choro. Não é que já chorei o suficiente, não é como se as lágrimas passadas fossem um pré-requisito para a situação atual. Isso tudo é ocasionado pelo torpor.
A decepção de descobrir que o que há de eterno pode se valer da fruição dos sentimentos indizíveis, e ir embora como se nada nunca sequer tivesse existido, e tudo não tivesse passado de um sonho ou um devaneio ébrio.
Sou cercada por pessoas, por oportunidades, por destinos paralelos e por promessas de felicidades duradouras, mas eu ainda não pude ser acordada.
Não há primavera, ou verão, ou sequer inverno. Minha mente fica estagnada num outono que é preenchido pelas memórias que deveriam ser destrutivas. Mas sinceramente, elas já esmaeceram com o tempo – agora resta o resquício da idealização, a subjetividade daquilo que não foi completado, o paralelo do feliz e triste. Não há felicidade ou simplesmente a sensação desprendida de nenhuma pendência com todas aquelas coisas indizíveis trazidas pelo amor. É como um sonho, um estado de coma, que me priva da tristeza, das lágrimas. Me priva da sensação da profundidade, preenchida pela dor da perda.
A ausência de sentido, a essência do abandono, do inexplicável, do indescritível e de tudo aquilo que eu já não posso esperar se tornaram um fardo.
O fardo da consciência de que a minha profundidade é preenchida por nada – por eu já não me conhecer mais como eu achava que conhecia. Por uma idealização que foi dissolvida com o vento; com as promessas do eterno corrompidas pela realidade. Oh vida impassível aos tormentos da humanidade, tens participação em algo, ou somente eu tenho culpa por manter esse resquício resguardado em meu coração? A resposta está na própria pergunta.
E é tudo tão fugaz (o próprio infinito), que o que há de eterno em mim agora, amanhã pode esmaecer e virar pó, e eu já não me reconhecerei com o tempo – ou sequer lembrarei de honrar minha solidão claustrofóbica presa na quietude desse lugar mudo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Eu desviava dos meus sonhos, arremessava negligentemente em sofismas o céu que eu havia construído. E tomei por irreal minha felicidade.
Ela estava ali, me abraçava, tolhia a dor, sugava o veneno que corria em minhas veias. O veneno da serpente que prendia meu calcanhar quando eu tentava alcançar o céu.
A morte se apoderou de mim mais uma vez; e cá estou, desfrutando do paradoxo da irrealidade.
A morte significa o fim para muitos, mas minha morte foi rápida, quase indolor. Houveram algumas lágrimas por lamentar que eu mesma estava morta, mas quando nos acostumamos à sua efêmera presença, ela nos acolhe com sua bênção atemporal. O ceifeiro pareceu feliz ao me ver, sorriu quando sussurrou em meus ouvidos (ela (a morte) não era uma presença física, mas um eco que se projetava em minha mente, e falava de modo perceptível tal qual um suspiro dado pelo vento): “Seus sonhos estão mesmo no altar aonde você os deixou”.
Foi o símbolo que me coube esta noite.
Morta? Fragmentada. A felicidade nada mais é do que fragmentos que dão espasmos de motivação à grande lacuna do absurdo, que é a vida. Temo-a, pois não a posso prever, ou julgar, mas assim o faço! Vulgarmente falando. A felicidade nos subjuga, nos comanda, é tirana! Arranca tudo de nós para que possamos beber algumas gotas da sua escassa fonte que é intrínseca com o incansável.
Mas isto são só devaneios que minha tristeza me contou. Durante um tempo incerto eu concordei com ela. De vez em quando ainda concordo; minto para mim mesma, crio o simulacro da contradição; e é lá aonde meu coração nômade se instala.
Então foi em um dos momentos no qual perniciosamente acobertei minha verdade, que ela, por sua vez, verteu-se em minha morte!
Ela é simples. A felicidade pode mesclar-se com o amor. A felicidade pode mesclar-se com algo doloroso. Outro paradoxo.
A mim cabe a dor e a felicidade. A dor que é necessária, a minha amável dor, a dor que representa minha profundidade, sem a qual eu perderia o sentido da minha minúscula vida. Minha profundidade tem muitos símbolos, poucos que eu mesma identifiquei. Minha profundidade talvez seja a incompreensão do meu espírito.
E eis que surge o eco do conselho da morte; a felicidade. Ela esteve esperando, rindo por eu sempre correr ociosa e desviar, rejeitar sutilmente sua afeição; cair no sono profundo do tédio, encantada pela beleza devastadora da melancolia. Eu sempre estive entorpecida enquanto havia um fogo distópico enegrecido sob meus pés, sob meu calcanhar envenenado.
E com amor construí minhas asas. Espero que elas gentilmente sejam grandes o suficiente para me elevarem; levando em conta seu temperamento retraído; e não as culpo, o mundo as condena ao passo que condena a si próprio.
É tudo o que sonhei. E obrigada à morte por espantar o sono ébrio e encantador da melancolia, e por me lembrar gentilmente da vida que me foi dada.

domingo, 23 de maio de 2010

Chave

Vagava, sozinha, à noite. Imagino que eu deva ter tomado algo muito forte; eu não lembrava de nada da noite anterior.
Ouvia música no meu mp3 enquanto procurava cigarros no bolso, em vão. Devem ter levado, eu suponho. Então me concentrei na música que se mesclava com meu estado de espírito, ou simplesmente ajudava a construir um humor completamente distinto do anterior.

Once in a house on a hill
A boy got angry
He broke into my heart”.

