terça-feira, 1 de abril de 2014


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Into utterness,

Into dizzying chaos, -
The eternal boiling chaos
Of my locks!

Behold thy lover, -
Stone!


Hart Crane




É notável a capacidade dos sonhos de nos colocar à frente do inesperado. Entre o meio da psicologia, no âmbito dos sonhos, é apontada a função de transferir o inconsciente ao primeiro plano. Fazer uso de metáforas para trazer questões pendentes e neuroses quaisquer à tona. Há casos em que o inconsciente é generoso, e que depravações terríveis relacionadas a desejos velados são mostradas através de símbolos cuja interpretação imediata nos é bloqueada.
Mesmo então, o estudo dos sonhos é incompleto e a subjetividade implicada em tudo isso é motivo de devaneios poéticos. É-me particular o fato de que, eu não posso tentar criar um equívoco a partir de inúmeras ocorrências desagradáveis, como ocorre na consciência. Meu senso lógico que está imerso no âmbito sentimental surge triunfante, e se une com um lapso de orgulho, expandindo-o. Não há nenhum encarar dos fatos, há a ignorância presumida, há a felicidade do controle.
Há particularmente duas circunstâncias que me causam medo, até onde entendo, no domínio consciente: mediocridade e esquecimento. Além dos impulsos naturais instintivos, como sobrevivência, o vulgo em meu interior torna evidente que o receio pela mediocridade (não à qual somos comumente subjugados, mas uma que se estende a um nível único e apenas pessoal; e aí eu posso encaixar o constrangimento num eufemismo) e pelo esquecimento se sobrepõem e moldam algumas decisões.
Então, eis, os sonhos.
Noite passada, um sonho de uma hora teve a duração do que pareceu ser uma semana inteira. E uma semana inteira de detalhes vividos do que eu conscientemente gostaria de me distanciar e ignorar, como tudo o que está pretensamente ao meu poder de escolha. Eventualmente soava como uma tortura em que você é obrigado a manter os olhos abertos enquanto várias imagens mentais de especificidades de um contexto de vida caminham e evidenciam sua insignificância. Não me recordo de ser tão impotente, mesmo em sonhos de violência propriamente dita.
Ignorando narrações e menções desnecessárias, eu despertei de uma metáfora, que implantou a motivação da escrita pela madrugada, antes de fazer qualquer coisa. Num primeiro momento, outra pessoa protagonizava o meu sonho e ele emulava o clichê da personalidade de um herói. Eu era uma moça ordinária, procurando manter a cabeça ocupada com amenidades (tentando ser isenta de culpa?). Até que, o herói mitológico, que estava no mesmo ambiente que eu, divagava naturalmente como se, à presença iminente do perigo, eu não representasse muito mais do que uma jovem que devesse ser protegida e que precisasse de pouca atenção. Num segundo momento, o sonho mudou quase por completo. Havia brilho e devaneios exaustivos, ainda assim (era um Quixote, esse herói). Sua dama logo chegaria. Mas, ao contrário de quaisquer metáforas advindas de delírios românticos, sua dama realmente era uma deusa. E tu, que vives de enganações és Medusa. Seu castigo e sua forma lhe são mais coniventes com suas infrações, e não poderias nunca se equiparar à Atena, que jamais se subjugou à decadência. Então, ela, a dama, seria Atena, que, na memória do mundo, representa todas as qualidades admiráveis da nobreza. Perpetuamente seria um ícone de idealizações, e calidamente forneceria euforia e coragem em seu estado virginal (embora a Atena do âmbito onírico mais se assemelhasse a uma adolescente contemporânea, irritação da qual meu inconsciente não poderia me poupar). E eu, bem, o que eu era, e a punição por nada moralmente aterrador que me foi dada, já se tornou evidente. Eu não poderia mais encarar minha própria face, e me recolheria ao esquecimento. À clareza da razão, o claustro do contorno do sonho não parece tão insuportável, e as conjunturas são compreensíveis. Não há realmente um problema com isso, eu diria.

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