sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tédio

Era uma madrugada muito fria; eu acordei repentinamente com a música vulgar de uma boate qualquer. Procurei pelos analgésicos do meu bolso, mas eles haviam sumido. Ali não havia nada que me interessasse.
A jovem que dormia na minha cama parecia sonhar com uma vida feliz.
Era outra situação aonde eu me sentia estúpido. Ela provavelmente queria que eu me apresentasse para sua família como “um homem de verdade” que estava ao seu lado para apoia-la e protege-la de suas decisões cruéis e tiranas. Deveria ser algum tipo de crise adolescente, eu imagino. Sempre os pais, ou alguma situação leviana que se mostraria no final como algo maléfico que devora a sua alma e te faz se cortar de desespero. Seria; se não fosse estúpida.
Desci as escadas devagar, esperando que não a acordasse. Seus sonhos seriam destruídos fatalmente alguma hora, ela não deveria esperar nada demais, não deveria sequer idealizar algo. Idealizações são perigosas; afinal, ela calhou de nascer no mundo mais desgraçado de todos (pensando na possibilidade positiva de existirem outros).
Acendi um cigarro e coloquei a outra mão no bolso. Estava muito frio pra sair, mas eu não tinha muitas opções. Aquele rosto bonito era vazio e simplório e não significava nada para mim. Se é que algum dia algo já significou.
Não não, não sou tão desgraçado assim. Bom, as mocinhas que saem comigo possuem muitos motivos para me odiarem. Eu me odiaria se fosse elas. Mas não me acho tão mau assim. Quer dizer, eu ainda tenho pena delas às vezes; então deve significar que eu tenho sentimentos.
Eu costumo imaginar que eu coleciono a beleza. Eu não sou do tipo que se prende ao plano espiritual da coisa; mas a questão é que eu gosto de tornar meu aquilo que consegue me surpreender por algum tipo de presença exótica. Ultimamente jovens moças têm se tornado meu prazeroso passatempo. Eu visualizo uma pureza oculta, marcada por alguma imperfeição; uma tristeza que se esconde num rosto tímido. Uma mente insegura que se força a mostrar-se ao mundo com todos os seus medos. Eu estou lá para elas; enquanto elas choram nos meus braços, ou quando sorriem para mim imaginando que de alguma forma inverossímil sua beleza me prendeu, de forma que eu fizesse todas as suas vontades através do imaginário amor verdadeiro. Elas começam a se tornar minhas posses.
Então o primeiro laço de confiança se torna mais profundo, cruel; manipulativo. Geralmente na primeira noite nós vamos para cama e elas não têm sequer uma reação negativa com a minha proposta. Mas no fundo elas sabem; ou apenas as mais observadoras abafam o ruído incessante dos seus instintos que as alardeiam com minha presença. Sabem que meu sorriso simples é tão vazio quanto minha alma oca, que procura um mero entreterimento para suprir o tédio.
O tédio.
Meu tédio vem desde minha infância. Não me interessava em matar animaizinhos como aquelas crianças brilhantes e deslocadas, que os outros costumam chamar de psicopatas. Talvez eu preferisse manipular os outros ao meu bel-prazer, para enfim ver o meu mundo girando da forma grandiosa para suprir a falta de sentido da minha existência. Mas a vida pode ser tão bela, tão cálida e gentil.
É o que dizem.
Até que numa noite com aquelas pessoas que parecem tão iguais como todas as noites, eu vi a singularidade que se assemelhava ao que eu só imaginava como eu mesmo.
Seria uma semelhante? Sua alma e a minha estariam interligadas de alguma forma mística e reveladora? Possivelmente não; provavelmente eu a olharia com desprezo depois do primeiro contato significativo, que não fossem os olhares de atração. Só pelo fato crucial que predominava na minha mente e que instigava meu repúdio incontrolável e que ao mesmo tempo lutava bravamente com o sentimento de ligação, o olhar, a presença lasciva...
Ela era muito velha.
Trinta ou quarenta, não importa. Eu sei que a maioria das pessoas se prende firmemente com todas as suas almas simplórias com a mera possibilidade de encontrar um amor verdadeiro; elas não se importariam com isso tanto assim. Elas.
Minha obsessão vem da consciência nova, da insegurança. Da beleza angelical moldada pela pureza da juventude. Juventude. As pessoas normais me repudiariam por tamanho absurdo! Sim, eu sei, mas minha noção aparentemente distorcida está em pleno equilíbrio com minha alma.