Cantarolei baixinho, enquanto procurava as chaves do meu apartamento. Com um espasmo de demência, lembrei que havia deixado-as na festa a qual eu tinha desmaiado. Ou algo assim. Ah, essa não seria uma boa noite para encontrá-lo.
Passei cinco minutos sentada na calçada, olhando para os insetos que circundavam a lâmpada do poste. A luz era fraca, diáfana, mal iluminava meu rosto entorpecido. Talvez não fosse meu rosto, somente.
Enfim.
Eu lembro de gritos, de um alarido ensurdecedor. Mas talvez fosse como qualquer outra festa. Lembro do amor. Lembro do meu próprio amor.
Engraçado, é estranho.
É um amor hermético, frívolo. Se eu não me conhecesse eu chamaria de ódio. Mas eu não planejaria tão cuidadosamente alguma situação aonde eu fosse encontrar a pessoa digna do meu repúdio; logo, concluí que era, de fato, amor.
Mas não era a hora certa, não era o tempo certo. Aliás, não só para o amor; para nada. Meu espírito deixou de ser caloroso, sua forma ígnea tomou um rumo apático e insípido, numa época que se perdeu das minhas próprias lembranças. E, ao mesmo tempo, eu estou me deixando levar pelo acontecimento da noite anterior.
Talvez eu não queira lembrar.
Eu o conheci há uma semana. Na primeira vez que o vi, constatei que o odiava. Mas pensava tanto nele que meu ódio se verteu em fraqueza. Ele me deixou entorpecida; mas de uma forma positiva, na época (há uma semana atrás). Eu soube então que ele ia para outro país; antes mesmo de descobrir que me amava.
Foi quando eu pensei que a teoria do ódio seria mais interessante. Mentir para mim mesma é uma forma bem efetiva de me fazer sentir melhor.
Então ocorreu aquela festa. Eu não vou a festas; são manifestações pérfidas da vulgaridade humana, ou algo idiota assim. Na minha rede de lógica intrínseca com meu humor, essa é a única explicação plausível para eu me abster de qualquer contato humano; embora eu saiba que eu estou mentindo para mim mesma.
Eu quase sempre sei.
Era triste lembrar dele, por que era triste lembrar que no meu sonho, ele havia me beijado.
Era triste lembrar que não foi um sonho; e ao mesmo tempo foi.
Então, uma coisa morta que se alojava no meu coração pareceu se revirar, e fazia isso de uma forma pérfida e desagradável; mas foi o suficiente para saber que isso não estava morto. Então, era real. Eu mesma era real, e o que eu sentia também. Descobri que a consciência de algo pode machucar tanto quanto uma dor física. Ou até mais.
Vaguei pela noite iluminada por postes fracos, cuja luz não consegue alcançar meu semblante choroso. Esperei que o meu torpor voltasse, mas era tarde demais; eu estava sonhando de novo.
Então segui rumo ao meu destino paradoxalmente incerto, esperando algo mais do que a pequena chave do meu apartamento.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Hoje eu estive sozinha. A companhia de outras pessoas que não te conhecem realmente não consegue suprir qualquer necessidade de ‘alguém’ por perto. Eu não estou doente, e digo isso por que os devaneios que desenvolvi hoje seriam comparados aos de um moribundo ou algo assim; eu imagino.
Eu passei boa parte do dia dormindo.
É mais ou menos assim. Como um estado de sonho, aonde eu percebia que eu afastava minha concentração daquilo que parecia insuportável pra alguma coisa no meu interior que tornava minha alma sensível naquele momento. Eu ouvia uma música triste e que parecia etérea, e ela me elevava a um estado parecido com o que eu queria sentir naquele instante. Imagino que, quando se está assim, não se quer olhar pra outro lado, nem implorar por qualquer ajuda. Não é algo ruim, aliás, apenas falo isso por que aquelas almas que habitam corpos distintos do meu, sugeririam isso. Eu só olhava para as pessoas como cascas vazias que estavam dormindo, e então quando eu fazia isso eu me sentia acordada.
Imagino que eu estava confusa.
Imagino que todas as pessoas que julgam que os seres humanos são cascas vazias estão confusas consigo mesmas.
Será que eu estaria com depressão? Essa palavra me causa ânsias. Parece algo imoral. Suscita a presença de uma pessoa miserável. A depressão não definiria o estado no qual eu estava, por que ela mesma era uma palavra com um significado errôneo para mim; talvez eu descubra o que isto significa algum dia.
Nenhuma palavra definiria o que eu senti. Talvez por que eu não queira que defina.
As palavras são grosseiras para definir qualquer coisa imaterial, eu imagino. É mais um ponto de vista extremamente particular; eu amo as palavras, elas definem isto aqui, nesse exato momento, mas são incapazes de definir a dor.
A dor pode ser insuportável.
Eu imagino que o que senti pode ser equiparado, em relação aos sentimentos que concorrem entre si, à melancolia e à dor. Ah, para mim, a dor não tem o mesmo significado que para a maioria; visto que eu raramente sinto graves dores físicas.
Parecia um buraco.
Era profundo, abarcava tudo. Abarcava o mundo e aquela que habita o meu corpo. O eu que desejava voar, conseguia gritar a plenos pulmões dentro de mim. Ele existia enquanto eu mesma dormia.
Hoje eu vi uma mulher no ônibus pedindo dinheiro. Ela não usava trapos, mas falava sobre um bebê que nasceu com defeito; eu acho. Grosseiramente falando, era isso mesmo. Então ela mostrou as marcas no seu ventre de alguma cirurgia mal-sucedida, esperando comover os outros por isso.
Eu não senti nada.
Eu devo ter perdido a minha sensibilidade ou algo assim; ou talvez isso não tenha sido profundo o suficiente para me tocar. Talvez eu seja uma pessoa fria.
Talvez eu seja uma pessoa realmente fria.
Muitas pessoas que eu conheço me acham calorosa, talvez eu seja realmente. Ninguém garante que o eu que está escrevendo isto é o mesmo eu de sempre.
Eu mudo todo dia.
Então eu percebi que eu abarco um mar de outras pessoas que se parecem bastante comigo. Elas têm os mesmos sonhos, mas agem diferente.
Às vezes mudar incomoda. Mudar a si mesma pode modificar os próprios sonhos. E aquele eu que sonhava aquele sonho que foi mudado, poderia se sentir magoado comigo mesma. Eu me sentiria afinal.
Me colocando na situação de outro alguém muito distante.
Então senti uma totalidade advinda do meu eu que se importa com isso, conseqüentemente, aquele que reflete.
Não entendo como algumas pessoas acobertam o sofrimento durante toda a vida. Elas não vão ganhar algum prêmio por isso. Não entendo como algumas pessoas dizem que gostam de sofrer.
Eu falo sem entender a totalidade do eu de ninguém.
Então isso é tudo absolutamente sobre mim; mesmo que eu fale de estranhos que nunca vi.
Talvez isso tudo seja uma mentira.

