Ela se deparava com uma manhã vertiginosa. Pelo chão, viam-se vários objetos que denunciavam as conseqüências da noite anterior: garrafas de vodka vazias, restos de cigarro, o homem que a amava, sobre o carpete vomitado...
Vestiu-se e saiu sem pressa. Sentia algo que se assemelhava a um torpor de sentimentos (mas se o fosse de fato, não estaria tão mal). Isso pela idéia de desistência que se apossara dela, impedindo-a de ver-se merecedora de qualquer fruição de sentimentos verdadeiros. Ela ria quando pensava na possibilidade; era engraçada, ao passo que em seu íntimo, parecia degradante.
Fingia o máximo de desinteresse (para si mesma) quando verificava o celular constantemente. Havia uma semana que ele não ligava (aquele que não estava estendido em seu carpete), mas uma esperança irracionalmente juvenil (desproporcional à sua idade) jorrava em seu âmago.
Resumidamente (ela era pragmática, não gostaria de nenhuma declaração prolixa e superficial sobre o amor verdadeiro); com ele, ela não se sentia como a lua, que tinha sua beleza destacada por um mero reflexo do sol; mas ela era o próprio sol. Essa idéia (em essência) a envaidecia.
Agora, paradoxalmente, orbitava em seu novo sol radiante, distante, impessoal. Sentia uma tristeza e imaginava que ele a esquecera. Seria o mais apropriado; mas ao menos, poderia guardar algo profundo que se assemelhava terrivelmente ao amor (em sua mente, já não sabia reconhecê-lo) e cultivar a tristeza da espera silenciosa.
Um comentário:
Perfeito! Não tenho outra palavra, mesmo. Vão começar a citar seus textos...
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