acalentado
por sonhos etílicos, caminha, afetuoso e amainado. prosseguia como se
percebesse desprovido da matéria, elevando-se às nuvens, em epidérmica sensação
conflitante, expelindo o álcool; resvalando espacial ou temporalmente, pois
tudo cerceia. sentido livre, velocidade por entre o caminho, e o tempo sem
duração. e sem destino, como seria uma suposição natural à vista de um
embriagado, repete sentenças, de um segredo não posto, e que não permite a
participação de qualquer outro – possivelmente nem ele mesmo. o bêbado, a
sentença dispersa ou os dois; um desprendido em direção à urgência, o outro
cambaleante em seu aprazimento pela continuidade na caminhada pela calçada,
pelo meio-fio, e de novo, parcialmente num processo de apreensão do ato de
caminhar, ao passo de que o mundo prossegue suficientemente equilibrado, assim
como as outras pessoas. as sentenças repetidas da defluência da caminhada; qual
seria supostamente o significado de se duplicar o que estaria previamente
determinado? o processo do aprendizado do ato de caminhar; o bêbado premedita
cada circunstância, e não compreende o andar como um aprendizado, mas como uma
reinvenção. o âmbito alcoólico reaquista o cintilo do mundo; não se duplicam as
sentenças, se reelabora suas definições; - sentido e fugacidade, o firmamento
do prazer é o entusiasmo do que se renova. um pé à frente e antes do outro, o
mesmo, ou ambos, ou vice-versa – tanto faz; ou não, devido ao fato de que não
poderia ser desigual podendo ser equiparado a outro que já foi, não poderia
haver um discernimento; logo será um compreendido como novo, e seria também o
chão de concreto pisado, e também seria o aglomerado de água de chuva fria, que
cerceia os pés dos desavisados, e deixa uma sensação congelante no incômodo que
seria a meia molhada. e ainda mais fria até a chegada da anestesia. e
prosseguindo na caminhada tentando recordar as aparentes similaridades que
haveriam de ser recordadas, tanto, e de forma tão excessiva. a rua é impregnada
pelo frio, pela sensação de vazio, a despeito dos sons dos amantes. e aqueles
que se amam em efemeridade falam muito, tanto, enquanto manifestam quase nada
daquilo que lhes concerne – somente o que é suposto que falem, somente chavões
intencionais. distanciem-se daqui, esse lugar não é lugar de palavras prepostas que se situam muito próximas àquilo que já foi, ainda no
presente, e se tornam tão desimportantes. prosseguindo com a caminhada, o
bêbado cai; e ele poderia obter seu sustento, firmar-se na fixidez do chão ou
naqueles muros protetores; mas tudo se tornou repentinamente prazeroso e pelo
domínio natural ele opta pela pedra. então, digamos que ele rechace tudo o que
tem feito e o seu estado atual, pois tornou-se ainda mais volúvel no âmbito
etílico – arrependido do que tem feito e do que caminhou, e do tanto que disse
a quem não deveria conhecer qualquer fragmento do ínfimo de seu quieto coração
em sobriedade; não nessa sequência, pois como caracterizar o rumo, este curso e
esta urgência que nos situa para muito adiante daquilo que nos é habitual
e insípido? todavia, o bêbado, agora já num processo de assimilação
das dores da sobriedade, se vê a salvo na perturbação moral de um lugar que
sempre se permanecerá na pendência pelo vínculo; em que quanto mais se percebe,
menos se assimila, e mais afirmativa passa a ser a ignorância; pois a certeza é
um símbolo, e tudo se distancia e decorre; o prazer, a renovação e o
entusiasmo, quase ofuscados pela virtude da sobriedade.
domingo, 24 de novembro de 2013
domingo, 3 de novembro de 2013
Há um silvo exasperante que distorce a concentração, com
faróis traçando caminhos de luzes pela paisagem. Gostaria de poder me locomover
dessa forma pelo domínio insensível; contundir a visão do que não enxerga, ou a
audição do que não escuta. A quietude debilitante reverbera de um intenso leito
do estrondo cansado. Dessa forma, as máquinas solitárias não poderiam trabalhar
se depostas de sua massiva exuberância. Derivam pelo cansaço multiplicado pela
escuridão, implacável. Os choques esporádicos procuram um amontoado. Os
intervalos genéricos são impedimentos. Todos se voltam à escuridão, no
pertencimento. Os sentidos retornam ao si-somente. Minha cabeça pendente para
trás. Percebo-me reduzida à massa contrastante. E findou-se o espaço de tempo e
a localização é equivocada. Não-permitido coisa alguma. Grilos à distância -
tranquilidade. Faróis, (num primeiro momento, alheio à dispersão), hostis,
surgem pela janela. Gradualmente. Eleva-se da profundeza um brilho intenso de
lanterna, que choca, decorre, toca, desdobra e acorda. Surge, de lugar algum.