domingo, 4 de abril de 2010

Visita

Eu estava sentada do sofá, vendo na televisão o mísero alicerce da juventude fracassada. Deve ser algum tipo de comodismo de uma pessoa inconscientemente inepta a suprir qualquer uma dessas necessidades do mundo. Eu imagino.
Ou então eu estava sendo somente eu. Somente.
A comida tinha acabado, devia comprar algo pronto para fazer depois (ou contratar os serviços de uma empregada; o que seria impossível devido às minhas precárias condições financeiras atuais). Havia pegado um copo de vodka quando percebi que estava de reabilitação. Ah é, sempre tem dessas. Eu presumo que eu comprei a vodka pensando num momento de extrema necessidade, para me provar; ou para tomar casualmente. É... E foi exatamente para isso.
Então eu tomei.
Estava esperando uma visita.
Há muito tempo eles não vêm. Geralmente são cobradores, testemunhos de Jeová. Não que eu me importe; se conseguissem me converter estariam me fazendo um favor. Eu imagino que seria preferível viver uma vida alienada me misturando com pessoas da minha fé do que enfiada num claustro involuntário escuro (não menos alienada)... E sem comida ainda.
Mas eu vou receber uma visita... Ah sim.
Perscrutei as gavetas procurando algo limpo. Nenhuma das minhas roupas parecia exatamente apresentável, mas tentei colocar um vestido simples e xadrez que minha tia me enviou de natal. Considerando as outras possibilidades (e a minha visita) estava de bom tamanho.
Não que eu estivesse ansiosa. Não pense nisso mein freund, mas passou perto (meu orgulho se recusa a admitir qualquer coisa relacionada a isso). O que deveria ser perto de ansioso? Não vou me aprofundar muito, mas meu velho amigo da faculdade virá me visitar. Muitos anos que não o vejo; e nunca fomos algum tipo de namorados modernos presos na pungente realidade do desapego iminente e superficial; e nunca tivemos qualquer tipo de relação casual. Éramos só amigos.
Eu esperava ele sair, então passávamos o dia juntos. Ele me fazia rir bastante. Acho que eu não deveria um senso de humor muito apurado naquela época; ou ele só se desenvolveu com meu humor-negro distópico de agora... Enfim. Deveriam ser bons tempos. São as únicas memórias que eu ainda não bloqueei, então, por Deus, que venha! Que destrua todas as minhas lembranças sagradas, com a realidade dispersa no meu mundo. Atinja a parede passiva da minha mente inócua, e assim eu poderei dormir em paz. Não posso viver de idealizações; nem de sonhos.
Sentei no meu sofá velho; esperando que alguém me batesse com força e eu desmaiasse. Esperei por mais de duas horas; até que minha última memória parecia ter sido fragmentada em mil pedacinhos disformes, na minha alma vasta, muito vasta; porém oca. Somente.
Ouvi um barulho baixinho vindo da porta. Eram batidinhas que pareciam ser de uma criança perdida ou algo assim. Então abri sorrateiramente. Foi quando o vi.
Estava tão diferente, entretanto, mal tive tempo para reparar nisso. Ele me abraçou em prantos e soluços cansados. Não reagi da forma que eu queria, somente fiquei estática; esperando pelas suas primeiras palavras depois de muito tempo. O mundo teria parado, talvez se distanciado de mim e me dado adeus naquele minuto, mas eu não me importava tanto. Possivelmente, em algum lugar muito afastado e inconsciente de toda aquela situação, para ambos, o mundo não seria tão vasto como nós mesmos.
Talvez isso fosse o amor. Mas logo afastei o pensamento para reparar no foco atual da minha mente. Então percebi que estava reparando nele durante longos anos.

sábado, 20 de março de 2010

Devaneios sobre um casal (e o amor) pós-moderno

Virgínia e Emmanuel discutiam ao acaso. Estavam ocupados perdendo a consciência para lembrar de qualquer coisa importante. E aquilo que era importante se fazia claro, pulsava em suas veias, era o que estava fixo na memória e surgia involuntariamente na suas retinas. Era o ar. Era tudo.
Enquanto faziam parte do mundo, como passageiros distraídos, a distorção de seus valores era muito aparente. Um enfado advindo da vulgaridade e decepção. E a decepção era glorificada como algo que era tão real quanto suas próprias consciências. Mas eles ainda não lembravam.
As memórias foram modificadas por eles mesmos, abafadas. O ruído do trauma vem silencioso e disforme, geralmente é perturbador ao ponto de ser confundido com nada. Eles não suportavam mais se olhar. E sob esse véu escuro, morava o medo, a inconstância, o drama e a violência; e qualquer desculpa que possa firmar a individualidade de um dos dois, e não a partilha do amor.
O amor! Era aquele sentimento utópico, imaginário, talvez; mas isso somente na visão de Emmanuel. Virgínia tinha uma idéia bem diferente; parecia mais aquele sentimento bonito que pode superar qualquer coisa, manipulado pela convenção, aonde ela encontrava consolo e normalidade; “normalidade”; mas ela também estava cansada disso. Os dois tiveram juntos o prazer de conhecer o amor; mas por alguma razão, os ventos do amor trouxeram coisas demais!
Emmanuel se valia da força para consertar sua insegurança, mas ele não conseguia consertar sua mente. Em um lugar bem perto dali, vivia a mulher que esperava por ele, mergulhada no mesmo enfado que o casal vivia. Ela precisava ser ouvida, precisava de uma nova consciência, estava sozinha a tempo demais, por esperar a sua visita inconstante. Mas ela também não sabia disso. Talvez se soubesse, se esquivasse daquele homem e fugisse como o diabo da cruz, daquilo que a prendia de forma mortífera e cruel, e não ouso chamar de amor; isso seria deveras agressivo para a definição sublime que tamanho sentimento idealizado inspira nas pessoas.
Enquanto diluíam as banalidades, o ar era impregnado por algo muito ruim. Tão ruim que era perceptível para quem estivesse por perto. Seja lá o que era, talvez fosse a razão da balbúrdia, ou somente era o acaso brincando com a situação. Talvez eles mesmos contaminem o ar com tantos gritos.
Pararam, Virgínia respirou calmamente. Emmanuel tomou uma vodka, então os dois se separaram em diferentes cômodos da casa, aos seus antigos afazeres de seres humanos que conseguem se colocar em uma situação tão ridícula. O ar era pesado, mas logo esqueceram. À noite, tomados pelo enfado "fizeram amor", não exatamente amor, mas era disso que chamavam o sexo. Deitados juntos, eles imaginaram a verdade, fizeram uma auto-análise corriqueira. Ficaram com muita preguiça para pensar, muita mesmo, o sono era realmente grande; deixaram para o próximo dia que viria, assim como os tantos que se passaram. E assim a vida foi vivida naquele dia, e seria naquele próximo, mas eles não lembravam realmente, por que não se sentiam preenchidos com seu sentido. Talvez fossem procurar o amor de novo; quem poderia saber?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tédio

