domingo, 8 de dezembro de 2013


desaba
expira
- pancada - 
com a face voltada para o chão
torcendo para que uma cova
se abra.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Assim vem a brisa, para me lembrar da leveza da voz seguramente arrastada, que me deixou completamente só; acolhendo uma canção monótona, pensando sobre todas as regiões inalcançáveis, e sem lembrar do que amar. Então, vamos nos limitar a breves suspiros, e nos concentrar no domínio da natureza, muito mais forte do que a angústia enclausurada pela qual se opta comumente.

E nossa definição de tempo não permite uma última palavra, pois esta se abandonaria, antes da própria evidência em pronúncia; se estrangularia na garganta, incrementando-se e cerceando seus vastos sentidos, até que a brisa a desloque para muito além de nós mesmos, gradativamente, como todo o resto que caminha. Todos os corpos possuem projeções nas sombras, e assim é a palavra que nos arrebata com sua equivalência negativa, sua demanda de silêncio.


“A espera é um equívoco”.
Se assim fosse, todas as ações humanas movidas pelo arbitrário (não tão arbitrário posto o aspecto decisório dos elos sentimentais) seriam equívocos iguais. Não há uma resposta para qualquer orientação.
“A expectativa é um erro”.
Assim como qualquer noção pré-determinada de acordo com a convenção. O que seria, então, a manifestação do desprezo pela esperança habitual, senão a negação e repressão da própria vontade expectante? Uma tentativa de conduzir e condicionar o que não poderia ser manifesto.

domingo, 24 de novembro de 2013



acalentado por sonhos etílicos, caminha, afetuoso e amainado. prosseguia como se percebesse desprovido da matéria, elevando-se às nuvens, em epidérmica sensação conflitante, expelindo o álcool; resvalando espacial ou temporalmente, pois tudo cerceia. sentido livre, velocidade por entre o caminho, e o tempo sem duração. e sem destino, como seria uma suposição natural à vista de um embriagado, repete sentenças, de um segredo não posto, e que não permite a participação de qualquer outro – possivelmente nem ele mesmo. o bêbado, a sentença dispersa ou os dois; um desprendido em direção à urgência, o outro cambaleante em seu aprazimento pela continuidade na caminhada pela calçada, pelo meio-fio, e de novo, parcialmente num processo de apreensão do ato de caminhar, ao passo de que o mundo prossegue suficientemente equilibrado, assim como as outras pessoas. as sentenças repetidas da defluência da caminhada; qual seria supostamente o significado de se duplicar o que estaria previamente determinado? o processo do aprendizado do ato de caminhar; o bêbado premedita cada circunstância, e não compreende o andar como um aprendizado, mas como uma reinvenção. o âmbito alcoólico reaquista o cintilo do mundo; não se duplicam as sentenças, se reelabora suas definições; - sentido e fugacidade, o firmamento do prazer é o entusiasmo do que se renova. um pé à frente e antes do outro, o mesmo, ou ambos, ou vice-versa – tanto faz; ou não, devido ao fato de que não poderia ser desigual podendo ser equiparado a outro que já foi, não poderia haver um discernimento; logo será um compreendido como novo, e seria também o chão de concreto pisado, e também seria o aglomerado de água de chuva fria, que cerceia os pés dos desavisados, e deixa uma sensação congelante no incômodo que seria a meia molhada. e ainda mais fria até a chegada da anestesia. e prosseguindo na caminhada tentando recordar as aparentes similaridades que haveriam de ser recordadas, tanto, e de forma tão excessiva. a rua é impregnada pelo frio, pela sensação de vazio, a despeito dos sons dos amantes. e aqueles que se amam em efemeridade falam muito, tanto, enquanto manifestam quase nada daquilo que lhes concerne – somente o que é suposto que falem, somente chavões intencionais. distanciem-se daqui, esse lugar não é lugar de palavras prepostas que se situam muito próximas àquilo que já foi, ainda no presente, e se tornam tão desimportantes. prosseguindo com a caminhada, o bêbado cai; e ele poderia obter seu sustento, firmar-se na fixidez do chão ou naqueles muros protetores; mas tudo se tornou repentinamente prazeroso e pelo domínio natural ele opta pela pedra. então, digamos que ele rechace tudo o que tem feito e o seu estado atual, pois tornou-se ainda mais volúvel no âmbito etílico – arrependido do que tem feito e do que caminhou, e do tanto que disse a quem não deveria conhecer qualquer fragmento do ínfimo de seu quieto coração em sobriedade; não nessa sequência, pois como caracterizar o rumo, este curso e esta urgência que nos situa para muito adiante daquilo que nos é habitual e insípido? todavia, o bêbado, agora já num processo de assimilação das dores da sobriedade, se vê a salvo na perturbação moral de um lugar que sempre se permanecerá na pendência pelo vínculo; em que quanto mais se percebe, menos se assimila, e mais afirmativa passa a ser a ignorância; pois a certeza é um símbolo, e tudo se distancia e decorre; o prazer, a renovação e o entusiasmo, quase ofuscados pela virtude da sobriedade.

