quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Imóvel o olhar que me empurra ao passado; hesito, enquanto todo o resto se excede e me supera. Do presente falho em persistir com a caminhada; - pois este já não me aceita mais pelo que me tornei.

Ambíguo esse vislumbre do que se foi, que arremesso ao futuro em seu semblante sereno e alheio; - e voltando alígero para o lugar de onde veio; supera-me, e em desdém vejo sua outra face.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

trilha sem pegadas de outra circunstância; roupas sem sustento, balouçando com o soar dos sinos, habituados ao contar dos minutos, dos segundos que não podem ser ouvidos, do tédio dos dias, da demora que engendra coisas que são desfeitas com o passar dos anos, do momento da espera por mais. o lapso da brisa que conduz o som, através do branco amarfanhado das roupas, indefinidas em inteireza, que me procuram, abundantes, cerceando; deslumbres, extasias – anima que no próprio âmago estua –. das nuvens migratórias elevando o ontem que não se quer de mim; o prolongamento da matéria; o conflito exasperante dos corpos, – a arritmia matutina; os lençóis vertidos em mortalhas sem nódoa, julgados pela brisa, disforme, violentamente, açoitando, bruscamente, ruidosamente; – o barulho, no passar do que é visível, na derrocada do dia, na solidão; na apatia hesitante que é suspensa com o tempo vertido em substância.

[um vislumbre dos lábios que se movem, sussurram à distância do próprio tempo. o involuntário movimento mecânico do corpo que anseia pelo que os olhos não podem ver, evidencia a fadiga e a inércia do julgamento. fadiga enquanto se cava os restos da totalidade – inércia do próprio desdém.]

seda vertida em ferro inviso, um nó de aço – insta a vítima, que se debate; sem poder se desfazer na eternidade; no pensamento que se eleva, que consome, e só nos cabe a observação expectante – do instinto primordial do universo de sujeitar cada coisa à sua própria queda –. pois mesmo em tecido amarfinado, e ornado nó tocado pelo vento – sendo um laço, não haverá de ser brando.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

transluze – agressões –
da ebúrnea tranquilidade entorpecente
lamento rubro fluído
inflamando sob o tato
a tomar-lhe, causticante
sangrando o toque - existência
profusa e intimamente
a largos passos murmurantes;
desapego lenitivo
resignado à lucidez
revestindo o que inebria

devastação;
incendido, ferimento,
espaçado
fina epiderme escura
carecendo, intimamente,
relativo encontro,
estrepe e pele
afrontando, fricção –
...e resvala.

transcorre rente à sinuosidade
secretando, deslocando
oscilante, suspenso estanque
entre o âmbito gravitacional;
hesitação, continuidade -
alastro ostensivo que pinga
desagregando numa poça.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

quietamente, sob a sombra de uma divindade com olhar conciliatório de atribuição luminosa, como o próprio sol. a sombra atribui forma ao brilho. forma-inexistência. elevado resto intuitivo; o pensamento, a metáfora, a natureza da expressão, o deslizar sutilmente, resto de resto, sombreado do pensamento; sempre acima. inexiste a palavra, sobra o resto, prolonga o gesto; o sorriso, que possui natureza silenciosa. se é válido reportar-se sobre a condição dos fenômenos, este é o fim.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

e findou o trajeto tal qual que pensa e caminha e pensa. ameno, absorto, em gesto cambaleia, considera as circunstâncias, alonga o andar austero pela pista, paralelo, disperso, disperso, disperso; evade-se rua-a-rua. a pista, passada, empecilho, é o retorno em novo movimento, faixa de pedestres, empecilho, desvio de rumo. não afeito a carros, mas a trem, perpassa lugares desconhecidos, investiga caminhos e em impossibilidade se retoma. o trilho se constitui a cada movimento, em visões-anomalias advindas do dentro-pálpebras e irradiadas ininterruptamente. o anseio tido num fim; casa, finda o ciclo. e recorda, e fez dádiva do imediato, silencia e provoca ânsia da queda-livre de um não-corpo em dormência.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Nomes chamuscam, clama-se por adoração, evoca-se o nulo, em não intervalos, em impensamentos. São brilhos agressivos, ondulações suaves; feixes de luz de cores infinitas. Descontinuam, Ser e nome.