Era uma madrugada muito fria; eu acordei repentinamente com a música vulgar de uma boate qualquer. Procurei pelos analgésicos do meu bolso, mas eles haviam sumido. Ali não havia nada que me interessasse.
A jovem que dormia na minha cama parecia sonhar com uma vida feliz.
Era outra situação aonde eu me sentia estúpido. Ela provavelmente queria que eu me apresentasse para sua família como “um homem de verdade” que estava ao seu lado para apoia-la e protege-la de suas decisões cruéis e tiranas. Deveria ser algum tipo de crise adolescente, eu imagino. Sempre os pais, ou alguma situação leviana que se mostraria no final como algo maléfico que devora a sua alma e te faz se cortar de desespero. Seria; se não fosse estúpida.
Desci as escadas devagar, esperando que não a acordasse. Seus sonhos seriam destruídos fatalmente alguma hora, ela não deveria esperar nada demais, não deveria sequer idealizar algo. Idealizações são perigosas; afinal, ela calhou de nascer no mundo mais desgraçado de todos (pensando na possibilidade positiva de existirem outros).
Acendi um cigarro e coloquei a outra mão no bolso. Estava muito frio pra sair, mas eu não tinha muitas opções. Aquele rosto bonito era vazio e simplório e não significava nada para mim. Se é que algum dia algo já significou.
Não não, não sou tão desgraçado assim. Bom, as mocinhas que saem comigo possuem muitos motivos para me odiarem. Eu me odiaria se fosse elas. Mas não me acho tão mau assim. Quer dizer, eu ainda tenho pena delas às vezes; então deve significar que eu tenho sentimentos.
Eu costumo imaginar que eu coleciono a beleza. Eu não sou do tipo que se prende ao plano espiritual da coisa; mas a questão é que eu gosto de tornar meu aquilo que consegue me surpreender por algum tipo de presença exótica. Ultimamente jovens moças têm se tornado meu prazeroso passatempo. Eu visualizo uma pureza oculta, marcada por alguma imperfeição; uma tristeza que se esconde num rosto tímido. Uma mente insegura que se força a mostrar-se ao mundo com todos os seus medos. Eu estou lá para elas; enquanto elas choram nos meus braços, ou quando sorriem para mim imaginando que de alguma forma inverossímil sua beleza me prendeu, de forma que eu fizesse todas as suas vontades através do imaginário amor verdadeiro. Elas começam a se tornar minhas posses.
Então o primeiro laço de confiança se torna mais profundo, cruel; manipulativo. Geralmente na primeira noite nós vamos para cama e elas não têm sequer uma reação negativa com a minha proposta. Mas no fundo elas sabem; ou apenas as mais observadoras abafam o ruído incessante dos seus instintos que as alardeiam com minha presença. Sabem que meu sorriso simples é tão vazio quanto minha alma oca, que procura um mero entreterimento para suprir o tédio.
O tédio.
Meu tédio vem desde minha infância. Não me interessava em matar animaizinhos como aquelas crianças brilhantes e deslocadas, que os outros costumam chamar de psicopatas. Talvez eu preferisse manipular os outros ao meu bel-prazer, para enfim ver o meu mundo girando da forma grandiosa para suprir a falta de sentido da minha existência. Mas a vida pode ser tão bela, tão cálida e gentil.
É o que dizem.
Até que numa noite com aquelas pessoas que parecem tão iguais como todas as noites, eu vi a singularidade que se assemelhava ao que eu só imaginava como eu mesmo.
Seria uma semelhante? Sua alma e a minha estariam interligadas de alguma forma mística e reveladora? Possivelmente não; provavelmente eu a olharia com desprezo depois do primeiro contato significativo, que não fossem os olhares de atração. Só pelo fato crucial que predominava na minha mente e que instigava meu repúdio incontrolável e que ao mesmo tempo lutava bravamente com o sentimento de ligação, o olhar, a presença lasciva...
Ela era muito velha.
Trinta ou quarenta, não importa. Eu sei que a maioria das pessoas se prende firmemente com todas as suas almas simplórias com a mera possibilidade de encontrar um amor verdadeiro; elas não se importariam com isso tanto assim. Elas.
Minha obsessão vem da consciência nova, da insegurança. Da beleza angelical moldada pela pureza da juventude. Juventude. As pessoas normais me repudiariam por tamanho absurdo! Sim, eu sei, mas minha noção aparentemente distorcida está em pleno equilíbrio com minha alma.
Aproximei-me olhando-a fixamente nos olhos, geralmente os outros se assustariam. Eu não sou muito discreto quando estou numa situação assim. Na verdade me dei conta de que nunca estive numa situação como esta.
Seu olhar era entediado, ela parecia outra desiludida; se não fosse sua presença chamativa eu passaria distante dela. Sentei-me sutilmente na cadeira, esperando que ela me explicasse tudo. Que idiota.
- Então, você parece perturbado com algo. – Ela começou.
- Você.
Parecia levemente surpresa, mas se preocupou em não demonstrar.
- Eu? Que poderia fazer se mal te conheço? Somente minha presença te instiga a sofrer?
- Mais ou menos.
- Que interessante.
- Talvez.
Prossegui sendo aquele lacônico deslocado até colocar um foco nessa confusão relapsa.
Conversamos durante horas que discorriam imperceptíveis, como um sonho que nunca tive. Era tarde, fomos para sua casa. Lá, ela me levou para cama; como um jovem indefeso, cujas barreiras de vidro blindado foram estraçalhadas com um seu olhar inefável. Ela despertava paixão, ela inspirava uma ligação verdadeira.
A verdade era algo perigoso.
A verdade transcendia minha compreensão, me arrastava por caminhos nebulosos. A verdade me expunha. A verdade mostrava a mim mesmo de forma quase incompreensível. A questão era que eu mesmo não conhecia meu eu verdadeiro que se mostrava pela primeira vez; quando antes era encoberto pelas mentiras que eram vertidas em minha verdade.
Então eu me mudei. Abandonei meu apartamento pequeno e apertado, pelo menos por um tempo. A sua casa era grande, espaçosa. Eu me sentia fraco, mas à medida que eu doava parte de mim mesmo, ela retribuía dando seu coração. Ele parecia frágil, quebradiço. Eu me perguntava muitas vezes se eu poderia cuidar bem dele.
E assim como todas as jovens que me amaram com uma alma verdadeira, eu a amei com a alma que eu adquiri. Minha incessante busca de algo parecia nula, falsa, disforme comparada com toda aquela situação.
Mas o tempo passa; assim como a vida. Ela é mais curta do que sonhamos em imaginar.
A vida parecia boa.
Até que o sonho confrontou-se com o tédio.
E eu descobri que um sonho, quando se revela como um sonho, e não realidade, alguma hora vai se esvair deixando apenas memórias gastas do passado.
Talvez seja isso que eu estivesse tentando evitar. Ou talvez eu visse de longe esse tipo de situação e risse, lembrando que eu jamais poderia passar por algo assim.
Anne me contou que tinha uma filha que havia ido estudar no exterior. Emília era seu nome, e eu a veria na tarde daquele dia. Tinha 16 anos e se parecia muito com a mãe.
Então, a encontrei.
De imediato, desviei o olhar.
Eu imagino que senti vergonha.
Era algo como uma versão mais jovem de Anne, mas de longe teria a mesma mentalidade. Emília era temperamental gostava muito de se valer de sua inteligência avantajada.
Tudo o que me surpreendeu não foi Emília, nem sua beleza que me deixava estupefato; não foi também, nem de longe o futuro quebrado.
Foi a mim mesmo.
Eu não deveria me surpreender, que permaneci incondicionalmente o mesmo. A essência da minha alma é falha; ela não evolui. Se muito; quando descobre algum valor que faz com que minha alma seja preenchida, ela rapidamente volta ao seu estágio inicial. Talvez seja lá que ela deva ficar. Talvez eu goste disso.
Sim, eu gosto.
Emília parecia ter algum tipo de desprezo pela humanidade, alguma noção talvez tão distorcida quanto a minha, mas equivalente, de certa forma. Emília não era pura, mas sua presença constante que pulsava lascivamente era mais forte que a de Anne.
Então, na mesma noite, cedi aos meus desejos e à minha antiga obsessão; que agora verteu-se em algo novo, pois anulara a importância da pureza; ou talvez seja por que ela era somente a filha da única mulher que amei. Ela se tornou minha posse, e ao contrário das outras, não fez questão de se prender a mim. Parecia entender que eu era tão parecido com ela, que nós nos repeliríamos alguma hora.
Senti vergonha não por mim, mas por Anne. Então fiz minhas malas; não suportaria corromper sua vida com essa consciência tão grotesca.
Minha partida foi em silêncio, de madrugada; sem lágrimas. Até que fui acolhido novamente pela terra árida e cruel, que eu conhecia bem. Afinal, eu calhei de nascer no mundo mais desgraçado de todos (pensando na possibilidade positiva de existirem outros).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Separação