Debilmente, a iluminação reflete em cada ser, interditando e declinando a
inessência. A totalidade do que os olhos veem, e a perspectiva do vazio que é
disperso. Condenação da matéria penetrando na vigília de outrem.
domingo, 27 de outubro de 2013
e perseveras a repreender as
divindades;
ainda renuncias
ainda renuncias
a imponência com teu desgostoso
olhar.
uma incógnita para minha
percepção
que o indelével até então o
sustente
em seu asilo, mesmo que
precário.
teu olhar sobre
tudo o que é infindável
recordação do definhamento;
errante pela agonia
dos intervalos, ansiamos por
idealizar;
mas a imprecisão nos repreende:
refletir tolhe o rumo da eternidade.
mas a imprecisão nos repreende:
refletir tolhe o rumo da eternidade.
torna-se débil, como algo
restrito
qualquer, sem alma.
então, a comoção:
o cosmo aparenta
revolutear-se; todavia a essência
das matizes do universo
permanecem
nebulosamente impassíveis.
desarranja-se num reflexo
lacustre
a claridade do sentido da existência
símbolo.
mesmo para a tumba há óbito.
a totalidade se movimenta.
encabula-te de tanto hesitar;
partiram a destreza, o desejo, o
vigor;
sobrando apenas
aflição e delírio.
[como se
como se não a pudesses abandonar,
a matéria, como se
te revolvesse sem propósito, sem
propósito
houvesses escancarado o peito,
glorioso
com vastas possibilidades
ao céu, irrestrito;
cada expressão te estagnava,
cada frase te interrompia
suspenso, nas palavras:
mesmo teu desconhecimento
parecia há muito compreendê-las]
ansiavas a compreensão;
definhando,
extingue-se o desejo;
desconhecer: eis
o infinito.
os espaços de tempo são curtos;
o chão absorve tua sombra,
perscrutando a matéria.
por tantas vezes perturbou tua indiferença
em melancolia acometida.
todavia, agora
permaneces resignado
definha pelo próprio testemunho.
é inevitável: calidamente as
divindades,
o acolheriam,
num fôlego poderia retê-lo,
e perguntar-lhe: és meu?
[talvez num delírio acometido
pela culpa enevoada –
melhor do que me firmar sem a tua
presença]
então, para nós, silencioso e
indefinido,
o porvir se transforma em ode.
todavia, certamente
tolamente os mortais
em delírios e choros,
afligem-se por seus corpos
por seus mortos,
pois derramam prantos
por ilusões enfraquecidas:
as reminiscências da alvorada do ser.
sábado, 26 de outubro de 2013
No âmbito onírico, caminha inadvertidamente por um deserto.
Obscurecida a vista do sol e da areia branca.
Morosa massa plúmbea encobre o brilho,
Enquanto o sombreado descansa sobre o cume das ruínas
De uma torre, há muito esquecida -
dos espaços de tempo
Indiferentes.
Na parte interna, escuridão, a que embarga
A visão – percepção soberana, mundana.
No declive, apenas o tato,
Tem por orientação paredes indefinidas, pregueadas,
Inumeráveis lances de escadas,
Sempre os mesmos.
Ao fundo, se ouvem ecos de aflições,
Acima, vibra uma queda de pedras.
Num choque ininterrupto em acercamento,
Mas sem surgir – ou abandonar a posição.
Passos peregrinos, sem sustento nem sentido.
Dissipou-se o começo, em passagens excludentes;
Trilha sem acesso, ser em suspensão,
Por meio do declive penoso,
E a subida frustrada, aguarda, desconexo,
Numa umidade espessa, sufocante –
Num fastio perene,
Esquecido da crença no acordar.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Imóvel o olhar que me empurra ao passado; hesito, enquanto
todo o resto se excede e me supera. Do presente falho em persistir com a
caminhada; - pois este já não me aceita mais pelo que me tornei.