O avermelhado na pele acobreada. O azul no torso arqueado. O violeta borrado é superfície branca. Deslizam lentas, gotas que se encontram em choque célere. Voz grave, timbres roucos em deleite; vazios sentidos se apuram; agressivamente nulo, ardilosamente íntimo. Movimento apressado, contínuo; encrespando-lhe o orgasmo encharcado de sexo. O cenário não muda, não movimenta, mas se desfaz. Flashes que cerceiam segundos nocauteados. As formas se focam na luz sem cor, multicor, insuperando no ato exprimido. Os corpos cessam, as luzes giram, os ruídos são distantes e contínuos. Perdido o êxtase, submetem-se. O espaço vê-se movediço. Uma queda do desfalecer. Há a necessidade de se desfazer da expressão, cedê-la ao exterior, tornar-lhe compreensível. Percebem, quietos, o ambiente. Gritos ocupam distâncias. Sorrisos lânguidos. O lugar é visitado pelo tempo, inevitável. O acanhado movimento orgânico é apreensivo. O silêncio da matéria retoma a vida que não se quer dela. Adormecem. Presenças fulgentes em sonhos ébrios.

domingo, 21 de julho de 2013


A festa verteu-se numa experiência miserável. As músicas, o barulho e todo o indistinguível transtorno sonoro, asfixia, deita o aposento à perturbação claustrofóbica. Serpenteio em meio aos corpos dessensibilizados, copos e faces, escapando em ânsia aos espasmos e jorros de líquidos preparados para impregnar quaisquer extensões. Os barulhos advindos da caixa de som entram em sintonia com os pulsares doloridos em meu cérebro. Do lado de fora, a imensidão me saúda com uma brisa consoladora. Vejo mais alguém saindo da casa e imagino como desejaria continuar meu percurso sem trocar quaisquer palavras com ninguém. Minha liturgia de solidão me cobre com uma suave misantropia (deveria enfatizá-la mais a partir da experiência das sensações naquele âmbito caótico). Só de imaginar que alguém me perceba, sinto-me irracionalmente ameaçada. Aprecio a sensação da distância e do nada. Não que o nada se manifeste em minha mente, de fato, estou sempre presa a este mundo que me rodeia. E esses tipos de noções infiníticas são imperturbáveis em longitude. Meus pensamentos, nesses momentos, são do tipo que se dispersam assim que se tem contato com eles. Como se não participassem da minha experiência, surgem num equívoco.
 À distância, há um banco próximo a pequenas árvores. O luar, etilicamente embalado, liberta por uma pequena fresta, entre os galhos e folhas, um pequeno feixe de luz perolada, como uma pura nota de piano vertida em sonata que distancia a ode de vida e morte, na dança repetitiva e alucinatória dos cativos. A representação do lugar torna-se cada vez mais disforme à medida que a reverberação lancinante desaparece. Aproximo-me de um lago, cujo único sinal de toque humano são luzes posicionadas ao redor, refletindo na superfície da água, balouçando com a brisa. O arroubo de agitação das criaturas na festa, delirando que sua balbúrdia ornamenta, num contorno febril, toda a extensão do mundo, vê-se similar à iluminação reproduzida no espelho lacustre, juntamente com as estrelas. Como a luz que realça a escuridão.
Adormeço.

Os sons terrenos me fazem desejar ser embalada de volta ao meu sonho de errância; meus passos fracos anseiam pela desejosa facilidade do estado de sono, porém o âmbito gravitacional é aflição trágica do incontornável amanhecer; os segundos disformes suspensos cedem à potência do sono vago. Deleito-me por milhares de anos naquele fragmento de segundo; milhares em que me desfaço e que me refaço nas arestas do universo; matizes do ambiente desconhecido e melancolicamente reconhecido. Do segundo carro que passa já lhe reconheço alguma existência espacial. A aspereza retilínea do percurso da rua é consternadora; ânsia e ansiar do fluxo aspiral noturno. O sonho dilapidado e fragmentado, esquecido em dissonância, revela lapsos, cenas de correnteza remoldada sem sequência. Observo e anseio que ao menos a impossibilidade do mundo exterior abandone-se das linhas retas e a terra se faça ilusoriamente sem serpentear; ou que o ambiente ondeie em terremoto sem se perceber da alucinação transgressora; o despertar; milésima origem do não-dito; o ínterim entre dois carros. Esfrego as mãos, observo as espécies de pássaros se multiplicarem, felizes por sua obrigação instintual, e vou para casa.