Seus cabelos longos emolduravam seu rosto pálido, sob a manhã de domingo tediosa. Haviam pessoas por todos os lados, pessoas circulando seu mundo, pessoas cuja existência ela desconhecia. Ela não se importava.
Em passos incertos, caminhava na sombra das árvores e dos prédios. Não gostava da fumaça das ruas, mas isto era terrivelmente preferível do que a sua casa habitada por estranhos domesticados.
A data era familiar. Ela teria algo para fazer; algo para concretizar. Ela estivera esperando por isso durante muito tempo; e seu coração acelerava com a idéia de poder fazer aquilo que deveria fazer; encontrar quem deveria encontrar.
Talvez...
Ela tremia e sentia a brisa leve. Estava quente. Seus olhos se fechavam aos poucos com a visão iluminada pelo sol nas ruas. Ela voltou seus olhos para o chão e sentou-se.
Tentava imaginar quem deveria encontrar. Se ela não se lembrava, não deveria ser importante. E sua face parecia tão abatida sob aquele dia inebriante; as pessoas estranhas surgiam de lugares inesperados notando a sua presença pequena, e estendiam suas mãos desconhecidas para que ela recebesse ajuda vinda de outros mundos complexos.
“Como eles poderiam me ajudar?” – Imaginava sem sequer direcionar seus olhos para a face daqueles que esqueciam de suas vidas naquele instante. Logo iam embora.
Logo iam embora.
Há algum tempo ela teria perecido na solidão. Teria ficado horrorizada com a idéia da distópica de abandonar qualquer companhia vulgar.
Contava as memórias, contava os sonhos com os dedos.
“Eu deveria encontrar alguém aqui.”
“Deveria?”
Ninguém veio. Ela não esperou ser lembrada, mas estava curiosa. Levantou-se da calçada suja. Olhou ao redor. A vida parecia tão nova, incrivelmente. Sentiu vontade de dormir, mas precisava andar; precisava andar muito mais. Caminhar sobre aquela rua esquecida e tentar lembrar do seu interior. Provavelmente mais daqueles surgiriam tentando ajudá-la, mas fez uma anotação mental de não se mostrar abatida perante os estranhos.
Eles eram insuportavelmente irrelevantes. Pareciam tão supérfluos como a sua memória que soava importante em seu âmago. Ela estava desaparecendo, mas estava feliz. “Talvez eu não me preocupe mais.”
A chuva veio. O céu escureceu e a brisa cessou. Via as crianças sorrindo e gritando, fazendo brincadeiras e encarnando a vida.
Lembrou-se da vida. Essa era uma memória tão intensa que fora encoberta por um véu sublime de decepção.
Decepção...
Quem a havia decepcionado?
Não se lembrava. Não sabia por quê parecia tão solitária, com aquele vazio incólume no seu interior. Esperava que alguém surgisse e lhe respondesse. Tinha esse direito. Alguém assumiria a culpa por isso.
Alguém. Qualquer um que pudesse gritar e provar a sua existência.
Mas ninguém veio.
Voltou seus olhos para o chão, e via as poças d’água. Caminhava olhando para seu rosto plissado pelas gotas de chuva. Via aquele rosto que não conseguia sorrir, e sentiu ódio. Andava mais rapidamente, tinha medo. Medo de ver. Chutava a água e desfigurava sua face em mil imagens disformes. Correu para algum lugar distante, antes de voltar para casa e começar tudo pelo fim.
Novamente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Poeira

