- Eu sonhei com você noite passada.
- Mesmo?
- Sim, mas eu não poderia definir o sonho direito. Não vou dizer que ele era estranho, mas era triste. Quer dizer, depende. Eu estava com você e havia uma grande tapeçaria. E, bem, era um baile.
- Me parece um sonho muito agradável.
- Bem, no baile eu estava sem par, enquanto você me apresentava sua noiva, - ela prosseguiu rápido após uma breve objeção dele – no sonho, sabe.
- Sei.
- De repente o sonho mudou, eu acordava e percebia que você não me conhecia. Parecia um amor platônico, o meu. Eu ficava triste por ter acordado.
- Você costuma sonhar muito comigo?
- Não, só essa noite – ela baixou os olhos, corada.
O gesto foi seguido de uma carícia em sua mão e um beijo quase imperceptível. O homem, muitos anos mais velho que ela, observava ternamente o olhar da jovem focado no horizonte.
- Bem – ela prosseguiu – já imaginou com seria se você nunca acordasse?
- Não.
- Mas todos deveriam ter imaginado algo assim. Parece estranho mas, algumas pessoas confundem isso com morrer.
- E não seria morrer?
- Não, por que você ainda estaria respirando. Morrer implica em abarcar um grande vazio ou algo assim. Não sei definir o “não ser”. Eu estava pensando num estado de sonho permanente. Algumas pessoas desejam morrer quando simplesmente não querem mais ter consciência do presente. Perder os sentidos ou algo assim; não implicaria morrer de verdade.
- Um desmaio regado de remédios?
- Isso não parece muito poético.
- Eu não pretendia ser.
Ela encostou a cabeça em seu ombro, olhara o anel de noivado em sua mão, silenciosa. Permaneceu assim até que a voz grave de seu companheiro esboçasse uma música suave em seu ouvido, que ambos conheciam. Ela riu levemente com seu esforço, mas achou agradável. Extasiava-se em júbilo.
Eram sete da manhã e ela permanecia imóvel na cama. A respiração era pesada e seria muito cedo para que alguém percebesse seu estado. A noite se foi e o dia passava rápido, indiferente e brilhante, com o sol queimando seu rosto delicado com raios diáfanos que atravessavam o vidro empoeirado. Tocavam seu rosto extasiado; como um visitante incoveniente que batia à sua porta enquanto apreciava fotos antigas no porão. Ela teria atendido se pudesse abrir os olhos.