quinta-feira, 9 de maio de 2013


É algo a se suspeitar (e, com a posse de certo conhecimento, rejeitar), a noção de que todos os nossos desejos habitam sempre a parte rasa nossa consciência, que conhecemos todos no ápice da nossa racionalidade (afinal, fazem parte do nosso próprio interior, que seria de se supor que compreendêssemos melhor do que todo o resto), e que sempre serão expostos em frases ditas à metafórica luz do dia. A complexidade dessa questão é evidente a qualquer um que tenha um conhecimento mínimo de quaisquer teorias psicanalíticas.
Entretanto, todas as (até então) suposições tornam-se mais categóricas, em situações em que experimenta-se o próprio conflito. Quando se racionaliza que algo não é tão desejável (com motivos perfeitamente lógicos), onde você admite algo, de forma despretensiosa, apenas para conhecer uma nova possibilidade. As razões conscientes são ditas à luz do dia, aos outros e a si mesmo. Já à noite, em reflexão, é possível deparar-se com lapsos manifestos do inconsciente. Você, de forma desconcertante, e num momento não tão raro de iluminação, descobre que sim, aquilo era mais desejável do que você seria capaz de verbalizar, a despeito de todas as coisas aprendidas comumente ao longo da vida.
Daí, há de se abandonar a crença na tentativa falsamente desinteressada. 

domingo, 5 de maio de 2013


Ela sentia uma doçura inimaginável somente pelo fato de poder fitá-lo sorridente em meio ao ambiente agradável e lotado. Via-se tranquila por seu lembrete mental que ressaltava sua posição privilegiada, implícita. Esse prazer, decerto a tornaria indiferente às vicissitudes da existência. E assim era o amor. Prolongava uma sensação poderosa, preenchia-a com uma febre dos sentidos. Antes disso, ela sentia-se apenas como si mesma, desprovida de propriedades extraordinárias, imersa na mediocridade e na contingência (devido à formação advinda de uma construção ferrenha de valores marcados na sua pele). E, de onde, pelos céus, havia vindo aquela suposta felicidade? O que aquilo deveria exigir dela? Qual era o seu significado implícito? As respostas não estavam em lugar algum além dela própria - sabia. Restava-lhe apenas a repetição da explicação que limitava suas expectativas; esperava poder usufruir dela e vê-la intacta, no momento posterior ao que estaria por vir.
Ela somente poderia conhecer as experiências de outrem; o que lhe informava, decerto que o fracasso beirava à unanimidade. Todavia, a cor de seus olhos sobressaía-se em tons variados em seu imaginário. Ela não tinha uma alma observadora e não podia diferir seus tons em meio aos demais. Somente seus traços marcantes fulguravam em brilho cerrado, estimulando sua imaginação e criatividade.
E, ao ouvir seu nome, tomava um fôlego condicionado. Esperava ocultar em seu interior mais distante todas as vezes que o pronunciava em segredo, em necessidade insensata.
O tempo ondulava suas memórias, atiçando-lhe o passado, fora de seu domínio, que ela jamais poderia obter novamente. Talvez sua esperança, tão inerente ao seu espírito, lhe tivesse sussurrado palavras vãs durante todo esse tempo, e talvez a forma das coisas como são seja apenas um estado psíquico transitório em sua constituição, pois os mesmos objetos de valor que lhe eram estimados, a mesma aparência natural das rosas em seu jardim, e os mesmos traços pertencentes a ela mesma, que envolviam a sua face numa aparente neutralidade constante, já não pareciam o que eram antes.
Era uma necessidade mais ou menos prolongada. Via-se agora numa exposição incomum. As ondas de felicidade embaciada eram menos constantes, e ela perscrutava um sentido dolorosamente forçado em meio a uma ânsia cansativa. Revivia a sede por algo novo e confrontava-a, em hesitação. A felicidade e o tédio aparentes haviam turvado sua visão e modificado sua sensibilidade. Somente tinha lapsos agora, enquanto era tocada pela tristeza, ao passo que adquiria consciência tardia da sua extensão. Os lapsos eram momentaneamente discerníveis, para posteriormente esvaecerem, sendo apenas compreendidos pelo aprazimento que davam; e certamente seriam impossíveis de se obter em algum desígnio objetivo e formal, de classificar em lucidez, de se evocar quando fossem precisados. Existem em efemeridade e deslizam pelos alicerces da mente.