Eleonora e sua bela face harmoniosa; cada contorno refletia uma irrupção de sentimentos quase resguardados, ínfimos. Perecia sob a beleza e nela se afogava nos solilóquios que corrompiam seus sonhos.
Muita música, e festa. E as pessoas todas sorriam, e as pessoas todas se lembravam. Ela queria que se lembrassem dela. Toda noite bebia uma vodka esperando alguns telefonemas. Ela era imortal, ela poderia fazer qualquer coisa; poderia julgar, dilapidar os corações de qualquer um que se deixasse hipnotizar pelo seu olhar; e seu arroubo e beleza seriam as virtudes mais glorificadas por todos que permeavam seu mundo.
E seu rosto, outrora magnífico, com o tempo se desgastava. Ela sentia que seus contornos simétricos não eram os mesmos que antes a faziam sorrir de contentamento.
Nada parecia com a mais remota idéia do que se fora.
Ah, a Eleonora que se via nos outros. Esta era mais vazia, mas ninguém poderia dizer ao certo. E com a comparação constante se afundava mais naquela Eleonora que chorava no interior. A que pertencia ao seu interior seria somente triste? Seria somente aquela que censura seus atos externos? Ela era somente a que sentia.
Ela era louca. Seus amigos a consideravam glamorosa e remotamente superficial; mas existiam aqueles que alimentavam a idéia de que suas desavenças com o mundo nada mais eram do que um reflexo da profundidade interior.
Se sentia sozinha, queria perceber o vento, a chuva. Queria sentir a vida que todos glorificam.
Queria tocar o céu.
Sim, queria.
Todos os sonhos que surgiam brotando e se arrastando, mutilando os velhos conceitos eram filhos da necessidade. Eram crias da solidão.
Mas ela era mais.
Um dia parou na porta da sua casa velha. Não realizou nem metade daquilo que planejara há muito tempo. Mal podia andar, arrastava os seus pés; e seu rosto plissado que se tornara vergonhoso para si mesma, se movimentava lentamente para ver o céu. Mas sua expressão era tão impassível que poderia refletir o que as pessoas imaginariam como o encarnamento de qualquer ou de toda idéia de paz.
Ela guardava tantas coisas. Ela fingia não se importar. Seus sentimentos eram frequentemente confundidos com nada. Ela esqueceu como demonstrar. Mas ela sentia tanto. Eleonora queria voltar a ser jovem, queria correr e apreciar a fruição da beleza.
Não, isso não importa. Queria muito mais.
Eleonora resguardava seus sonhos, como protegia o encanto fugaz há muito tempo atrás. Eleonora sabia o que queria. Sabia que tudo o que ela antes desejara parecia remotamente insignificante, quando comparado com as novas idéias que brotavam da tristeza. Ela se sentia fraca.
Queria ir para longe.
Não outro lugar, não outra terra mais verde. Não queria outros sonhos, nem queria que seus sentimentos fossem virados ao avesso.
Como a poeira que fragmenta na brisa, como as cinzas que se espalham sob o céu azul; queria ser livre.
Queria ser levada pelo vento.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Calmaria

As lágrimas, o encanto inacabado... A beleza que se desfez como fumaça. De uma profundidade duvidosa, as sensações eram tudo o que você tinha.
“E os sonhos permanecem os mesmos, afinal. No mesmo ciclo de incertezas, mesmo que a beleza acabe... Eu via situações em que a vida sempre foi mais do que se esperava. Triste, maravilhosa; eu nunca soube o quanto isso poderia me fazer perceber a verdade. Eu deveria ter percebido, eu deveria...”
Mas você sempre percebeu; você apenas desejava estar errada por um momento, mas nada te fazia desistir.
“Eu nunca imaginei...”
Você sempre soube... Então por que chora?
Pela esperança que você sempre teve? Pela vontade de que houvesse algo imprevisível, alguma situação, como as histórias inverossímeis que te faziam apenas acreditar, só por acreditar? É pelo fruto da insatisfação com a instabilidade dos momentos vagos e esquecidos por todos?
Por que... Você chora?
“Eu não sei...”