Ambíguo esse vislumbre do que se foi, que arremesso ao futuro em
seu semblante sereno e alheio; - e voltando alígero para o lugar de onde veio;
supera-me, e em desdém vejo sua outra face.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
trilha sem pegadas de outra circunstância; roupas sem sustento, balouçando com o soar dos sinos, habituados ao contar dos minutos, dos segundos que não podem ser ouvidos, do tédio dos dias, da demora que engendra coisas que são desfeitas com o passar dos anos, do momento da espera por mais. o lapso da brisa que conduz o som, através do branco amarfanhado das roupas, indefinidas em inteireza, que me procuram, abundantes, cerceando; deslumbres, extasias – anima que no próprio âmago estua –. das nuvens migratórias elevando o ontem que não se quer de mim; o prolongamento da matéria; o conflito exasperante dos corpos, – a arritmia matutina; os lençóis vertidos em mortalhas sem nódoa, julgados pela brisa, disforme, violentamente, açoitando, bruscamente, ruidosamente; – o barulho, no passar do que é visível, na derrocada do dia, na solidão; na apatia hesitante que é suspensa com o tempo vertido em substância.
seda vertida em ferro inviso, um nó de aço – insta a vítima, que se debate; sem poder se desfazer na eternidade; no pensamento que se eleva, que consome, e só nos cabe a observação expectante – do instinto primordial do universo de sujeitar cada coisa à sua própria queda –. pois mesmo em tecido amarfinado, e ornado nó tocado pelo vento – sendo um laço, não haverá de ser brando.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
transluze – agressões –
da ebúrnea tranquilidade
entorpecente
lamento rubro fluído
inflamando sob o tato
a tomar-lhe, causticante
sangrando o toque - existência
profusa e intimamente
a largos passos murmurantes;
desapego lenitivo
resignado à lucidez
revestindo o que inebria
devastação;
incendido, ferimento,
espaçado
fina epiderme escura
carecendo, intimamente,
relativo encontro,
estrepe e pele
afrontando, fricção –
...e resvala.
transcorre rente à sinuosidade
secretando, deslocando
oscilante, suspenso estanque
entre o âmbito gravitacional;
hesitação, continuidade -
alastro ostensivo que pinga
desagregando numa poça.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
quietamente, sob a sombra de uma
divindade com olhar conciliatório de atribuição luminosa, como o próprio sol. a sombra atribui forma
ao brilho. forma-inexistência. elevado resto intuitivo; o pensamento, a metáfora, a
natureza da expressão, o deslizar sutilmente, resto de resto, sombreado do pensamento; sempre acima. inexiste
a palavra, sobra o resto, prolonga o gesto; o sorriso, que possui natureza
silenciosa. se é válido reportar-se sobre a condição dos fenômenos, este é o
fim.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
e findou o trajeto tal qual que
pensa e caminha e pensa. ameno, absorto, em gesto cambaleia, considera as circunstâncias,
alonga o andar austero pela pista, paralelo, disperso, disperso, disperso;
evade-se rua-a-rua. a pista, passada, empecilho, é o retorno em novo movimento,
faixa de pedestres, empecilho, desvio de rumo. não afeito a carros, mas a trem,
perpassa lugares desconhecidos, investiga caminhos e em impossibilidade se
retoma. o trilho se constitui a cada movimento, em visões-anomalias advindas do
dentro-pálpebras e irradiadas ininterruptamente. o anseio tido num fim; casa,
finda o ciclo. e recorda, e fez dádiva do imediato, silencia e provoca ânsia da
queda-livre de um não-corpo em dormência.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Nomes chamuscam,
clama-se por adoração, evoca-se o nulo, em não intervalos, em impensamentos. São
brilhos agressivos, ondulações suaves; feixes de luz de cores infinitas. Descontinuam,
Ser e nome.