quarta-feira, 1 de maio de 2013


Parado numa esquina, inquieto, olhava um ponto fixo na calçada. Visava quase sempre o chão, ignorando os olhos dos transeuntes. Seu amigo surpreendeu-o com um tapa, oferecendo-lhe um cigarro. O menino aceitou, com suas mãos pequenas.
Foi procurar sua mãe, enquanto recolhia jornais velhos do lixo. No caminho encontrou um grupo de meninas do colégio particular da vizinhança, que riam efusivamente. De imediato, pararam. Olharam-se de uma forma que certamente acreditavam ser discreta, e apressaram o passo, em silêncio contido. Ele tentou observar o chão, mas os sapatos das moças ainda estavam obstruindo a plenitude do que via.
Tirou um confeito que estava guardando do bolso. Degustou nervosamente enquanto andava pela rua deserta. Um senhor e um jovem adulto passavam, na portaria de um prédio. À sua vista o senhor falava alto, pouco antes de entrar, e para quem, era apenas uma suposição. “Esses moleques vivem infestando a rua. Eles não têm culpa de terem nascido, mas os pais sim! Os pais ficam escondidos enquanto colocam os moleques pra vender chiclete no sinal, por isso não dou esmola pra criança nenhuma!”. O menino ficou um pouco confuso sobre como deveria aceitar aquela declaração repentina, imaginando que fosse algo superior à sua ignorância infantil.
Encontrou sua mãe encolhida perto de uma árvore e de uma loja fechada. Estendeu um jornal por cima dela (começava a sentir uma brisa fria, já que estava escurecendo, e não queria que ela ficasse doente), e acomodou-se contra o seu corpo. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Distração


Essa sensação”, pensava, “não condiz com a realidade“. Em minha condição de mim mesma, sentia-me com qualquer julgamento empobrecido. Racionalizava quaisquer sentimentos incômodos no percurso de um confronto interno, delineando em falso contra minhas convicções. E não seria aquela lucidez que enganava? Fraca sapiência, que reflete a própria insignificância.
Os sonhos são cálidos e as perspectivas são suaves. Não haveria uma brusca irrupção causada por uma dose caridosa de autocrítica. O homem médio que se ergue em favor da própria realização, e que, em verdade, se supõe alheio em meio aos outros pontos transitórios no tempo.
E haveria o pertencimento, a obrigação instintual pela continuidade. Deus me ajude, diria. Quero pertencer também. Deslumbrar-me com as inúmeras facetas humanas, amar ao próximo e tudo mais. Todavia, meu egoísmo é o que me faz observar algumas coisas com cobiça e cautela. Não poderia colocar isso em palavras, com um medo infrutífero de que todo um inferno se concretizasse em minha mente.


E, oh, quão fastidioso. Via a mulher saindo de casa, aos prantos, falhando ao parar para se recompor. O homem a seguia, esboçando desculpas suaves, para que quem quer que estivesse na rua (além de mim, eu não me importo) não visse o espetáculo. Desculpas entrelaçadas com toques. E um tapa. Poderia fingir que não tinha visto isso antes. Por fim, ela apressou o passo, o que, presumo, seria complicado com aqueles saltos finíssimos. Deveria ter prática, ela era boa em correr. Dobraram a esquina. Olhei num átimo para gravar a curta imagem mental.
Acredito com convicção que a linha de pensamento que poderia ser seguida nesse momento (em respeito ao nobre casal), não deveria ser sobre todo o tempo investido que num espasmo se desfez. E tampouco sobre a decadência das relações humanas. A inconstância humana é algo admirável, se pararmos para pensar. E não é que eu esteja em qualquer posição superior e neutra - o álcool é certamente um bom condutor de memórias estratégicas.
Um garotinho de uns sete anos apareceu pra conversar comigo, tentando me distrair enquanto o amiguinho tentava furtar minha bolsa. “Você é engraçado, moleque, toma isso aqui pra comprar alguma coisa”. Depois disso, ele trouxe mais amigos engraçados, mas eu já não estava mais interessada.
Posteriormente, numa parada de ônibus, conduzia de forma despreocupada uma conversa com um senhor de idade, que levantava fatos da própria vida de forma não muito linear. Falou sobre a esposa morta, mas só uma frase ficou na minha memória: “Deus levou todo o amor junto com ela”. Os mortos são santificados, e o amor que habitava neles, também (muitas vezes padecem as aspirações do companheiro em vida). Gastei algum tempo refletindo sobre quem me santificaria depois que eu me fosse.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Órfão


