Esta é uma carta de amor.
Não sobre o amor recente, fortificado pela fugacidade da juventude. Não sobre o amor onipresente, não sobre um amor já esquecido e até então revelado.
Escrevo para você como para meu sentimento. Não digo que meu amor é o maior do mundo, nem que minha vida se resume a você. Não vou guardar mágoas de mim mesmo por ter escondido até um período que já era tarde demais.
Eu me lembro da época em que me encontrava perdido dentro de mim mesmo, sem maiores ambições, enquanto você veemente me fazia encontrar com sentimentos de uma pureza que eu não conseguia compreender sem certa desconfiança, devido ao caos do meu próprio mundo; devido às minhas próprias reações sobre todos os infortúnios e todas as dificuldades que surgiam quase periodicamente em minha tão solitária vida.
Enquanto eu não sabia lidar com você, com sua inocência, quase por causa inteiramente da minha alma corrompida, você me segurou e me fortificou em seus braços, sem nenhum receio da minha ira. Sem nenhum receio do meu desprezo.
Então eu passei a ter medo que você se quebrasse. Em toda a minha feiúra interior, eu via você. As pessoas não te achavam tão bonita, mas eu via uma aura resplandecente que fazia meu coração se despedaçar e meu interior doer quando seu semblante se mostrava triste. Se sacrificando por um bem maior.
Durante certo período você foi embora. Não tinha confessado meu amor ainda, mas apenas me sentia freneticamente temeroso. Não queria que você se envolvesse com qualquer pessoa que fosse. Eu pensava em você durante longos períodos de uma depressão profunda, e me sentia cansado.
Não culpo o amor por minha atual tragédia. Culpo a mim mesmo. A maioria das pessoas tende a achar que o amor é o culpado por todos os infortúnios amorosos decorrentes de suas vidas. O amor pode ser infinitamente prazeroso se amarmos a pessoa certa. Muitos temem se relacionar e muitos se relacionam com pessoas erradas e sofrem conseqüências; e o amor sempre está lá. Algumas se martirizam por terem deixado o sentimento desabrochar quando poderia ser evitado, outras repudiam abertamente o amor quando o sentido de suas vidas lhes é tirado por uma fatalidade do destino...
Mas a culpa é das pessoas, não do amor em si. Talvez nem sempre seja de alguém. Talvez seja apenas um conjunto de fatos que se sucederam em cadeia e não puderam ser evitados pois não havia aviso prévio ou uma mera intuição de que algo estava para dar errado.
No meu caso, culpo a mim mesmo. Provavelmente se eu fosse outra pessoa, falaria que eu não teria como saber de nada. Mas eu reprimi todo esse sentimento durante tanto tempo e agora preciso de um porto-seguro para chorar. Essa é minha culpa; não pode ser tirada de mim tão fácil, eu me sentiria vazio.
Agora que você se foi para todo o sempre, sua memória permanece comigo. Não lembro de uma mulher num leito de hospital definhando, mas lembro da jovialidade que você demonstrava e de todo o carinho que você me dedicava. Eu me lembro de você; em memória a você. Eu me lembro de todo o infinito que eu pude sentir, mesmo que por pouco tempo ao seu lado.
Eu já não posso te entregar esta carta em mãos, mas esse é meu desabafo de tantos anos de mágoa guardada. Essa é uma forma de exprimir coisas que eu mesmo venho negado a mim mesmo tão veemente e que me dilaceravam o coração. Agora eu vou procurar um novo sentido para a minha vida; talvez eu já tenha descoberto e não saiba. Você iria querer isso.
Eu te amo.
3 comentários:
Pô, Seph, caramba, que bonito isso! =)
O momento passa... Mas a lembrança fica... Nada melhor que o tempo para curar. Lembre se o tempo passa lentamente quando se trata da nossa alma. Escolheu bem as palavras para descrever uma terrível dor.
Que liiindo, Luuh! *.*
♥
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