O avermelhado na pele
acobreada. O azul no torso arqueado. O violeta borrado é superfície branca. Deslizam
lentas, gotas que se encontram em choque célere. Voz grave, timbres roucos em
deleite; vazios sentidos se apuram; agressivamente nulo, ardilosamente íntimo. Movimento
apressado, contínuo; encrespando-lhe o orgasmo encharcado de sexo. O cenário
não muda, não movimenta, mas se desfaz. Flashes que cerceiam segundos
nocauteados. As formas se focam na luz sem cor, multicor, insuperando no ato
exprimido. Os corpos cessam, as luzes giram, os ruídos são distantes e
contínuos. Perdido o êxtase, submetem-se. O espaço vê-se movediço. Uma queda do
desfalecer. Há a necessidade de se desfazer da expressão, cedê-la ao exterior,
tornar-lhe compreensível. Percebem, quietos, o ambiente. Gritos ocupam
distâncias. Sorrisos lânguidos. O lugar é visitado pelo tempo, inevitável. O
acanhado movimento orgânico é apreensivo. O silêncio da matéria retoma a vida
que não se quer dela. Adormecem. Presenças fulgentes em sonhos ébrios.
domingo, 21 de julho de 2013
A
festa verteu-se numa experiência miserável. As músicas, o barulho e todo o
indistinguível transtorno sonoro, asfixia, deita o aposento à perturbação
claustrofóbica. Serpenteio em meio aos corpos dessensibilizados, copos e faces,
escapando em ânsia aos espasmos e jorros de líquidos preparados para impregnar
quaisquer extensões. Os barulhos advindos da caixa de som entram em sintonia
com os pulsares doloridos em meu cérebro. Do lado de fora, a imensidão me saúda
com uma brisa consoladora. Vejo mais alguém saindo da casa e imagino como
desejaria continuar meu percurso sem trocar quaisquer palavras com ninguém.
Minha liturgia de solidão me cobre com uma suave misantropia (deveria
enfatizá-la mais a partir da experiência das sensações naquele âmbito caótico).
Só de imaginar que alguém me perceba, sinto-me irracionalmente ameaçada.
Aprecio a sensação da distância e do nada. Não que o nada se manifeste em minha
mente, de fato, estou sempre presa a este mundo que me rodeia. E esses tipos de
noções infiníticas são imperturbáveis
em longitude. Meus pensamentos, nesses momentos, são do tipo que se dispersam
assim que se tem contato com eles. Como se não participassem da minha experiência,
surgem num equívoco.
À distância, há um banco próximo a pequenas
árvores. O luar, etilicamente embalado, liberta por uma pequena fresta, entre os
galhos e folhas, um pequeno feixe de luz perolada, como uma pura nota de
piano vertida em sonata que distancia a ode de vida e morte, na dança
repetitiva e alucinatória dos cativos. A representação do lugar torna-se cada vez
mais disforme à medida que a reverberação lancinante desaparece. Aproximo-me de um
lago, cujo único sinal de toque humano são luzes posicionadas ao redor,
refletindo na superfície da água, balouçando com a brisa. O arroubo de agitação
das criaturas na festa, delirando que sua balbúrdia ornamenta, num contorno
febril, toda a extensão do mundo, vê-se similar à iluminação reproduzida no
espelho lacustre, juntamente com as estrelas. Como a luz que realça a
escuridão.
Adormeço.
Os
sons terrenos me fazem desejar ser embalada de volta ao meu sonho de errância;
meus passos fracos anseiam pela desejosa facilidade do estado de sono, porém o
âmbito gravitacional é aflição trágica do incontornável amanhecer; os segundos
disformes suspensos cedem à potência do sono vago. Deleito-me por milhares de
anos naquele fragmento de segundo; milhares em que me desfaço e que me refaço
nas arestas do universo; matizes do ambiente desconhecido e melancolicamente
reconhecido. Do segundo carro que passa já lhe reconheço alguma existência espacial.
A aspereza retilínea do percurso da rua é consternadora; ânsia e ansiar do
fluxo aspiral noturno. O sonho dilapidado e fragmentado, esquecido em
dissonância, revela lapsos, cenas de correnteza remoldada sem sequência.
Observo e anseio que ao menos a impossibilidade do mundo exterior abandone-se
das linhas retas e a terra se faça ilusoriamente sem serpentear; ou que o
ambiente ondeie em terremoto sem se perceber da alucinação transgressora; o
despertar; milésima origem do não-dito; o ínterim entre dois carros. Esfrego as
mãos, observo as espécies de pássaros se multiplicarem, felizes por sua
obrigação instintual, e vou para casa.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
É algo a se suspeitar (e, com a posse de certo conhecimento, rejeitar), a noção de que todos os nossos
desejos habitam sempre a parte rasa nossa consciência, que conhecemos todos no ápice da
nossa racionalidade (afinal, fazem parte do nosso próprio interior, que seria de se supor que compreendêssemos melhor do que todo o resto), e que sempre serão expostos em frases ditas à metafórica luz do dia.