Um lapso; uma amostra no tempo. Uma dolorosa exaustão com o peso de si mesmo. O garoto pintava um foguete azul, num céu igualmente azul.
Percorria novos contornos no papel, em repentino senso de distração. “Eu sabia que ele tinha quebrado!”; passava o lápis repetidamente nos mesmos pontos. “O menino veio da rua, o que você esperava?”, uma pressão com os dedos rígidos e doloridos vertia o céu límpido num cenário tempestuoso.
Um acontecimento. O garoto tentava discernir sobre o que lhe faltava. Tinha uma nova família, e isso era o que, supostamente todos ansiavam. Não estava particularmente triste, mas cheio de ira que vinha de longe e ia para lugar nenhum.            
Quando menor, morava com sua mãe biológica. Ela o fazia sentir-se triste, mas ele imaginava que isso era perfeitamente normal. Ele não sabia de muitas coisas. Sua mãe impunha o próprio gesto, desrespeitava a vontade dele próprio. Rompia as vertentes de qualquer harmonia e continuidade humana. Entretanto, todas as histórias que ele lia tinham um final feliz. Por exemplo, em ”João e Maria”, o pai biológico dos jovens os aceitava de volta, depois que eles retornavam com os tesouros da bruxa má. Ele tentou fazer isso, mas não pareceu tão certo quanto no conto. Imaginava que os tesouros que ele havia furtado não deveriam ser tão valiosos quanto os da bruxa, e que, provavelmente por isso, sua mãe não o aceitara.
Depois que sua mãe desapareceu novamente, foi enviado a um orfanato. Gostava de brigar e de maltratar os pequenos. Tinha dez anos, e os menores saíam de lá tão rápido, que ele imaginava que havia algo errado consigo (talvez fosse por isso que os maltratava).
Ele não sabia descrever o tumulto que surgia quanto aparecia um casal novo no recinto. Sempre iam aos berçários. Talvez fosse porque os bebês não tinham expectativas ou qualquer coisa evidente em seus rostos. As crianças maiores tinham muitas coisas evidentes em seus rostos.
O garoto percebia que, quando não estavam tentando ganhar atenção, eles pareciam tristes por algo que ninguém havia jamais contado a eles. A apatia era revestida por desconfiança, e a ira chegava. Ira por algo que não sabiam descrever, ira voltada para eles mesmos. Criar laços genuínos, sem qualquer interesse evidente, era um tabu. Havia um consenso mudo sobre a destrutibilidade que qualquer laço poderia causar na vida de qualquer um.
Mas a ânsia ainda era agressiva.
“Órfão“. Nomeavam-lhe tantas vezes, com uma variedade tão distinta de designações; muito mais – ele tinha certeza – do que as que as crianças amadas possuíam.
O garoto entendia instintivamente (e conclusivamente, para qualquer questão ou equívoco interior) que não deveria depender de ninguém para a própria sobrevivência.
Eis a realidade. A única realidade do mundo. O mundo inteiro era o seu próprio.  O espaço era revestido por tons de azul escuro, juntamente com o foguete que o faria explorar o universo acima de todas as outras pessoas. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012


Em pensamentos equivocados, quis evidenciar a alegria sentida apenas quando tornou-se metamorfoseada. O mundo que somente existe no interior decresce; o exterior torna-se pífio e sem valor. Onde outrora havia um templo de prodigalidade e ostentação, hoje ergue-se uma estrutura aonde se deixam coisas abandonadas. O que era belo foi internado e mostrou-se invisível, embora não menos atraente.
Até a proximidade em si tornou-se vaga e questionável, longínqua. Meu alento é débil demais para celebrar a virtude, enquanto eu, satisfeita na incompletude, quando o vejo atraindo para si todas as estrelas, desarticulando-as de sua fixidez no céu, torno-me emudecida.
Uma mão ávida espalmada para um ideal vazio. Imagino com horror quão irremediável é o sentimento de manter aquecidos ideais vazios, como quem abraça um corpo sem vida e lhe atribui consciência.
Observo, à distância, em pensamentos metafóricos, a contemplação e todas as coisas. A casualidade, o inesperado, a pureza que se sabe infinita, sem qualquer ânsia. Uma criança perdida esporadicamente nesse lugar, que é despertada em silêncio.
E a inquietação me domina, como se a nostalgia daquilo que se foi, ou as percepções de para onde eu deveria ir e como deveria ter sido, fossem porventura mais verdadeiras e coesas quando atribuídas a quaisquer noções esporádicas de fidelidade.
Indefesa e confusa, pressentindo a perda, acolho a solidão (quando evidenciada) momentânea, como quem acolhe todas as coisas.