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pedra

O vento sopra, a pedra permanece a mesma. Hermética e de inexistência praticamente e quase tragicamente confirmada pela falta de qualquer um que reconheça sua existência. Ela é distante, ela não se move... O vento se vai por um, dentre vários infinitos, enquanto ela jaz só. Qualquer.
De olhos fechados, eu tento esvaziar qualquer pensamento indesejado, solitário, e que se torna absoluto em uma fração de segundos, dominando a minha mente de forma irrestrita.
Os barulhos da rua interrompem meu transe, e eu pouso meus olhos no chão; assim vou captando a linha de raciocínio que se sobrepôs a um leve torpor, causado pela minha inércia prolongada.
Mas o sono não vem...
Somente a confusão interior se estende rápida, incômoda. Nada é tão facilmente descritível... Somente a sensação de que não há nada. Não uma perda; não um tempo passado; não a ausência do pilar principal após qualquer período de uma fruição quase complacente de qualquer coisa boa num passado longínquo. Apenas nunca houve. As memórias são distantes, remotas, como um breve período após acordar de um sonho, aonde eu percebo o quão inverossímeis eram as coisas que sonhei.
O vento abre uma das minhas janelas; sempre fechadas (o que não é algo saudável, devido à fumaça constante dos cigarros). Faz-me lembrar de tempos bons, da juventude. A sensação agradável me faz lembrar... Apenas lembrar. O que algo intransigível e precioso, comparado com o fato de que um vazio se arraigava por toda a minha mente, me fazendo afastar todas as memórias; ou fazendo-as equipararem-se a um sonho. Ainda está lá, instalado; algo de anos a fio. Mas por um momento eu esqueço das coisas ruins.
Fecho a janela; o barulho se propagou de novo. Fecho meus olhos e permaneço no meu interior. Minutos depois o vento toca meu rosto novamente; complacente, fugaz, efêmero; porém, cansada demais para abrir os olhos, eu apenas sinto que qualquer coisa está me deixando aqui... Ou talvez seja apenas eu, me distanciando de qualquer coisa.

sábado, 11 de julho de 2009

A apatia e o sonho

Ela apreciava a vista constante atentando aos detalhes que ninguém reparava depois de observar várias vezes. Estava se sentindo cansada e não tinha nada para fazer. Tinha um livro em mãos, já o tinha lido cerca de dez vezes, mas teimava em tentar compreender algo que acreditava não ter compreendido. Era assim, não se conformava com detalhes supérfluos enquanto o resto era apenas uma reles realidade sem importância. “É só a realidade, afinal. Não podemos mudá-la, então vamos nos adaptar da forma que melhor nos convenha, e que alguém me processe se discordar”. Ela tinha isso como base, enquanto se focava nos seus mínimos detalhes que constituíam sua vida caótica.
Deitada na grama, via seu primo, que morava em sua casa, sob a hospitalidade de seus pais, porém costumeiramente não ficava muito na casa. Deus sabe lá qual era sua motivação e o quê fazia na rua, mas ela não dava a mínima. E seu jeito desleixado era como o dela, mas sutilmente diferente. Ela era tediosa. Inspirava o tédio em qualquer um que observasse suas atitudes autistas por muito tempo. Mas ela tinha plena consciência de tudo o que se passava ao redor, e vez ou outra, maquinava planos e suposições de vários tipos coisas e assuntos de forma doentia (aonde, surpreendentemente ela se mostrava certa na maioria dos casos práticos – por fora apenas arremessava um pragmatismo indiferente, mas por dentro todos os fragmentos de seus pensamentos voltados ao assunto possuíam uma finalidade especial); mas claro, sua visão do mundo era algo único, de fato, e particular; então ela compreendia o pensamento padrão das outras pessoas, mas não concordava com eles. Ele era totalmente desleixado e mais sonhador que ela. Ao contrário dela, ele era muito esquecido (já ela fingia esquecer), porém nunca contava a ninguém aonde ia, o que fazia com que ela ostentasse suposições vez ou outra mirabolantes sobre suas estadias no mínimo estranhas.
E os pais dela não gostavam muito do seu sobrinho. Não era uma antipatia diretamente por ele, era apenas uma mágoa ou uma raiva passada por certas diferenças e discrepâncias que tiveram com a mãe falecida do rapaz; que por sua vez, levava uma vida leviana; até encontrar a morte. Mas diziam por aí que deixavam-no ter suas liberdades, pois, não queriam deixá-lo preso após ter passado por tamanho trauma da morte da sua mãe. O rapaz não aparentava ser traumatizado, mas, quem sabe? Quem vê cara, não vê coração, e pelo jeito ele apreciava muito bem a sua liberdade que já durava dois anos.
- Ora, o filho pródigo! Reconhece sua casa? – Ela levantou os olhos calmamente para observar sua expressão. Mas achou que o esforço não valia tanto assim e pousou os olhos no livro com uma expressão sutil, como se ele fosse um inimigo em particular a ser aniquilado por sua mente que colheria os frutos do trabalho duro; ou ao menos, uma enorme dor de cabeça.
- Eles... Isso é loucura. Eu me esforcei como um cão por tanto tempo, não contaria o que fiz a você – e a olhou com um pouco de pena; ela ignorou sumariamente e encarou-o esperando um assunto mais interessante que os costumeiros sem sentido que ele divagava. – Mas em contrapartida a todas as suas reações, eu estava me saindo bem, realmente bem. Eles são moralistas distorcidos! Isto que são. Não compreendem a arte e a sua essência profunda que, particularmente se esconde dentro de mim; só preciso do apoio daqueles canalhas.
- Que essência profunda da arte?
- Ora, se você não sabe, eu não vou lhe dizer. Mas não me atrapalhe.
- Ah, certo.
- Pois então. Demorei tempos para descobrir algo que valesse a pena; confundi-me no caminho, mas finalmente vi a luz.
- A luz!
- Sim, a luz! E estava lá, bem na minha frente. As idéias brotavam como uma fonte enquanto o que eu fazia se tornava de um gosto refinado e qualitativo. Digo isso pois já vi outros trabalhos de marginais da sociedade! – e ignorou a tossida significante que ela dera, observando a paisagem – que não fazem nada da vida e buscam na arte apenas uma distração. Mas isto é minha vida!
- Oras, então depois de dois anos descubro que trabalhas com arte?
- E literatura também, mas isso se torna uma rede mais intrínseca de conflitos psicológicos e profundos que tenho comigo mesmo, e vez ou outra com a editora, você não entenderia.
- Oh.
- Mas, continuando, a mistura de cores revelavam uma nova forma de ver o mundo, uma mescla de sonho e psicose, digo, você imagina a beleza disso tudo? O espírito humano revelado na mais crua essência com todas as suas dores e sonhos e medos. E eu consegui retratar, sim, consegui! A essência da tristeza se mostrava na apatia daquela senhora de forma única, mas que não estava nem nela mesma. Eu criei! Criei na tela e reinventei toda uma concepção de sentimentos.
- Hum, mas não acha que isso já existia?
- Você acha, mas é por que você não viu o que eu fiz!
- Sei, sei. Mas mostre-me então.
- Não posso, no calor do momento queimei tudo!
- Mas não me diga. Por que?
- Não quiseram aceitar minhas obras na galeria. Não eram o que procuravam, e encontraram um artista jovem e qualquer, para retratarem como uma revelação com uma arte sem sentido e vazia.
- Ora, pobre de você então. Faça outro.
- Não posso. Não estava em mim quando fiz.
- Estava drogado?
- Buscava inspiração por formas ilícitas. O que você falou é grosseiro.
- Ah sim. Então não pode fazer outro.
- Não.
- Então por quê me contou tudo isso?
- Pois vejo que mesmo com sua mente fechada, você tem um potencial e uma mente inteligente, apta para grandes realizações e feitos, e quero que lembre do que fiz; quero que alguém lembre.
- Lembro de uma idéia. Lembro de uma concepção queimada.
- Eu lamento por mim!
- Eu também lamento por mim! Você quebrou minha linha de raciocínio sobre esse livro quando parei para perceber um assunto que nem ao menos era interessante.
- Pois fique com seu livro tedioso. Eu vou buscar o mundo!
- Busque seus ideais, vá, vá! E me deixe, por favor.
E ele foi-se, e nunca mais voltou. Guardando mágoa por sua idéia potencialmente e teoricamente genial ter sido ignorada pela pessoa que ele admirava secretamente, enquanto ela se esqueceu do assunto cinco minutos depois. Os destinos deles se encontrariam mais tarde, aonde as surpresas da vida apenas revelariam que ela sempre estava certa em suas concepções interiores. Ele acabou como a mãe, com uma vida leviana e talvez sonhadora; mas para a morte, o número de descuidos não fazem diferença.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Última carta