A complexidade dessa questão é evidente a qualquer um que tenha um conhecimento
mínimo de quaisquer teorias psicanalíticas.
Entretanto, todas as (até então) suposições tornam-se mais
categóricas, em situações em que experimenta-se o próprio conflito. Quando se
racionaliza que algo não é tão desejável (com motivos perfeitamente lógicos), onde você admite algo, de forma despretensiosa, apenas para conhecer uma nova possibilidade. As razões conscientes são ditas à luz do dia, aos outros e a si
mesmo. Já à noite, em reflexão, é possível deparar-se com lapsos manifestos do
inconsciente. Você, de forma desconcertante, e num momento não tão raro de iluminação, descobre que sim, aquilo era mais
desejável do que você seria capaz de verbalizar, a despeito de todas as coisas aprendidas comumente ao longo da vida.
Daí, há de se abandonar a crença na tentativa falsamente
desinteressada.
domingo, 5 de maio de 2013
Ela sentia uma doçura inimaginável somente pelo fato de
poder fitá-lo sorridente em meio ao ambiente agradável e lotado. Via-se tranquila por seu lembrete mental que ressaltava sua posição
privilegiada, implícita. Esse prazer, decerto a tornaria
indiferente às vicissitudes da existência. E assim era o amor. Prolongava uma
sensação poderosa, preenchia-a com uma febre dos sentidos. Antes disso, ela sentia-se apenas como si mesma, desprovida de propriedades extraordinárias,
imersa na mediocridade e na contingência (devido à formação advinda de uma
construção ferrenha de valores marcados na sua pele). E, de onde, pelos céus,
havia vindo aquela suposta felicidade? O que aquilo deveria exigir dela? Qual era
o seu significado implícito? As respostas não estavam em lugar algum além dela própria -
sabia. Restava-lhe apenas a repetição da explicação que limitava suas
expectativas; esperava poder usufruir dela e vê-la intacta, no momento
posterior ao que estaria por vir.
Ela somente poderia conhecer as experiências de outrem; o
que lhe informava, decerto que o fracasso beirava à unanimidade. Todavia, a cor
de seus olhos sobressaía-se em tons variados em seu imaginário. Ela não tinha
uma alma observadora e não podia diferir seus tons em meio aos demais. Somente
seus traços marcantes fulguravam em brilho cerrado, estimulando sua imaginação
e criatividade.
E, ao ouvir seu nome, tomava um fôlego condicionado. Esperava
ocultar em seu interior mais distante todas as vezes que o pronunciava em
segredo, em necessidade insensata.
O tempo ondulava suas memórias, atiçando-lhe o passado, fora
de seu domínio, que ela jamais poderia obter novamente. Talvez sua esperança, tão inerente ao seu espírito, lhe tivesse sussurrado palavras vãs
durante todo esse tempo, e talvez a forma das coisas como são seja apenas um
estado psíquico transitório em sua constituição, pois os mesmos objetos de valor que lhe eram estimados, a
mesma aparência natural das rosas em seu jardim, e os mesmos traços
pertencentes a ela mesma, que envolviam a sua face numa aparente neutralidade
constante, já não pareciam o que eram antes.
Era uma necessidade mais ou menos prolongada. Via-se agora
numa exposição incomum. As ondas de felicidade embaciada eram menos constantes, e
ela perscrutava um sentido dolorosamente forçado em meio a uma ânsia
cansativa. Revivia a sede por algo novo e confrontava-a, em hesitação. A felicidade e o
tédio aparentes haviam turvado sua visão e modificado sua sensibilidade. Somente
tinha lapsos agora, enquanto era tocada pela tristeza, ao passo que adquiria consciência tardia da sua extensão. Os lapsos eram momentaneamente discerníveis, para
posteriormente esvaecerem, sendo apenas compreendidos pelo aprazimento que
davam; e certamente seriam impossíveis de se obter em algum desígnio objetivo e
formal, de classificar em lucidez, de se evocar quando fossem precisados. Existem em
efemeridade e deslizam pelos alicerces da mente.
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