domingo, 3 de novembro de 2013

Há um silvo exasperante que distorce a concentração, com faróis traçando caminhos de luzes pela paisagem. Gostaria de poder me locomover dessa forma pelo domínio insensível; contundir a visão do que não enxerga, ou a audição do que não escuta. A quietude debilitante reverbera de um intenso leito do estrondo cansado. Dessa forma, as máquinas solitárias não poderiam trabalhar se depostas de sua massiva exuberância. Derivam pelo cansaço multiplicado pela escuridão, implacável. Os choques esporádicos procuram um amontoado. Os intervalos genéricos são impedimentos. Todos se voltam à escuridão, no pertencimento. Os sentidos retornam ao si-somente. Minha cabeça pendente para trás. Percebo-me reduzida à massa contrastante. E findou-se o espaço de tempo e a localização é equivocada. Não-permitido coisa alguma. Grilos à distância - tranquilidade. Faróis, (num primeiro momento, alheio à dispersão), hostis, surgem pela janela. Gradualmente. Eleva-se da profundeza um brilho intenso de lanterna, que choca, decorre, toca, desdobra e acorda. Surge, de lugar algum. Debilmente, a iluminação reflete em cada ser, interditando e declinando a inessência. A totalidade do que os olhos veem, e a perspectiva do vazio que é disperso. Condenação da matéria penetrando na vigília de outrem. 

domingo, 27 de outubro de 2013

e perseveras a repreender as divindades;
ainda renuncias
a imponência com teu desgostoso olhar.
uma incógnita para minha percepção
que o indelével até então o sustente
em seu asilo, mesmo que
precário.

teu olhar sobre
tudo o que é infindável
recordação do definhamento; errante pela agonia
dos intervalos, ansiamos por idealizar;
mas a imprecisão nos repreende:
refletir tolhe o rumo da eternidade.

torna-se débil, como algo restrito
qualquer, sem alma.
então, a comoção:
o cosmo aparenta
revolutear-se; todavia a essência
das matizes do universo permanecem
nebulosamente impassíveis.

desarranja-se num reflexo lacustre
a claridade do sentido da existência
símbolo.
mesmo para a tumba há óbito.
a totalidade se movimenta.

encabula-te de tanto hesitar;
partiram a destreza, o desejo, o vigor;
sobrando apenas
aflição e delírio.

[como se
como se não a pudesses abandonar, a matéria, como se
te revolvesse sem propósito, sem propósito
houvesses escancarado o peito, glorioso
com vastas possibilidades
ao céu, irrestrito;
cada expressão te estagnava,
cada frase te interrompia
suspenso, nas palavras:
mesmo teu desconhecimento
parecia há muito compreendê-las]

ansiavas a compreensão;
definhando,
extingue-se o desejo;
desconhecer: eis
o infinito.

os espaços de tempo são curtos;
o chão absorve tua sombra,
perscrutando a matéria.

por tantas vezes perturbou tua indiferença
em melancolia acometida.
todavia, agora
permaneces resignado
definha pelo próprio testemunho.

é inevitável: calidamente as divindades,
o acolheriam, 
num fôlego poderia retê-lo,
e perguntar-lhe: és meu?
[talvez num delírio acometido pela culpa enevoada –
melhor do que me firmar sem a tua presença]

então, para nós, silencioso e indefinido,
o porvir se transforma em ode.

todavia, certamente
tolamente os mortais
em delírios e choros,
afligem-se por seus corpos
por seus mortos,
pois derramam prantos
por ilusões enfraquecidas:
as reminiscências da alvorada do ser.

sábado, 26 de outubro de 2013

No âmbito onírico, caminha inadvertidamente por um deserto.
Obscurecida a vista do sol e da areia branca.
Morosa massa plúmbea encobre o brilho,
Enquanto o sombreado descansa sobre o cume das ruínas
De uma torre, há muito esquecida  -
dos espaços de tempo
Indiferentes.

Na parte interna, escuridão, a que embarga
A visão – percepção soberana, mundana.
No declive, apenas o tato,
Tem por orientação paredes indefinidas, pregueadas,
Inumeráveis lances de escadas,
Sempre os mesmos.
Ao fundo, se ouvem ecos de aflições,
Acima, vibra uma queda de pedras.
Num choque ininterrupto em acercamento,
Mas sem surgir – ou abandonar a posição.

Passos peregrinos, sem sustento nem sentido.
Dissipou-se o começo, em passagens excludentes;
Trilha sem acesso, ser em suspensão,
Por meio do declive penoso,
E a subida frustrada, aguarda, desconexo,
Numa umidade espessa, sufocante –
Num fastio perene,
Esquecido da crença no acordar. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Imóvel o olhar que me empurra ao passado; hesito, enquanto todo o resto se excede e me supera. Do presente falho em persistir com a caminhada; - pois este já não me aceita mais pelo que me tornei.