Esta é uma carta de amor.
Não sobre o amor recente, fortificado pela fugacidade da juventude. Não sobre o amor onipresente, não sobre um amor já esquecido e até então revelado.
Escrevo para você como para meu sentimento. Não digo que meu amor é o maior do mundo, nem que minha vida se resume a você. Não vou guardar mágoas de mim mesmo por ter escondido até um período que já era tarde demais.
Eu me lembro da época em que me encontrava perdido dentro de mim mesmo, sem maiores ambições, enquanto você veemente me fazia encontrar com sentimentos de uma pureza que eu não conseguia compreender sem certa desconfiança, devido ao caos do meu próprio mundo; devido às minhas próprias reações sobre todos os infortúnios e todas as dificuldades que surgiam quase periodicamente em minha tão solitária vida.
Enquanto eu não sabia lidar com você, com sua inocência, quase por causa inteiramente da minha alma corrompida, você me segurou e me fortificou em seus braços, sem nenhum receio da minha ira. Sem nenhum receio do meu desprezo.
Então eu passei a ter medo que você se quebrasse. Em toda a minha feiúra interior, eu via você. As pessoas não te achavam tão bonita, mas eu via uma aura resplandecente que fazia meu coração se despedaçar e meu interior doer quando seu semblante se mostrava triste. Se sacrificando por um bem maior.
Durante certo período você foi embora. Não tinha confessado meu amor ainda, mas apenas me sentia freneticamente temeroso. Não queria que você se envolvesse com qualquer pessoa que fosse. Eu pensava em você durante longos períodos de uma depressão profunda, e me sentia cansado.
Não culpo o amor por minha atual tragédia. Culpo a mim mesmo. A maioria das pessoas tende a achar que o amor é o culpado por todos os infortúnios amorosos decorrentes de suas vidas. O amor pode ser infinitamente prazeroso se amarmos a pessoa certa. Muitos temem se relacionar e muitos se relacionam com pessoas erradas e sofrem conseqüências; e o amor sempre está lá. Algumas se martirizam por terem deixado o sentimento desabrochar quando poderia ser evitado, outras repudiam abertamente o amor quando o sentido de suas vidas lhes é tirado por uma fatalidade do destino...
Mas a culpa é das pessoas, não do amor em si. Talvez nem sempre seja de alguém. Talvez seja apenas um conjunto de fatos que se sucederam em cadeia e não puderam ser evitados pois não havia aviso prévio ou uma mera intuição de que algo estava para dar errado.
No meu caso, culpo a mim mesmo. Provavelmente se eu fosse outra pessoa, falaria que eu não teria como saber de nada. Mas eu reprimi todo esse sentimento durante tanto tempo e agora preciso de um porto-seguro para chorar. Essa é minha culpa; não pode ser tirada de mim tão fácil, eu me sentiria vazio.
Agora que você se foi para todo o sempre, sua memória permanece comigo. Não lembro de uma mulher num leito de hospital definhando, mas lembro da jovialidade que você demonstrava e de todo o carinho que você me dedicava. Eu me lembro de você; em memória a você. Eu me lembro de todo o infinito que eu pude sentir, mesmo que por pouco tempo ao seu lado.
Eu já não posso te entregar esta carta em mãos, mas esse é meu desabafo de tantos anos de mágoa guardada. Essa é uma forma de exprimir coisas que eu mesmo venho negado a mim mesmo tão veemente e que me dilaceravam o coração. Agora eu vou procurar um novo sentido para a minha vida; talvez eu já tenha descoberto e não saiba. Você iria querer isso.
Eu te amo.