Aproximei-me olhando-a fixamente nos olhos, geralmente os outros se assustariam. Eu não sou muito discreto quando estou numa situação assim. Na verdade me dei conta de que nunca estive numa situação como esta.
Seu olhar era entediado, ela parecia outra desiludida; se não fosse sua presença chamativa eu passaria distante dela. Sentei-me sutilmente na cadeira, esperando que ela me explicasse tudo. Que idiota.
- Então, você parece perturbado com algo. – Ela começou.
- Você.
Parecia levemente surpresa, mas se preocupou em não demonstrar.
- Eu? Que poderia fazer se mal te conheço? Somente minha presença te instiga a sofrer?
- Mais ou menos.
- Que interessante.
- Talvez.
Prossegui sendo aquele lacônico deslocado até colocar um foco nessa confusão relapsa.
Conversamos durante horas que discorriam imperceptíveis, como um sonho que nunca tive. Era tarde, fomos para sua casa. Lá, ela me levou para cama; como um jovem indefeso, cujas barreiras de vidro blindado foram estraçalhadas com um seu olhar inefável. Ela despertava paixão, ela inspirava uma ligação verdadeira.
A verdade era algo perigoso.
A verdade transcendia minha compreensão, me arrastava por caminhos nebulosos. A verdade me expunha. A verdade mostrava a mim mesmo de forma quase incompreensível. A questão era que eu mesmo não conhecia meu eu verdadeiro que se mostrava pela primeira vez; quando antes era encoberto pelas mentiras que eram vertidas em minha verdade.
Então eu me mudei. Abandonei meu apartamento pequeno e apertado, pelo menos por um tempo. A sua casa era grande, espaçosa. Eu me sentia fraco, mas à medida que eu doava parte de mim mesmo, ela retribuía dando seu coração. Ele parecia frágil, quebradiço. Eu me perguntava muitas vezes se eu poderia cuidar bem dele.
E assim como todas as jovens que me amaram com uma alma verdadeira, eu a amei com a alma que eu adquiri. Minha incessante busca de algo parecia nula, falsa, disforme comparada com toda aquela situação.
Mas o tempo passa; assim como a vida. Ela é mais curta do que sonhamos em imaginar.
A vida parecia boa.
Até que o sonho confrontou-se com o tédio.
E eu descobri que um sonho, quando se revela como um sonho, e não realidade, alguma hora vai se esvair deixando apenas memórias gastas do passado.
Talvez seja isso que eu estivesse tentando evitar. Ou talvez eu visse de longe esse tipo de situação e risse, lembrando que eu jamais poderia passar por algo assim.
Anne me contou que tinha uma filha que havia ido estudar no exterior. Emília era seu nome, e eu a veria na tarde daquele dia. Tinha 16 anos e se parecia muito com a mãe.
Então, a encontrei.
De imediato, desviei o olhar.
Eu imagino que senti vergonha.
Era algo como uma versão mais jovem de Anne, mas de longe teria a mesma mentalidade. Emília era temperamental gostava muito de se valer de sua inteligência avantajada.
Tudo o que me surpreendeu não foi Emília, nem sua beleza que me deixava estupefato; não foi também, nem de longe o futuro quebrado.
Foi a mim mesmo.
Eu não deveria me surpreender, que permaneci incondicionalmente o mesmo. A essência da minha alma é falha; ela não evolui. Se muito; quando descobre algum valor que faz com que minha alma seja preenchida, ela rapidamente volta ao seu estágio inicial. Talvez seja lá que ela deva ficar. Talvez eu goste disso.
Sim, eu gosto.
Emília parecia ter algum tipo de desprezo pela humanidade, alguma noção talvez tão distorcida quanto a minha, mas equivalente, de certa forma. Emília não era pura, mas sua presença constante que pulsava lascivamente era mais forte que a de Anne.
Então, na mesma noite, cedi aos meus desejos e à minha antiga obsessão; que agora verteu-se em algo novo, pois anulara a importância da pureza; ou talvez seja por que ela era somente a filha da única mulher que amei. Ela se tornou minha posse, e ao contrário das outras, não fez questão de se prender a mim. Parecia entender que eu era tão parecido com ela, que nós nos repeliríamos alguma hora.
Senti vergonha não por mim, mas por Anne. Então fiz minhas malas; não suportaria corromper sua vida com essa consciência tão grotesca.
Minha partida foi em silêncio, de madrugada; sem lágrimas. Até que fui acolhido novamente pela terra árida e cruel, que eu conhecia bem. Afinal, eu calhei de nascer no mundo mais desgraçado de todos (pensando na possibilidade positiva de existirem outros).

2 comentários:

Je~~ disse...

Um texto bem redondo e polêmico *.*
DOREY ririiairi o/

Highlander disse...

Estou ficando sem adjetivos para comentar seus textos. Está excelente!