Ambíguo esse vislumbre do que se foi, que arremesso ao futuro em seu semblante sereno e alheio; - e voltando alígero para o lugar de onde veio; supera-me, e em desdém vejo sua outra face.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

trilha sem pegadas de outra circunstância; roupas sem sustento, balouçando com o soar dos sinos, habituados ao contar dos minutos, dos segundos que não podem ser ouvidos, do tédio dos dias, da demora que engendra coisas que são desfeitas com o passar dos anos, do momento da espera por mais. o lapso da brisa que conduz o som, através do branco amarfanhado das roupas, indefinidas em inteireza, que me procuram, abundantes, cerceando; deslumbres, extasias – anima que no próprio âmago estua –. das nuvens migratórias elevando o ontem que não se quer de mim; o prolongamento da matéria; o conflito exasperante dos corpos, – a arritmia matutina; os lençóis vertidos em mortalhas sem nódoa, julgados pela brisa, disforme, violentamente, açoitando, bruscamente, ruidosamente; – o barulho, no passar do que é visível, na derrocada do dia, na solidão; na apatia hesitante que é suspensa com o tempo vertido em substância.

[um vislumbre dos lábios que se movem, sussurram à distância do próprio tempo. o involuntário movimento mecânico do corpo que anseia pelo que os olhos não podem ver, evidencia a fadiga e a inércia do julgamento. fadiga enquanto se cava os restos da totalidade – inércia do próprio desdém.]

seda vertida em ferro inviso, um nó de aço – insta a vítima, que se debate; sem poder se desfazer na eternidade; no pensamento que se eleva, que consome, e só nos cabe a observação expectante – do instinto primordial do universo de sujeitar cada coisa à sua própria queda –. pois mesmo em tecido amarfinado, e ornado nó tocado pelo vento – sendo um laço, não haverá de ser brando.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

transluze – agressões –
da ebúrnea tranquilidade entorpecente
lamento rubro fluído
inflamando sob o tato
a tomar-lhe, causticante
sangrando o toque - existência
profusa e intimamente
a largos passos murmurantes;
desapego lenitivo
resignado à lucidez
revestindo o que inebria

devastação;
incendido, ferimento,
espaçado
fina epiderme escura
carecendo, intimamente,
relativo encontro,
estrepe e pele
afrontando, fricção –
...e resvala.

transcorre rente à sinuosidade
secretando, deslocando
oscilante, suspenso estanque
entre o âmbito gravitacional;
hesitação, continuidade -
alastro ostensivo que pinga
desagregando numa poça.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

quietamente, sob a sombra de uma divindade com olhar conciliatório de atribuição luminosa, como o próprio sol. a sombra atribui forma ao brilho. forma-inexistência. elevado resto intuitivo; o pensamento, a metáfora, a natureza da expressão, o deslizar sutilmente, resto de resto, sombreado do pensamento; sempre acima. inexiste a palavra, sobra o resto, prolonga o gesto; o sorriso, que possui natureza silenciosa. se é válido reportar-se sobre a condição dos fenômenos, este é o fim.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

e findou o trajeto tal qual que pensa e caminha e pensa. ameno, absorto, em gesto cambaleia, considera as circunstâncias, alonga o andar austero pela pista, paralelo, disperso, disperso, disperso; evade-se rua-a-rua. a pista, passada, empecilho, é o retorno em novo movimento, faixa de pedestres, empecilho, desvio de rumo. não afeito a carros, mas a trem, perpassa lugares desconhecidos, investiga caminhos e em impossibilidade se retoma. o trilho se constitui a cada movimento, em visões-anomalias advindas do dentro-pálpebras e irradiadas ininterruptamente. o anseio tido num fim; casa, finda o ciclo. e recorda, e fez dádiva do imediato, silencia e provoca ânsia da queda-livre de um não-corpo em dormência.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Nomes chamuscam, clama-se por adoração, evoca-se o nulo, em não intervalos, em impensamentos. São brilhos agressivos, ondulações suaves; feixes de luz de cores infinitas. Descontinuam, Ser e nome.

O avermelhado na pele acobreada. O azul no torso arqueado. O violeta borrado é superfície branca. Deslizam lentas, gotas que se encontram em choque célere. Voz grave, timbres roucos em deleite; vazios sentidos se apuram; agressivamente nulo, ardilosamente íntimo. Movimento apressado, contínuo; encrespando-lhe o orgasmo encharcado de sexo. O cenário não muda, não movimenta, mas se desfaz. Flashes que cerceiam segundos nocauteados. As formas se focam na luz sem cor, multicor, insuperando no ato exprimido. Os corpos cessam, as luzes giram, os ruídos são distantes e contínuos. Perdido o êxtase, submetem-se. O espaço vê-se movediço. Uma queda do desfalecer. Há a necessidade de se desfazer da expressão, cedê-la ao exterior, tornar-lhe compreensível. Percebem, quietos, o ambiente. Gritos ocupam distâncias. Sorrisos lânguidos. O lugar é visitado pelo tempo, inevitável. O acanhado movimento orgânico é apreensivo. O silêncio da matéria retoma a vida que não se quer dela. Adormecem. Presenças fulgentes em sonhos ébrios.